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A alternativa

Depois de haver recebido, em Juiz de Fora, José Dirceu e Anthony Matheus, mais conhecido como Garotinho, Itamar Franco telefonou anteontem ao governador Aécio Neves, para comunicar-lhe a decisão de comparecer à Convenção Nacional do PMDB, e, ali, disputar a candidatura à Presidência da República. Itamar disse ao governador que respeita seus compromissos partidários e não quer constrangê-lo. Estava cumprindo um dos ritos da política montanhesa, que é o do respeito ao Palácio da Liberdade, com uma razão a mais. Sempre desejou que o governador fosse o candidato de Minas. Não tendo Aécio postulado a indicação de seu partido, acredita ser de seu dever oferecer-se à nação em nome das montanhas.

Itamar se surpreendeu com novos e inesperados apoios vindos do PMDB de São Paulo e do resto do país. Michel Temer, presidente do partido, disse-lhe que via sua disposição de comparecer à convenção como poderoso aporte à tese da candidatura própria. Dia 29, a direção do partido reunirá, em Brasília, os dois candidatos e os governadores eleitos pela legenda, a fim de discutir a atualidade do quadro político. Em tese, essa reunião serviria para que a direção partidária decidisse entre a candidatura própria e o apoio ao presidente Luís Inácio, já no primeiro turno. Mas com a posição conhecida dos diretórios do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, entre outros, será difícil impedir que o partido tenha seu próprio candidato nas eleições de outubro.

O ex-presidente sente-se estimulado à disputa, ainda que mantenha, como é de sua índole, as cautelas costumeiras. Ele não parece disposto a responder ao ex-prefeito de Campos e ex-governador do Rio de Janeiro. Este, mal chegou ao Rio, depois do encontro de Juiz de Fora, dirigiu seus ataques ao companheiro de partido, por ter recebido a visita de José Dirceu. Itamar se disse disposto a receber quem o procurar e receber pela porta da frente. Não se sente obrigado a explicar por que esteve com o ex-ministro da Casa Civil, de quem é amigo. O que disseram, Dirceu e Itamar, ficou, por enquanto, entre os dois mineiros. Mas o silêncio de ambos não impede as especulações. Dirceu não foi a Juiz de Fora - em dia tão emblemático - apenas para tomar o café de Maria, a fiel cozinheira de Itamar, e conversar sobre os inconfidentes, cuja evocação oficial se aproxima.

Itamar tem estratégia própria. Se escolhido pelo PMDB, não tomará a iniciativa de hostilizar os candidatos adversários, mas está disposto a não deixar sem resposta os ataques de que for vítima. Ele sabe que essa campanha será pesada, sobretudo entre as duas candidaturas já postas. Ao ocupar uma terceira posição, o ex-governador de Minas se sente à vontade para dizer o que fez, em seu mandato reduzido, e para exercer postura nacionalista, sem chauvinismos ociosos. Sendo homem de Juiz de Fora, cidade que foi industrial antes de São Paulo, e descendente de europeus, ele nunca se opôs à participação de capitais estrangeiros na economia nacional. O que ele reclama é o dever de o Estado controlar os setores estratégicos, e a indelegável responsabilidade do governante em zelar pela moralidade administrativa.

Dizia Milton Campos que Jânio Quadros se elegia com seus defeitos e governava com suas qualidades. Itamar não consegue separar os dois movimentos. Ele é o mesmo, com seus defeitos e qualidades, seja pleiteando o poder, seja exercendo-o. Nisso é bem diferente do sucessor que ele, Itamar, elegeu com o seu apoio. Em razão dessa diferença, o mineiro chegou ao fim do governo com os mais altos índices de aprovação em nossa história republicana.

A cidadania está exausta de tantas denúncias de corrupção e anseia por um líder que saiba governar com retidão, dentro da lei, como fez o político mineiro, naqueles meses em que, abalada pelos escândalos do governo Collor, o povo readquiriu sua auto-estima e confiança no futuro. Foi uma pena que o seu sucessor, embriagado pelas pompas do poder, agisse como agiu. Ainda que não se possa afirmar que Itamar chegue facilmente ao segundo turno, a sua disposição em disputar é um alento para todos aqueles que anseiam por uma terceira porta.

[14/ABR/2006]

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