Nunca devemos acreditar em um mestre que não seja muitos
Muitos anos se passaram até que, atra- vés da fumaça do Judas ardendo em frente à porta da casa da Rua de San- tana, a figura doce do rabi de Nazaré despontasse dentre as nuvens de incenso diante da Praça Nossa Senhora da Paz.
Gilson, o filho do alfaiate da casa 35, era um rapaz habilidoso. Todo ano, quando chegava o Sábado de Aleluia, ele fazia o boneco de pano vestido com rou- pas surradas doadas pela vizinhança. O Judas de terno largo, gravata e calça amarrada com corda por sobre a cintura de pernas molengas e sapatos gastos, ama- nhecia enforcado no muro dos fundos da vila estreita e comprida. Carregando no pescoço o testamento feito de insinuações sobre os moradores, o bonecão espera- va a hora do açoite e do fogo, enquanto eu, trancado dentro de casa lendo revistinha do Capitão Marvel, torcia para que o dia acabasse logo. O sábado co- meçava cheio de expectativa e não era de descanso.
De vez em quando, ao longo do dia, eu abria a ja- nela incrustada na porta de madeira velha e descascada e olhava o movimento à espera do pogrom anual. Naqueles tempos, pogrom era a palavra que a vó Feiga pronunciava passando a mão na testa e alisando o longo cabelo branco quando alguma des- graça nos ameaçava. Foi pogrom o que a avó disse com cara decepcionada e olhos de quem enxerga o passado, enquanto me afastava fechando a janela quando o primeiro Judas ardeu na nossa porta. Demo- rei um bom tempo para saber toda a história que a palavra carregava, mas, mesmo antes, já dava medo.
Anos depois, na Praça da Paz, quando a Vani me disse "vamos entrar" e vi na porta da igreja a moça de sorriso doce empunhando o ramo de palmeira, eu sorri também. Por que não? Era sábado, véspera de tempo de cumprir o preceito bíblico da visita anual do Pesach a Jerusalém. O mesmo motivo que levou o rabi Ieshu de Nazaré a caminhar ofegante pelas estradas empoei- radas em direção à cidade de pedras brancas encra- vada nas montanhas da Judéia. Vamos para Jerusalém, respondi subindo as escadas e entrando no templo, envolvido por nuvens de incenso e doces cânticos.
Estar numa missa de onde no passado o povo sairia direto para incendiar os bairros judeus na Europa e ouvir pronunciar a palavra rabi me emocionou e me fez pensar no hebraico falado na época dos aconteci- mentos que o padre lia diante da platéia silenciosa. Se em vez do grego e do latim fosse o hebraico a língua mãe da cristandade, os presentes na Igreja da Paz veri- am coisas que filme nenhum consegue contar. Por exemplo, perceberiam que Páscoa é palavra grega que oculta Pesach, a ceia com que Jesus pela última vez nesta existência festejava a salvação de seus antepas- sados da escravidão do Egito. E saberiam, de quebra, que rabi, palavra que quer dizer mestre em hebraico, significa muitos. Rabi, como os discípulos se dirigiam a Jesus, ou seja, meu Rav, quer dizer meu plural, meu muitos. Por isso que nunca devemos acreditar em um mestre que não seja muitos, um Rav, um ser plural.
Meu amigo Gilson, companheiro de pescaria no Aterro do Flamengo, teria gostado dessa conversa. O Gilson adorava quando eu contava as velhas histórias dos filhos de Abraão que aprendia na escola enquanto ele me ensinava o caminho das pedras que, hesitantes, pisávamos em direção ao quebra-mar.
Sair da Igreja da Paz e cair no Rio de violência fez lembrar as últimas palavras do mestre de Nazaré: "Eli Eli Lemá Sabactani", ou seja, meu El, meu El, para que me abandonastes? Naquele momento, pensei que deve ter sido para que um dia, em nossa enorme solidão, aprendêssemos a votar e a exercer o amor sem colocar tão distante o sofrimento do próximo.
Que Eli nos guarde dos falsos profetas.