Blaise Pascal (1623-1662), gênio da matemática, inventor da máquina de calcular, filósofo e místico, percebeu, de golpe, a grande contradição dos tempos modernos que acabavam de se firmar: a desarticulação entre dois princípios que ele chamou de
esprit de géométrie e
esprit de finesse. Espírito de geometria representa a razão calculatória, instrumental-analítica, que se ocupa das coisas, numa palavra, a ciência moderna que com seu poder mudou a face da Terra. Espírito de finura, que nós traduzimos por espírito de gentileza, representa a razão cordial -
logique du coeur (a lógica do coração), segundo Pascal - que tem a ver com as pessoas e as relações sociais, numa palavra, com outro tipo de ciência que cuida da subjetividade, do sentido da vida, da espiritualidade e da qualidade das relações humanas.
Ambas as razões são necessárias para darmos conta da existência. Que faríamos hoje sem a ciência? Que seríamos sem a ética, os caminhos espirituais e a psicologia? O drama da modernidade consiste na desarticulação dessas duas razões imprescindíveis. De início, se combateram mutuamente; depois, marcharam paralelas e, hoje, buscam convergências na diversidade, no esforço, ainda que tardio, de salvar o ser humano e a integridade da natureza. O fato é que o espírito de geometria foi inflacionado; com ele criamos o mundo dos artefatos, bons e perversos, desde a geladeira até a bomba atômica. O espírito de gentileza jamais ganhou centralidade; por isso somos tão vazios e violentos. Hoje ele é urgente. Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos.
Por que escrevo tudo isso? Por causa da violência do Rio de Janeiro. Esta cidade foi uma das mais ridentes da Terra. O esplendor da natureza havia celebrado um casamento feliz com a cordialidade das pessoas. Perdemos a cordialidade e a natureza não é mais a mesma. Ela está lá mas não nos dá mais alegria, porque nossos olhos se turvaram pelo quadro da violência e o nosso coração dispara de medo e de desconfiança. Temos de ouvir o apelo de quem conhece a cidade partida, o mestre Zuenir Ventura: precisamos do espírito de gentileza.
Houve um homem enviado ao Rio por Deus. Seu nome era José da Trino, chamado de Profeta Gentileza (1917-1996). Por mais de 20 anos circulou pela cidade com sua bata branca cheia de apliques e com seu estandarte. Pregava nas praças e colocava-se nas barcas entre Rio e Niterói anunciando sem cansar:''Gentileza gera gentileza''. Só com gentileza, dizia, superamos a violência que se deriva do ''capeta-capital''. Inscreveu seus ensinamentos ligados à gentileza em 55 pilastras do viaduto do Caju, à entrada da cidade, recuperados sob a orientação do professor Leonardo Guelman, que lhe dedicou um rigoroso trabalho acadêmico, acompanhado de vídeo e um belíssimo CD-ROM com o título Universo Gentileza: a gênese de um mito contemporâneo.
Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a gentileza e a aplicarem gentileza em toda a Terra.
Sua mensagem é de extrema urgência no Rio dos dias atuais. Não bastam os patronos que temos, São Sebastião e São Jorge. Eles ainda usam símbolos de violência, a flecha no corpo e a lança contra o dragão. Precisamos de um símbolo puro como o Profeta Gentileza. Voltaremos ainda a ele.