E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Informação e poder

Tostão
A perfeição não é humana

Wilson Figueiredo
Ministério da reciprocidade

Informe JB
Aonde irá o jeton

Cartas
Câncer

Horóscopo

Contos Mínimos
Manifesto

Gente
A hora e a vez de Graça

Charge Online

Márcia Peltier
Nova rota

Emir Sader
Entre nos EUA sem ser fotografado ou preso

Fritz Utzeri
O colunista Fritz Utzeri está de férias

Augusto Nunes
O lucrativo verão do Congresso

Nas Páginas da História
18 de Janeiro no JB

Informe Econômico
Alta tensão

Boechat
Páreo

Gilberto Amaral
Lalá centenário

Estilo Iesa
Eventos à vista

Paulo Blank
Meu trauma inesquecível

Antonia
Chega de desperdício

 


Meu trauma inesquecível


Não é sempre que podemos datar com precisão um momento traumático. O que vou contar tem o privilégio de ser datado e impresso. Foi no Pasquim número 7. Estudante de Psicologia envolvido no sonho de construir uma sociedade mais honesta, peguei o bloco de papel, caprichei na letra e mandei um texto cheio de argumentos para o Paulo Francis discordando de um artigo seu. Pensava que estávamos comprometidos na mesma viagem, ingenuidade minha. Afinal, minha mãe, que havia passado pelo vigésimo congresso do Partido Comunista, onde se denunciaram as falácias da verdade stalinista, não poderia estar sempre certa quando me dizia que eu era bobo. Entre nós no Brasil, a esquerda seria diferente. Afinal, não era contra a mesma ditadura que lutávamos todos? Ledo engano, mamãe tinha razão. Fui destroçado numa resposta sem ver a carta publicada. A moçada ideológica da UFRJ me olhava atravessado enquanto uns caíam na minha pele. Ao menos tive uma brilhante estréia na imprensa. Duas colunas e meia de Paulo Francis não é de se desprezar no currículo.

É hábito mental a dificuldade de contemplar ''o outro lado'' quando defende-se uma idéia. O velho Freud apontava a incapacidade humana de admitir sentimentos opostos convivendo nos nossos castelos de saber e sentir. Ao esforço que fazemos de reduzir tudo a um só sentimento ele propunha chamar de ''caráter''. Ou seja, caráter é o que não nos deixa aceitar nossas contradições e paradoxos como parte do nosso mundo interior. Suponho que o famoso bom caráter deve ser alguém que sabe que o Narciso que afaga seu eu é o mesmo que o afoga na ilusão da vaidade. Mau caráter? Alguém aprisionado em sua casca sofrendo mais do que se permite admitir. Às vezes implode, outras não. Mas, falando de estratégias da mente, temos que admitir que muitas vezes cometemos deslizes, frutos da limitação humana. A modéstia da escuta passa a ser o único antídoto que temos para a arrogância que nos habita.

Toda vez que recebo uma carta polêmica de leitor, fico preocupado em responder e apreensivo com a impossibilidade de publicá-la na íntegra. O assunto é delicado, faz parte do meu trauma inesquecível. Deste lado do jornal, encastelados na ilusória sensação planaltina de poder, as palavras escritas adquirem uma dimensão que contrasta com a real importância que temos. Mas, Narciso, não querendo saber de relatividades, acabamos perigosamente resvalando para o tal do mau caráter sem jogo de cintura. Por outro lado, o leitor que se deu ao trabalho de escrever e de esculhambar comigo me salva da banalização ao demonstrar que minhas palavras produziram sentimentos e pensamentos. Quando abro o meu e-mail e levo um soco no olho, mesmo que o meu lado mau caráter tenha vontade de devolver uma porrada ao me sentir afetado por suas palavras, sou eu que devo agradecer a sua disponibilidade de indignar-se e de me arrancar da perigosa mesmice que a falta de provocação acaba causando. Provocar quer dizer chamar para perto. Se não nos sentimos provocados e convocados, é porque caímos na armadilha da banalização e nada mais pode nos afetar fazendo diferença. Nem mesmo a morte dos outros.

Tudo isto diz respeito a três coisas que me tocaram na última semana: a carta instigante do Fernando Silva acabando com a minha Macaca Fuscata e abrindo um bom debate sobre ciência e verdade, o artigo de Maria Clara Bingemer, dando uma aula de como criticar incluindo o outro lado, e a coluna de Leonardo Boff, no B de sexta-feira. Tocando num mesmo assunto que a Maria Clara, este homem admirável faz uso, sem perceber, de uma linguagem excludente e perigosa nos dias que correm. Ao menos para mim, um leitor que se deixa afetar. Fica para a próxima. Um bom domingo.

* Paulo Blank é psicanalista


[18/JAN/2004]


   Home > Colunas > Paulo Blank

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas



  Aumentar letrasDiminuir letrasVersão para imprimirEnviar matéria