Conhece a história do homem que cruzou a Polônia em pleno inverno para fazer uma pergunta a um rabino? Quando foi recebido e apresentou a questão que o levou ao longo de quilômetros de terras congeladas, o mestre, impressionado com o que ouviu, cedeu-lhe o lugar e retirou-se para meditar por meses. Não sei se o peregrino teve a resposta nem o que fez com a honra inesperada, mas fica claro que as perguntas merecem serem tratadas com o respeito de um ensinamento. Alimentam o pensamento, fazendo com que ele resista às conclusões ligeiras. Sem elas os diálogos são substituídos pelas verdades inquestionáveis das campanhas publicitárias. As perguntas e comentários que recebo me mostram que do outro lado desta página existem aliados neste esforço de pensar.
Lygia me pergunta por e-mail por que na última coluna digo que numa terapia bem-sucedida terapeuta e paciente se curam ao mesmo tempo. É preciso deixar claro que, com a palavra cura, quis me referir à capacidade de transformar os hábitos mentais e emocionais adquiridos ao longo da vida. Como uma espécie de sintoma, eles nos acompanham, e livrar-se deles, sabemos, é um processo extremamente difícil.
Na família onde nascemos aprendemos a conquistar um lugar ao sol, a agradar para sermos amados e a conter sentimentos e pensamentos. Assim vamos formando nossos padrões de sentir e de pensar. No fundo, aquilo que orgulhosamente chamamos de eu é um punhado de técnicas de adaptação e sobrevivência desenvolvidas desde que chegamos ao mundo. Elas nos carregam enquanto pensamos que nós é que as levamos vida afora.
As pessoas interagem suas técnicas de sobrevivência transformadas em padrões de relacionamento. Os padrões funcionam como qualquer sintoma difícil de largar. Os sintomas e os padrões organizam a vida de maneira que se transformam em garantia de segurança. Preso ao padrão de comportamento, à técnica ou ao sintoma, o encontro com o outro corre o risco de se tornar uma tentativa de adaptá-lo ao próprio modo de existir. De maneira oposta, quando nos abrimos para a dife- rença nos obrigamos à transformação.
Na entrega ao encontro, somos convocados a um árduo processo de aceitação do próximo. Na busca do outro, contraímos o eu e descobrimos em nosso repertório repetitivo de viver modos diferentes de sentir, pensar e agir. Mas é preciso perder o medo que acompa- nha as mudanças de hábitos que, ao longo da vida, se transformaram na identidade de cada um.
Retomando a pergunta da Lygia, o psicoterapeuta preso a sua técnica de trabalho corre o risco de transformá-la numa espécie de sintoma, numa máquina de repetir padrões que não discrimina as diferenças entre as pessoas. Na vida amorosa, na atividade profissional e, se quisermos, podemos incluir aqui as guerras entre culturas, abrir-se para a diferença pode ser um grande incentivo para mudar os hábitos repetitivos que limitam a vida de cada um. É neste sentido que emprego a palavra cura.
Igual a tudo na vida, para transformar alguma coisa é preciso cultivar a arte do desencontro, embora, aparentemente, existam tantos encontros pela vida. Um bom domingo.