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Do exercício do poder


Poder não se define, se exerce. Numa visão realística, podemos discernir três formas de exercício do poder.

1. O poder-mão-fechada. É o poder autoritário, concentrado numa única mão, fechada, por isso não participativo e excludente. Coloca sob censura opiniões divergentes, pune contestações, desconfia dos cidadãos, governa infundindo medo. A única relação admitida é a adesão acrítica e a subserviência. Regimes ditatoriais e empresários-coronéis corporificam o poder-mão-fechada.

2. O poder-mão-estendida. É o poder paternalista. O detentor de poder delega poder a outros, sob a condição de manter o controle e a hegemonia. A mão estendida é para dar tapinhas nas costas, facilitando a adesão. Organizações populares e sindicatos são até incentivados, desde que não tenham projeto próprio e aceitem se atrelar ao projeto dos grupos dominantes ou do Estado centralizador. Foi o que predominou no Brasil ao longo de nossa história política.

3. Poder-mão-entrelaçada. É o poder participativo e solidário, representado pelas mãos que se entrelaçam para se reforçarem entre si e assumirem juntas a co-responsabilidade social. O projeto, sua implementação e os resultados são assumidos por todos. As organizações são autônomas, mas se relacionam livremente com outras, em rede, para alcançar objetivos comuns. É um poder que serve à sociedade e não se serve da sociedade para outros fins. Esse é o poder intencionado pela democracia. Só esse poder possui teor ético e pode ser chamado de autoridade. Usa-se o poder para potenciar o poder de todos. É o poder-serviço e instrumento das transformações necessárias.

Para impor limites ao demônio que habita o poder (ele quer sempre mais poder), se fazem imprescindíveis algumas medidas sanadoras. Destaco as principais.

Todo poder deve ser submetido a um controle, normalmente pela ordenação jurídica em vista do bem comum. Deve vir por delegação, quer dizer, deve passar por processos de escolha dos dirigentes que representam a sociedade. Deve haver divisão de poderes, para um limitar o outro. Deve haver rotatividade nos postos de poder, pois assim se evitam o nepotismo e o mandarinato. O poder deve aceitar a crítica externa, submeter-se a uma prestação de contas e a uma avaliação do desempenho dos que o exercem. O poder vigente deve reconhecer e conviver com um contrapoder que o obriga a ser transparente ou ver-se substituído por ele. O poder tem seus símbolos, mas devem-se evitar títulos que ocultam seu caráter de delegação e de serviço. O poder deve ser magnânimo, por isso não se há de tripudiar sobre quem for derrotado, antes, valorizar cada sinal positivo de poder emergente. O poder verdadeiro é aquele que reforça o poder da sociedade e assim propicia a participação de todos. Os portadores de poder nunca devem esquecer o caráter simbólico de seu cargo. Neles os cidadãos depositam seus ideais de justiça, equidade e inteireza ética. Por isso devem viver, privada e publicamente, os valores que representam para todos. Quando não há essa coerência, a sociedade se sente traída e enganada. Quem ambiciona excessivamente o poder é o menos indicado para exercê-lo. Bem disse São Gregório Magno, papa e prefeito de Roma: ''Usa sabiamente o poder quem sabe geri-lo e, ao mesmo tempo, sabe resistir a ele.''


[06/FEV/2004]


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