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A amendoeira floresceu

 


A amendoeira floresceu


Tem gente que quando pára de sonhar pensa que ficou maduro. FHC e Lula precisaram declarar que nada tinham com o esquerdismo juvenil do passado para virarem confiáveis ao Senhor dos Mercados. Chamemos de esquerda e direita, mal e bem, pouca diferença faz, desde os tempos bíblicos sabemos que a guerra humana se trava entre egoísmo e compaixão. Lembrar disto pode facilitar as coisas para quem costuma perder o rumo entre linhas de livros ou salas de aeroportos. Benjamin, de quem falei na última crônica, era exemplo de uma geração generosa que, se não tomou o poder em surdina, foi fazendo seu caminho, mantendo o coração aberto e batalhando sonhos na ação diária. Benjamin Benja Benjoca Beija Flor Mandelbaum Amendoeira era homem de muitos nomes, enorme coração e membro honorário da tribo dos doces e insistentes bárbaros.

Quem tiver em casa a primeira edição do Os carbonários, do Alfredo Sirkis, verá na capa um cara baixinho, foto borrada pra manter o anonimato. É ele, o Benja. Judeu de Madureira, rompido com a religião e depois místico, amante do samba, médico psiquiatra, psicanalista, psicoterapeuta reichiano, mestre em filosofia e entendedor dos mistérios da Árvore da Vida, cultos afros e astrologia, apresentou-se em seu livro de Cabala da seguinte maneira: ''Os trópicos brasileiros me possibilitaram uma miscigenação holística''. Genial avaliação de uma vida que define bem o que de melhor existe neste Brasil. Miscigenação holística vai do racial ao mundo das idéias, anunciando a possibilidade de uma nação que nossos governantes não estão à altura de perceber e que teremos de construir apesar deles.

Benja contava que redescobriu Deus num exercício de Terapia Bioenergética. Deitado de costas sobre uma espécie de cavalete, o peito aberto para o céu, esticado até a alma, foi ficando por ali, enganando os limites de sua própria resistência. Lá pelas tantas bateu o desespero criativo. Em sua solidão, em vez do pânico, relaxou encontrando a segurança na entrega, redescobrindo a Fé maiúscula. Transformou, como dizia, humilhação em humildade. Iluminou-se. Deus foi para ele a suprema experiência de entrega. Deus era palavra maior que transcendia os limites estreitos e espertos das crenças institucionalizadas. Do oriente a Jesus, fluindo para a religião judaica, a Cabala, Benja soube viver a miscigenação holística com o mesmo objetivo humanista que o conduziu à capa do Carbonários. Um verdadeiro Justo, aquele a quem a Cabala chama de Fundamento do Mundo, encontro de águas diversas, como diziam os Sábios. Benjoca nunca esqueceu de saber que a alma só se salva no coletivo do mundo. Era, verdadeiramente, um encontro de águas diversas.

As perdas são súbitas, já a falta se eterniza lentamente, esculpe o tempo enquanto saudade até que um dia a memória, palavra por palavra, acaba de construir a morada da ausência. Benja nos deixou no mês do Carnaval e agora, perto do Natal de que tanto gostava, se aproxima a sua segunda partida. No próximo domingo, dia 14, às 11h, no Cemitério Comunal Israelita do Caju, terá lugar o ato de descobrimento da lápide tumular do Benjamim Mandelbaum, de abençoada memória. Cumpriu-se o prazo que a religião em sua sabedoria dá ao homem para construir a passagem da violenta ruptura da perda ao eterno tempo da ausência. O ritual manda que se leia o Salmo 119, onde os versículos estão alinhados pela ordem alfabética do hebraico. O oficiante recita cada versículo seguindo a ordem das letras que compõem o nome. Passo a passo, o nome de Benja se dissolverá dentro do Salmo ressuscitando nas orações, entregando-se a Deus e à linguagem dos homens. Renata, sua mulher, mandou escrever no túmulo ''A Amendoeira Floresceu''. Que seus frutos, doces e bárbaros, permaneçam entre nós.

Um bom domingo cheio de vida.


[07/DEZ/2003]


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