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O 'ethos' responsável


Os limites da Terra na sustentação da voracidade do crescimento mundial e do correspondente consumismo se encontram em rápida fase de esgotamento. Para operar uma autêntica virada não bastam os apelos dos organismos mundiais que estudam o estado da Terra nem as diretrizes governamentais. Faz-se urgente uma verdadeira revolução molecular a partir das consciências dos filhos e filhas angustiados de nosso planeta. O ethos que procura, dominante no mundo, não tem condições de sozinho fornecer os instrumentos para um salto de qualidade. Ele se desmoralizou porque não conseguiu evitar o genocídio dos indígenas latino-americanos, o holocausto nazi-fascista, os gulags soviéticos, as armas de destruição em massa, as guerras de prevenção recentes e a devastação do modo de produção capitalista com a geração crescente de miséria e exclusão. Consegue se impor não por argumentos mas pela força. Uma convicção surge nas consciências mais despertas: ou a civilização planetária deixa de ser prevalentemente ocidental ou vai deixar de existir. Somos obrigados a desenvolver um ethos de ilimitada responsabilidade por tudo o que existe e vive, como condição de sobrevivência da humanidade e de seu habitat natural.

Responsabilidade é a capacidade de dar respostas eficazes (responsum em latim, donde vem responsabilidade) aos problemas que nos chegam da realidade complexa atual. E só o conseguiremos com um ethos que ama, cuida e se responsabiliza. Responsabilidade surge quando nos damos conta das conseqüências de nossos atos sobre os outros e a natureza. Hans Jonas, o filósofo do ''princípio de responsabilidade'' formulou assim o imperativo categórico: ''Aja de tal maneira que as conseqüências de suas ações não sejam destrutivas da natureza, da vida e da Terra''. Esse imperativo vale especialmente para a biotecnologia e aquelas operações que intervêm diretamente no código genético dos seres humanos, de outros seres vivos e de sementes transgênicas. O universo trabalhou 15 bilhões de anos e a biogênese, 3,8 bilhões, para ordenar as informações que garantem a vida e seu equilíbrio. Nós, numa geração, queremos já controlar esses processos complexíssimos, sem medirmos as conseqüências de nossa ação. Por isso, o ethos que se responsabiliza impõe a precaução e a cautela como comportamentos éticos básicos.

Esse ethos se impõe algumas tarefas prioritárias. Quanto à sociedade, cumpre deslocar o eixo da competição, que usa a razão calculista, para o eixo da cooperação, que usa a razão cordial. Com referência à economia, importa passar da acumulação de riqueza para a produção do suficiente e decente para todos. Quanto à natureza, urge celebrar uma aliança de sinergia entre o manejo racional do que precisamos e a preservação do capital natural. Quanto à atmosfera espiritual de nossas sociedades, importa passar do individualismo e da auto-afirmação para a construção do bem comum e do espírito de cooperação.

A responsabilidade revela o caráter ético da pessoa. Ela se percebe co-responsável junto com as forças diretivas da natureza pelo futuro da vida e da humanidade. Ao assumirmos responsavelmente nossa parte, até os ventos contrários ajudam a conduzir a Arca salvadora ao porto.


[01/AGO/2003]


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