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O Generoso Che
[16/MAI/2004]
Nossos escritos são nossas próprias leituras do mundo e, curiosos como naturalmente somos, procuramos encontrar alguém que pense da mesma forma, nos basta ao menos um. Acontecendo, permitimos que outros possam discordar de nós totalmente e até venham a gerar uma nova forma no nosso próprio ato de ler". É através da carta de J. Marcos que agradeço aos leitores que participaram do balanço do primeiro ano de página. Acerta o missivista ao dizer que os escritos não passam de uma leitura do mundo que traz para perto os semelhantes e estabelece contato com os diferentes. Meu próximo não é meu semelhante, costumava dizer um dos meus mestres preferidos, o psicanalista mineiro Célio Garcia.
Sempre fiquei curioso em saber como o leitor, um próximo diferente, receberia meus escritos onde aparecem os meus gurus judeus aos quais ele não está acostumado. Sinto-me esclarecido nas minhas dúvidas quando vejo como o J. Marcos utiliza e aprofunda com naturalidade o conceito de contração retirado da cabala e ao qual sempre volto, como um dos meus três temas prediletos. Contração receptiva, eis o mistério do que chamamos de relação e que se reflete na comunicação que tecemos nesta página. Um mestre cabalista do século 16, o Ari de Zfat, da Galiléia, fez a pergunta: se tudo é Deus, como pode haver mundo? De modo surpreendente, concluiu que Deus se contraiu para que pudesse haver um espaço desocupado de sua presença e onde o mundo pudesse existir. Neste caminho, outros sábios construíram uma visão em que a relação entre os homens só pode existir à medida que aprendemos a contrair a mente para que o outro se faça mundo. É esse o motor de toda generosidade.
Generosidade é atitude que só surge se aprendemos a contrair a nossa mente egoísta por natureza e deixamos que o mundo nos afete e nos surpreenda. Esta generosidade tão fora de moda é que levou o jovem Che, montado na La Poderosa, a encontrar no meio da selva amazônica o início de uma vida doada ao próximo radicalmente diferente dele, os internos do leprosário de San Pablo. O que impressiona na viagem conduzida por Walter Salles no filme Diários de motocicleta é a ausência de discursos calcados em mensagens partidárias pré-fabricadas. Trata-se, isto sim, do antigo apelo que a mente bíblica trouxe para o mundo; a descoberta da existência do outro nos obriga a um compromisso de responsabilidade com ele. É a generosidade comprometida do jovem Che que o atira no Rio Amazonas em direção ao leprosário isolado pelas águas caudalosas e o leva a encontrar, em uma terceira margem, um destino hoje chamado de idealista com certo tom de desprezo. O desejo de libertar os abandonados da impiedosa indiferença a que são submetidos aparece no filme como resultado desta estranha e radical conversão ao outro.
O maior trunfo do neoliberalismo não é o papo do fim da divisão entre esquerda e direita. A grande vitória do capital sobre a generosidade é a transforma- ção do sentimento de indiferença numa atitude banal e presente em nosso dia-a-dia. Indiferença e cinismo que nós cariocas vemos diariamente nas jogadas poli- tiqueiras de nossos governantes e que vamos passiva- mente incorporando às nossas vidas junto com o medo que enclausura os corações e constrange as mentes. Mas, para ser realista, não acredito que a idéia da con- tração receptiva interesse a quem realmente precisa dela, os egos expandidos do poder achariam este papo um grande despropósito. A contração e a generosida- de acabam sendo o objetivo de uma minoria persisten- te, uma ilhota de esperança no mar da indiferença.
Um bom domingo.
Paulo Blank é pscicanalista
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