A semana foi, entre correligionários, aliados e simpatizantes de José Serra, de busca de uma explicação para o fraco desempenho do candidato. ''Por que ele não cresce?'' É uma indagação presente em todas as mentes e que intriga até os inimigos.
Mas foi mesmo um amigo, hoje falecido, quem há dois anos antecipava as dificuldades expondo razões que agora começam a ganhar espaço nessas conversas que misturam desânimo, perplexidade e esperança.
Mário Covas, então governador de São Paulo, apontado como opositor da candidatura de José Serra, certa vez, explicou que suas dúvidas quanto ao sucesso da empreitada nada tinham a ver com resistências pessoais. Ao contrário.
''Eu, se fosse o Serra, adiava esse projeto para 2006'', dizia ele, argumentando que seu sentimento era o de que em 2002 não seria ''a vez'' dos tucanos. Portanto, aconselhava, melhor Serra disputar o governo de São Paulo que se aventurar a uma - segundo ele - derrota certa para a Presidência.
Na opinião de Covas, de São Paulo para o Planalto, depois de um governo provavelmente não bem-sucedido da oposição, em 2006 Serra teria uma trajetória muito mais fácil. E por quê?
''Porque acho que a população está cansada de nós'', concluía Covas, lembrando que a era Fernando Henrique de fato começara, não em 1995, com a posse, mas dois anos antes com a ocupação do eixo central do governo Itamar Franco. Assim, quando deixar o Planalto, FH terá somado dez anos de poder.
Na época, a divulgação dessa posição de Covas provocou manifestação - não pública - de José Serra, admitindo que o raciocínio fazia sentido e, por isso, ainda hesitava entre a candidatura ao governo de São Paulo e a Presidência.
Não devemos esquecer que, assim como Covas, embora com menos assertividade, Serra foi contra a reeleição. Tese que continua defendendo, a ponto de já ter anunciado que, se eleito, proporá ao Congresso o fim da reeleição e a instituição de um mandato de cinco anos para o presidente.
É bastante possível que, na ocasião, Serra já fizesse a conta de que um segundo mandato de Fernando Henrique dificultaria seus planos de chegar ao Planalto em 2002 e, por isso, considerasse melhor que houvesse um intervalo de poder que permitisse um descanso à população.
Se, em outros países da América do Sul e da Europa, o efeito exaustão atingiu a esquerda francesa, os sociaisdemocratas espanhóis, os conservadores ingleses, o peronismo argentino e o personalismo autoritário de Fujimori - para citar apenas alguns longevos que forem apeados do poder -, no Brasil, novato em reeleições, provavelmente esse efeito seja acentuado.
Além disso, é do temperamento nacional o gosto pela novidade, ainda que o ''novo'' nem sempre seja necessariamente o melhor ou o mais adequado.
Esse cansaço poderia até mesmo atingir a candidatura de Lula e, nele, residir a explicação para a queda lenta, mas gradual do petista, e a subida constante de Ciro - caso a tendência permaneça.
Outro sinal de que o efeito exaustão pode ser mesmo um fator preponderante nas dificuldades que enfrenta José Serra é o fato de que ele não conseguiu preservar nem capitalizar o patrimônio de aprovação popular que amealhou durante sua passagem pelo Ministério da Saúde.
Mesmo em momento de baixa avaliação do governo Fernando Henrique, Serra permanecia em alta na percepção de que comandava um nicho de eficiência dentro da administração federal.
Os defensores de sua candidatura no PSDB e na base aliada imaginavam que essa aprovação poderia ser transposta para o candidato que, então, seria percebido como potencialmente eficiente em outras áreas.
Mas até agora não foi isso que aconteceu. Ao contrário, Serra perdeu pontos em relação ao índice de tendência de votos que conseguiu assim que assumiu a candidatura e, de seus feitos na Saúde, nunca mais se ouviu falar.
Com a agravante de que a questão da alegada falta de carisma assumiu uma dimensão que não existia quando ele era ministro. Ora, já que se trata da mesma pessoa, a questão que se põe é como lidar com isso, uma vez que charme e simpatia não eram exigidos do ministro, mas são considerados fundamentais para o postulante à Presidência.
Outra indagação recorrente entre o eleitorado serrista mais fiel é sobre a possibilidade de alteração desse cenário hoje desfavorável. Obviamente que é possível, ainda mais considerando que o quadro eleitoral já mudou algumas vezes e que ainda há tempo para se alterar.
O problema é que José Serra não precisa apenas crescer, mas recuperar o terreno perdido desde o lançamento da candidatura. E isso implica a necessidade de a campanha detectar com perfeição as razões que levaram a esse retrocesso.
Trata-se de uma tarefa difícil, uma vez que parecem pesar aí menos os dados objetivos e mais as motivações subjetivas. Entre as quais aquela a que se referia Mário Covas.