Muitos temos sentido profundo abatimento por causa dessa guerra ilegítima e vergonhosa movida contra o Iraque. Na verdade, não foi uma guerra entre combatentes, mas uma invasão e um massacre. Dada a violência ''inteligente'', nos perguntamos angustiados: quem somos nós, errático serzinho da Terra, perdido na imensidão do espaço, capaz de tanto ódio e devastação? E nos envergonhamos de nós mesmos. Merecemos ainda viver junto com os demais seres, já que nos fizemos o Satã da Terra? Será que no processo de evolução não surgirá outro ser com mais benevolência, amorosidade e vontade de paz?
Mas de nada adianta pensar assim, pois seria fuga da dura realidade. A realidade é que o governo Bush decidiu resolver os problemas mundiais usando o que o faz imbatível, a guerra tecnológica. Nessas condições é possível ainda a paz? Recusamo-nos a aceitar a solução resignada de Freud, respondendo em 1932 a uma consulta de Einstein sobre a possibilidade de evitarmos a guerra: ''Esfaimados, pensamos no moinho; que tão lentamente mói, que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha''.
Acreditamos na paz, possível sob duas condições: a primeira, de acolhermos a polaridade amor-ódio, opressão-libertação, caos-cosmos como pertencendo à condição humana, pois, somos a unidade viva dos contrários; segunda, de reforçarmos de tal maneira o pólo luminoso dessa contradição que ele possa manter sob controle, limitar e integrar o pólo tenebroso. Esse é o caminho aberto pela sociedade civil mundial, preparado, há seculos, por aquele que foi talvez o ''último cristão'' e o ''primeiro depois do Único'', Francisco de Assis. Encontramo-lo na ''Oração de São Francisco pela paz'', rezada sempre nos encontros de líderes religiosos do mundo inteiro, qual credo no qual todos se encontram. Essa oração foi elaborada durante a Primeira Guerra Mundial, por um anônimo da Normandia, amante de São Francisco, de quem colheu o espírito e as principais palavras. Mas o fez de forma tão fiel e verdadeira que se transformou na oração do próprio São Francisco de Assis. A linguagem é religiosa mas a mensagem é universal.
Não obstante seu enternecimento, chamando a todas as criaturas de irmãos e irmãs, Francisco de Assis não perde o sentido da realidade contraditória. Não se questiona por que é assim. Na sabedoria dos simples, intui que o mal não está ai para ser compreendido mas para ser superado pelo bem, que a parte sã cura a parte doentia e que a luz integra as trevas na forma de sombra. É só nessa medida que o mal deixa de ser totalmente absurdo e se dilui no código de todas as coisas. Então suplica: ''Onde houver ódio que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia que eu leve a união; onde houver dúvida que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza que eu leve a alegria; onde houver trevas que que leve a luz e importa mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido e amar que ser amado''.
O efeito dessa estratégia sapiencial é a paz, possível aos seres contraditórios que somos e a esta Terra conturbada. É pouca coisa, quase nada. Mas representa a força que se esconde em cada semente, por menor que seja.