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Correntes de vida


O Dia dos Pais começou perfeito. Chuva, frio, projeto de almoço, leitura na cama até pintar o momento de sentar diante do computador. Sou escritor de domingo. Os assuntos brigam ao longo da semana e eu, esperando, deixo que me escolham. O e-mail da Karen, prima distante que mora nos EUA e repôs o avô Guershon na minha vida - sentia que o assunto seria este. Enquanto decidia a caçula entrou cantando Parabéns pra você e estendeu o presente acertando em cheio a alma do pai.

Quando abri vi o rosto do Hélio Pellegrino me olhando com aquele jeito que conheci ao longo de dez anos de divã, ouvindo seus discursos endereçados ao meu inconsciente rebelde e resistente. As mãos intensas, os gestos cheios de paixão, a voz tonitruante me chamando de Abramovitch, apelido que inventou, as risadas e discussões que só terminavam na porta. Duplo presente. O que ela me trouxe no Dia dos Pais, novamente, foi a lembrança revisitada de quem, além de psicanalista, foi um pai que me empurrou em dire- ção ao pai verdadeiro que, àquela altura, não via há mais de dez anos e, quis o destino, acabou morrendo meses depois do Pellegrino. Hélio tinha estas coisas, na falta de outro nome chamávamos de psicanálise aquele rito de paixão, intensidade e comprometimento que realizávamos algumas vezes por semana no consultório que mais parecia uma galeria de arte.

Resolvi escrever sobre os dois, aceitando o fato de que é agudo o sentimento que acaba determinando este exercício de escrita chamado crônica. Atravessado pela presença do Hélio, deixei-me levar em direção ao avô Guershon, que há duas semanas surgiu em meu computador e me deixou perplexo. Foi a Karen, parte de uma família que se espalhou pelo mundo, quem mandou os dados que descobriu pesquisando parentes na internet. Na tela do computa- dor, eu olhava perplexo a ressurreição do meu avô. O endereço era conhecido, decorei de tanto ouvir minha mãe repetir onde morara na Polônia, só que agora vinha em alemão. Alexanderhoff Strasse, 13, apartamento 30, Lodz, alfaiate, nascido em 1889, o avô morreu prisioneiro, no dia 14 de fevereiro de 1942, no bairro transformado em gueto pelo exército alemão. Olhei espantado, desconfortável, emocionado.

Tenho na mesa de trabalho um enferrujado relógio de bolso com o mostrador de cerâmica rachado e a marca, Amerika, em letras rebuscadas. Era a única lembrança do avô Guershon Goldenfan, que só conheci de uma foto vestido com o uniforme do exército polonês. Um relógio Amerika sem ponteiros, em que o tempo, parado, esperava a revelação que nem minha mãe nem minha avó, saídas da Polônia um mês antes da guerra, chegaram a conhecer. O que fazer com a notícia agora que sei que o avô, alfaiate de crianças, morreu de insuficiência cardíaca, após três anos aprisionado e isolado dos parentes? Lembrei-me das vésperas do sábado, quando, em vez de duas velas rituais, a avó acendia seis, enquanto chorava envolta no xale preto e nós, em silêncio, sabíamos por quem. Pensei numa crônica, passar adiante a notícia, manter viva a memória de um assassinato que tinha deixado de ser anônimo. Criar correntes para não esquecer.

Hélio, Thais, eu, o avô Guershon, o pai Isaac, o ir- mão Luiz e a Antonia, que não conheço, mas gostaria, e que fez o lindo livro que ganhei para que também seu avô não se perca no alçapão do tempo, somos parte de uma mesma corrente que quer manter viva a dignidade da vida. Dizem que os avós se perpetuam nos netos, talvez porque neles percebemos a presença da corrente de vida e memória, deve ser isso ser pai.

Um bom domingo.


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[15/AGO/2004]


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