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Com razão ou sem ela?


Um sábio doutor de leis procurava, na presença do discípulos, fazer justiça entre dois queixosos. Exposto o caso do primeiro, decidiu o juiz dar-lhe razão após longa reflexão. Mas quando o segundo terminou a defesa, deu-lhe também razão. Os discípulos espantaram-se ao ver o mestre dar razão a duas versões contraditórias dos mesmos fatos e se queixaram com ele. O juiz, depois de ter voltado a refletir, respondeu aos alunos espantados: ''Realmente, vocês também têm razão''. Tanto o título como esta história não me pertencem. São do livro Com razão ou sem ela, do Dr. Henri Atlan, médico e biólogo francês consagrado internacionalmente, pensador da ética da ciência e da inteligência artificial, especialista em biologia molecular, criador da teoria de auto-organização dos seres vivos e várias vezes presente aqui no Brasil em encontros sobre ciência contemporânea. O que mestre Atlan nos ensina é que a verdade dita racional ou científica não pode pretender substituir o velho dogma religioso por outro dogma igualmente excludente, uma razão dogmática. A verdade, como na história, é algo que se constrói no diálogo inclusivo. Atlan batalha pela idéia de demonstrar que existem várias racionalidades e diferentes maneiras de ter razão, isto, é claro, em nome de uma Razão que nos una e aproxime. A razão entre nós, digamos assim.

As cartas que recebi em função do artigo Dias de Reis e meus comentários da semana retrasada fizeram-me pensar no quanto é complicado construir uma racionalidade que inclua formas diferenciadas de razão. O dogmatismo que levou a civilização a este ponto tão difícil soube criar palavras que circulam em nossas mentes carregadas de emoção e história, gerando fundamentalismos onde menos se espera. Esta semana, no Caderno B, Deonisio da Silva, com sua língua viva, fala do quanto de preconceito carrega a palavra mulato, que vem de mula, animal híbrido que não se reproduz. Que judiar vem de atribuir todas as maldades aos judeus. E trabalho é uma palavra que desperta vergonha, pois nobre não trabalhava (e a palavra vem de tripalium, instrumento de torturar e castigar). Ou seja, a própria língua tem uma razão camuflada que a gente não nota porque já nascemos dentro dela e vamos por aí reproduzindo o que herdamos. Quando Atlan propõe a história ali em cima, está querendo ensinar uma porção de coisas difíceis de praticar.

A tradição da Árvore da Vida, uma razão mística originária da Cabala, diz que existe um sistema de forças atuando em tudo que é vivo. Diz que são dez qualidades diferentes e nomeia cada uma. Na primeira põe o lugar onde a vontade nasce, fonte primordial dos pensamentos. Dali evolui para a segunda posição, a Sabedoria - imaginem um triângulo que fica mais fácil. A Sabedoria, considerada masculina, é cheia de força, nela as coisas não se diferenciam, os mundos ainda não nasceram, o pensamento desconhece as diferenças. É no Discernimento, seu par feminino, que elas são gestadas como num útero e vão se diferenciando, adquirindo forma e ordem. A ordem feminina, uterina, abre espaço para incluir; a ordem masculina é pura força, excludente. O Conhecimento, posição entre essas duas qualidades, seria o lugar onde elas se encontram e seu ponto de equilíbrio. Se ele acontece, algo muda, alguma coisa parecida com um bebê nasce e vem à luz trazendo um conhecimento fruto de duas diferenças que negociaram entre si, a face masculina e a face feminina. A linguagem que usamos pode ter o mesmo poder. Chegar à gestação e à sabedoria ou ficar preso à potência afirmativa do masculino, disto depende o futuro do mundo que construímos através da linguagem.

Com razão ou sem ela, não faz lembrar o velho Hamlet? Um bom domingo.

Paulo Blank é psicanalista


[01/FEV/2004]


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