E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Cartas
Corrupção em RR

Horóscopo

Gente
'Made in Brazil'

Charge Online

Márcia Peltier
Visitantes ilustres

Emir Sader
A grande revolução negra

Nas Páginas da História
4 de Janeiro no JB

Informe Econômico
Sintonia fina

Boechat
Tela grande 1

Gilberto Amaral
Céu azul

Estilo Iesa
A força da marca

Paulo Blank
Dias de Reis

Antonia
Se liga

 


Dias de Reis


Como tem sido freqüente apelar aos primos macacos para entender o destino humano, vamos começar o ano pegando uma carona nessa tendência. Dependendo da ótica do cientista a conclusão varia. Uns esperam provar que não passamos de um macaco evoluído comandado pela bagagem genética. Outros, os que não se deixam impressionar pela febre de reduzir o humano a uma máquina biológica, apostam no fato de que poucos genes de diferença aumentam de tal maneira a complexidade da vida que acabam nos colocando além da biologia darwinista. Teoria que virou uma espécie de lei do mais forte e vem servindo para justificar nosso admirável mundo novo. Encontrei em um livrinho já meio amarelado, editado na Espanha em 1986, uma história que vou dividir com vocês, um presentinho para iniciar o ano resistindo aos pensamentos reducionistas que invadem nossas mentes e tomam nossos corações. Com vocês, a Macaca Fuscata.

Era uma vez o ano de 1952. Cientistas andavam observando os Macaca Fuscata, uma espécie que vivia em estado selvagem na Ilha de Koshima, no Japão. Como quaisquer pesquisadores que se prezam, resolveram fazer uma experiência e começaram a jogar batata-doce sobre a areia da ilha. Parece que os macacos gostaram da comida mas acharam esquisita a areia grudada, que acabavam engolindo junto com a iguaria. Imo, uma fêmea (as mulheres, sempre as mulheres), resolveu o problema lavando as batatas num riachinho próximo. Pelo jeito, as fêmeas macacais têm uma relação melhor com a realidade do que os machos, mas isso é outra pesquisa. O fato é que seus colegas acostumados a macaquices repetiram o ato e voltaram para a família ensinando aos parentes a arte de lavar batata. Lá pelo ano de 1958, com a típica lentidão dos avanços sociais, os macacos jovens tinham aprendido a lavar as batatas podendo saborear aquele sushi natural sem a chatice da areia. Mas o mais incrível estava por vir.

Um dia azul nascia sem saber o que o aguardava. Macacos felizes - digamos que haviam chegado a noventa e nove - lavavam e comiam sua batatinha. À beira da água límpida, um macaco, o centésimo deles, olhou e resolveu imitar os outros. Logo depois, como por encanto, uma explosão interior iluminou as mentes dos macacos da ilha, e todos, absolutamente todos, começaram a lavar suas batatas! E, para o espanto dos primos cientistas, em outras ilhas, de forma espontânea, sem que ninguém os ensinasse, outras tribos de macacos Fuscata começaram a lavar batatas. No arquipélago de Takasakiyama, bem longe dos gabinetes de guerra e dos laboratórios dos doutores Stranglove, uma nova arma havia sido descoberta. A Bomba da Paz.

A idéia é revolucionária. A partir de uma certa massa crítica, o pensamento se propagaria permitindo que toda uma população possa viver uma mudança em sua maneira de encarar o mundo. O centésimo macaco, um número eleito ao acaso, seria o momento da virada. A partir dele a mensagem se propagaria, provocando a transformação. Foi assim que surgiu o movimento da Bomba da Paz. Se em todo o planeta, nossa casa coletiva, em uma mesma hora, cada um em sua língua meditasse na Paz, alcançaríamos, como os Macaca Fuscata, uma massa crítica e provocaríamos o milagre da transformação dos homens. Do Rio passando pelo Planalto Central e chegando a Bagdá, de Washingtown à Malásia, do Pólo Norte a Nablus e Jerusalém, uma nova aurora nasceria e os Reis, em sua eterna caminhada, sentiriam o sabor da chegada. Depositando com grande alegria a Mirra e o Incenso aos nossos pés, nos chamariam de Humanos, de criados a Sua imagem e semelhança, como nossos primos, os Macaca Fuscata.

Não custa tentar. Um de nós pode ser o centésimo macaco e, numa dessas, inaugura a Paz. Feliz 2004 para todos nós.


[04/JAN/2004]


   Home > Colunas > Paulo Blank

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas



  Aumentar letrasDiminuir letrasVersão para imprimirEnviar matéria