Quando o Senhor K. chegou ao trabalho percebeu que tinham cortado um pedaço do tampo da sua mesa. No decorrer da semana lacraram algumas gavetas e cerraram os pés do móvel. Como ele sabia que um novo Faraó havia assumido a direção da repartição, resolveu esperar. Estava acostumado. O que incomodava mesmo eram os bastões de incenso com cheiro de fritura que acompanhava este processo.
O ritual da fritura foi inventado pelo Mega Faraó Tutambém Primeiro. Tutambém, que andava fazendo alguns cursos de psicologia do trabalho, resolveu implantar o ritual da fritura como maneira de não ofender os funcionários quando queria tirá-los do posto. O Senhor K., antigo naquela repartição, percebeu que a sua vez estava chegando quando o incenso sobre a mesa do Faraó começou a queimar. Decidido, resolveu ir direto conversar com Tutambém Primeiro.
Tutambém ouviu as ponderações, bateu no ombro do escriba e disse que ficasse calmo, que não havia nenhuma queixa contra ele e que o apoio que tinha no partido era forte, o seu lugar estava assegurado. De nada adiantaram os conselhos. O temor que o Senhor K. sentia se alastrava pela sala junto com o cheiro que não parava de aumentar. Seus colegas, com medo de no dia seguinte descobrir que havia alguém em suas cadeiras, nem iam mais para casa, dormiam pelos cantos. Quando saíam da sala, deixavam tachinhas nos assentos, cola derramada no interior das gavetas ou inseticida no bocal do telefone. Alguns acabaram intoxicados pelo próprio veneno. Vendo o clima que se alastrava, o Senhor K. perdeu as dúvidas que ainda tinha e concluiu, com os poucos botões que lhe resta- vam, que a peste emocional chegara ao escritório.
Foi o Dr. Wilhem Reich, o famoso psicanalista alemão, quem diagnosticou a Peste Emocional no programa a que o Senhor K. assistiu pela televisão. Em vez de as pessoas se unirem exigindo o fim daquela situação que se alastrava por todo lado, os funcionários se comportavam com os colegas como se estes fossem inimigos. Assimilando os hábitos de Tutambém, aprenderam a fritar, invejar, falar mal, culpar e espalhar boatos sobre a vida dos outros. Entusiasmado com o que ouvia, o Senhor K. tratou de comprar o livro do Dr. Reich, Der Karakter Analisis. Segundo o psiquiatra, a pestilência só poderia ser curada com a ajuda do amor e da solidariedade, da liberdade, da sexualidade prazerosa, e com a ajuda da percepção do quanto o medo levava as pessoas a transformarem os seus próximos em inimigos.
Entusiasmado com o livro, o Senhor K. passou a noite traduzindo alguns capítulos, disposto a levar os textos para o escritório na manhã seguinte e a convencer os outros a mudar de rumo. Faria reuniões, mostraria a importância de não seguirem os exemplos que vinham de cima, relembraria o tempo de solidariedade em que viviam antes do novo Faraó aparecer. O Senhor K. estava decidido a mudar o rumo das coisas.
Quando chegou à repartição, reparou que a porta do escritório não existia mais. O novo Faraó, e os outros colegas, aparentando pânico e descontrole, tateavam as paredes em busca do lugar onde antes existiam dobradiças, maçanetas, e o aviso em letras bordadas em dourado sobre o fundo de vidro dizendo: "Entre sem bater".
No seu lugar, uma placa pendurada na parede dizia para quem quisesse acreditar: "Desculpe, estamos trabalhando para o seu maior conforto".