JB Online - Eleições 2002


















Infidelidade ao alcance de todos

Concorde-se ou não com a justeza e a lisura dos métodos, não se pode deixar de reconhecer que os candidatos a presidente estão adaptados aos costumes dos novos tempos. Todos maiores de 40 anos - uns bastante mais, outros bem menos -, José Serra, Ciro Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva e Anthony Garotinho nem parecem rapazes criados à época em que namoro era vínculo e noivado, compromisso.

Na virada do milênio, ''ficam'' com seus parceiros políticos numa desenvoltura adolescente cuja aparência esquisita muito provavelmente é mero fruto do conservadorismo do espectador. Por exemplo, onde foram parar as sedutoras trocas de gestos, olhares e palavras entre petistas e tucanos?

Ainda outro dia Lula ganhava direito a declaração de voto quase pública por parte do presidente Fernando Henrique Cardoso e assistia, impassível, à distribuição de elogios que seus correligionários mais próximos e poderosos faziam à excelência do candidato José Serra.

Ambos os grupos diziam que o enfrentamento recíproco na etapa final seria sinal de disputa qualificada, à altura de um novo Brasil. Veio a onda Ciro, os tucanos aplicaram-se com afinco, na bossa da conquista, para cima dos petistas.

Pois veja só o leitor que gente emocionalmente instável. Bastou que Serra esboçasse a reação e surgissem sinais de que, na hipótese de embate frontal, o governismo não seja exatamente um adversário café-com-leite (estamos hoje totalmente anos 60, pois não?), para que o amor se travestisse em rancor.

Eis que já estão os dois, Lula e Serra, tal cônjuges de maus modos em processo de separação, a expor as mazelas um do outro em praça pública. De respeitável, mas inexperiente, cavaleiro da esperança nas palavras de Serra, o candidato do PT passou a ambíguo defensor de teses contraditórias.

E Serra, antes companheiro de velhas lutas e vida profissional ilibada, já virou um ''chorão'' receoso de se assumir como candidato governista. E que não se iludam os senhores e as senhoras porque tudo indica que dias piores virão.

São os sinais desses novos tempos em que até na política os namoros são de ocasião. Garotinho sempre poderá argumentar que se manteve imune. Mas aí não foi por falta de tentativa e sim por escassez de par disposto a tirá-lo para dançar.

Se por um desses acidentes do destino vier a subir nas pesquisas, veremos que não eram as uvas que estavam verdes, mas ele que não as alcançava para lhes testar o paladar.

Bem, de Ciro Gomes não se pode dizer que não tenha tirado proveito da vida enquanto ocupou o posto de rainha do baile. Agora que começa a arrefecer o entusiasmo de alguns pares, o cenário acompanha a alteração.

Se a memória não se configura traidora, faz pouquíssimo tempo que o ex-governador Tasso Jereissati pulou no centro do palco, apresentado como interlocutor privilegiado de uma possível aproximação entre Ciro e FH. Este que também de ''ser desprezível'' havia sido promovido a homem sério e bem-intencionado.

Aparentemente, a idéia era isolar Serra sob o argumento de que importante é o dia de amanhã. Pois antes mesmo de começar, a obra quedou-se inacabada.

Como, de resto, vai se demonstrando inconseqüente e inconsistente boa parte dos relacionamentos que nesta campanha começam sem que haja compromisso entre os parceiros sobre os respectivos fins.

Pela volatilidade, a finalidade não leva em conta que a vida prossegue para muito além do dia seguinte às eleições.

Debates em questão

Cresce no tucanato a sensação de que os debates de televisão podem ser armadilha fatal para o candidato José Serra, transformado em sparing por ação conjunta dos postulantes de oposição.

Na noite seguinte ao último deles, havia quem pensasse seriamente em rever a participação de Serra nesse tipo de programa. O problema é que, até onde a vista alcança, não há argumentos plausíveis para justificar a ausência sem correr o risco de um prejuízo maior.

Ilusão de ótica

O senador Roberto Freire ontem atribuía a queda de seu candidato, Ciro Gomes, nas pesquisas à exibição de aliados como o ex-senador Antonio Carlos Magalhães no horário eleitoral.

O raciocínio não faz jus à lucidez política de Freire. Um tanto prejudicada, é verdade, desde o momento em que considerou Ciro um disciplinado adepto do projeto político do PPS e achou de somenos importância a acoplagem do PFL à candidatura.

Atribuir a culpa aos pouquíssimos segundos que Antonio Carlos apareceu no programa da Frente Trabalhista é transferir a responsabilidade a quem aderiu e não a quem avaliou mal o peso da adesão.



[05/SET/2002]

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