Domingo, 28 de Outubro de 2001

O ''barata voa'' bem perto de FH

O presidente Fernando Henrique Cardoso ultimamente deu para ressuscitar algumas expressões em desuso. Outro dia falou em ''caminho da roça'', referindo-se à dissidência pemedebista, a fim de pontuar que os insatisfeitos deveriam tomar suas próprias trilhas. Pensaram que ele estava chamando Itamar Franco de caipira e buscando ofender a gente do campo. Agora chamou de ''barata tonta'' a oposição que, segundo ele, não tem discurso coerente e objetivo. Desta vez foi bem entendido e perfeitamente interpretado pela reação dos oposicionistas que não deixaram por menos: barata tonta é quem me diz, devolveram os alvos da algo injusta classificação porque, se tem alguém que não pode falar de falta de objetividade de ação nesta pré-campanha eleitoral, são justamente os governistas. No discurso, até se afinam - agora todo mundo é desenvolvimentista, algo protecionista e adepto do tudo pelo social -, mas quem chegou a incentivar oito possibilidades de candidaturas presidenciais, com todo respeito, não tem moral para falar do desacerto alheio. Mais correto do que chamar os outros de ''barata tonta'' estaria o presidente se reconhecesse o verdadeiro ''barata voa'' em que se encontram as hostes governistas no que tange à sucessão. Quando falamos em oito candidaturas, a referência é exclusiva ao PSDB - José Serra, Tasso Jereissati, Paulo Renato, Pedro Malan, Aécio Neves, Dante de Oliveira, Pimenta da Veiga e Geraldo Alckmin. Isso sem contar Roseana Sarney, Marco Maciel, Antonio Carlos Magalhães, Itamar Franco, Michel Temer, Jarbas Vasconcelos, Delfim Neto e Pratini de Moraes, para falarmos naqueles que já chegaram a ser lembrados como hipóteses. Hoje, a distância, alguns nomes parecem risíveis, mas já refletiram o que o Planalto pretendia que fosse uma estratégia. Aquela do todo mundo e ninguém, para ir ganhando tempo e deixando o adversário se desgastar. Agora, porém, com as baratas voando no PMDB, o PFL propondo prévias que ninguém quer, Tasso Jereissati e José Serra partindo para o embate frontal e nenhum deles conseguindo ainda unir o restante da aliança, fica nítido um risco do qual já falamos há tempos: de tanto querer confundir, o presidente poderia acabar falando sozinho. Está lá, agora, ele na Europa com os presidente dos três principais partidos - PMDB, PSDB e PFL - da aliança cumprindo uma agenda internacional e, ao mesmo tempo, pretendendo dar algum sinal (de compreensão ainda difícil) relativo aos acertos da sucessão nacional. Considerando que Fernando Henrique não precisaria levar os três tão longe, nem nenhum deles pode se considerar especialmente reverenciado, a ponto de garantir apoio só por causa de uma viagem à Europa - roteiro que estão cansados de cumprir -, sobra apenas uma conclusão: o presidente quis produzir uma impressão. Fez um lance de propaganda, cuja utilidade por enquanto é discutível. Pelo menos até que se esclareça o sentido da excursão. Pode ser que FH tenha uma proposta genial e definitiva, cuja exposição só poderia se dar às margens do Sena ou nos jardins do Museu do Prado, porque o cenário do Palácio do Alvorada não seria suficiente para a grandiloqüência da solução. Fora isso, é jogo de cena. Coisa, aliás, que até onde alcança a vista, é só isso que o campo governista conseguiu produzir até agora para o respeitável público. Errado pode ser até que não esteja, veremos logo que a estratégia do ''baratoa voa'' poderá revelar-se eficientíssima. Mas ao classificar as baratas alheias de tontas enquanto as suas próprias voam às cegas, perdeu-se uma oportunidade de conferir a lei segundo a qual proprietários de telhados de vidro necessitam prudência no manejo de grandes pedras.

Ovelhas de presépio

Muito se falou que os discursos de Tasso Jereissati e José Serra teriam irritado o governo, e, em especial, o ministro Pedro Malan, pelas posições críticas à atual política econômica. Tasso, excessivamente intervencionista, e Serra algo desenvolvimentista demais. Se é verdade - o que parece pouco provável - FH e Malan talvez tenham dois trabalhos: irritarem-se e conformarem-se. A menos que esperassem que os postulantes à sucessão se conduzissem obedientes como ovelhas de presépio, deveriam eles e o PSDB dar graças aos céus de poderem contar com quadros que tenham luz, voz e pensamentos próprios. Afinal, o sucessor, mesmo sendo do partido do presidente, não tem a menor obrigação de seguir-lhe a cartilha ao pé da letra. Ainda mais quando várias dessas letras parecem desfocadas às visão da sociedade. Democracia não é dinastia e o governo Fernando Henrique Cardoso acaba no dia em que começar o próximo. Seja seu comandante de oposição ou de situação, é evidente que haverá alguma - em menor ou maior grau - mudança de rumo.

Mau conselho

Consta que a defesa do protecionismo europeu aos produtos agrícolas, feita por Luiz Inácio Lula da Silva na França, resultou de uma orientação do Luis Favre, o franco-argentino assessor da Prefeitura de São Paulo e namorado de Marta Suplicy, que viajou com ele. Favre é ligado ao Partido Socialista francês, ao qual obviamente é cara a tese do protecionismo.

dkramer@jb.com.br


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