Depois de consolidada a tendência de se considerar que pesquisas de opinião são sinônimos de resultados eleitorais, agora, nesta eleição, verifica-se a perda quase total de cerimônia em relação à propaganda dita política.
De um lado, infringe-se a lei na maior desfaçatez, com propagandas de candidatos antes do prazo legal de 15 de agosto do ano em que se realiza o pleito e, de outro, adotam-se critérios completamente apolíticos para vender a imagem do candidato. O conteúdo pouco importa, o que se vê é um desejo de fixar a marca, tal como se faz com um produto em oferta no comércio varejista.
No primeiro caso, àquele onde os partidos - com exceções - agem ao arrepio da legislação, configura-se um quadro em que a Justiça Eleitoral não toma providência alguma, mas pelo qual também não se pode responsabilizá-la isoladamente. Nesses episódios, o Judiciário age sob provocação, mas, ao que se saiba, nenhum partido até agora contestou o fato de o horário eleitoral gratuito ter sido, na prática, antecipado em quase um ano.
Há bem pouco tempo, discutia-se a redução desse horário, até mesmo em respeito à paciência do telespectador. Agora, o que se vê, é uma espécie de acordo tácito entre os partidos, pelo qual ninguém reclama, com a esperança de que não seja também objeto de reclamação, caso venha a precisar do estratagema.
Admira muito, por exemplo, o PT - cujo programa baseou-se num lema estritamente partidário (''No fundo você também é um pouco PT'') e não eleitoral - quedar-se inerte ante o absurdo levado a termo pelo PFL e, veremos no dia 6 de março, talvez acompanhado pelo PSDB. O PSB de Anthony Garotinho foi bem mais composto que o PPB, que centrou todo o seu horário na figura do ministro Pratini de Morais, seu pré-candidato.
Já os pefelistas deram-se à total ousadia: infringiram a lei e ainda optaram por transformar o eleitor num consumidor. Da última vez, de cerveja, da próxima, ainda não sabemos de quê.
Considerando que esse tipo de publicidade visa a fixar uma marca e que, na pesquisa de opinião, é natural que o eleitor/consumidor lembre-se mais dessa marca quando se apresenta uma lista delas (no caso, os nomes dos candidatos a presidente), é óbvia a distorção do resultado do ponto de vista da escolha mesmo que será feita na urna.
Sim, porque nesta, o cidadão leva em conta o critério objetivo daquilo que considera prioritário para seu futuro imediato. Naquela, ele manifesta apenas uma lembrança.
Ao imprimir caráter semelhante a uma conclusão cujas premissas são diferentes, é evidente que se comete uma distorção. Apenas seria um exagero usar a palavra fraude, porque, como tudo o que inclui probabilidades, é evidente que não está fora de cogitação a hipótese de haver, lá na frente, uma coincidência entre intenção e gesto.
Agora, não raciocinar a respeito disso é ceder à enganação da parte de quem recebe o dado como informação incontestável, e desonestidade intelectual daquele que produz o cenário sem expor, com clareza, o nome e o significado de cada peça da montagem.
Não é por outro motivo que estamos, já há bom tempo, vivendo a ilusão de uma campanha que apenas agora começa a delinear seus primeiros esboços. Dessas definições de forma e conteúdo é que sairão - espera-se - as reais opções políticas de que disporá o eleitorado no dia 6 de outubro para definir o seu destino.
Daqui até lá, faz-se um jogo de cena no qual a publicidade substitui a política, o publicitário assume a condição de condutor de partidos, as pesquisas - e, por conseqüência as criaturas que respondem a elas - são usadas como instrumento de negociação intra e interpartidária, os políticos fazem movimentos de dar inveja ao poeta fingidor de Fernando Pessoa, a única mulher no páreo da sucessão presta-se ao papel de objeto (a cerveja) que tanto as mulheres lutam para deixar de cumprir e, naquilo que interessa ao eleitor, que é bom, acaba sendo no que menos se presta atenção.
Giro baiano
Só para conferir os efeitos da renúncia, um giro pela Bahia (Salvador) mostra que o ex-senador Antonio Carlos Magalhães ainda é uma força considerável. Mas não absoluta. Aqueles 70% que tinha no ano passado, hoje são pouco mais de 50%. Contabilize-se ainda que, ele não terá - para senador ou governador - o apoio do PMDB local e do PSDB nacional como na eleição passada.
Mais fácil o PT, com Jacques Wagner e o PMDB, com Benito Gama, aproximarem-se um do outro, do que o tucanato desta vez sair em busca de ACM. O líder da bancada federal do PSDB, Jutahy Magalhães, é queridíssimo do candidato José Serra e inimicíssimo de Antonio Carlos.
Outro fator que não favorece ACM é que, pela primeira vez, ele ficará de fora da sucessão presidencial. Para nenhum dos candidatos - nem Roseana, nem Lula, a quem declarou apoio no segundo turno - interessa ligar sua imagem ao ex-senador no cenário nacional.