Diferentes das catedrais construídas de pedras e vidros coloridos, as catedrais do tempo são construídas de corpo e alma. A sua matéria é a mente, o gesto, o sentimento, a percepção de si mesmo, o cotidiano. Quando garoto, a passagem para este lugar se dava quando a vó desfazia malões e deles retirava talheres e porcelanas salvos da Europa. Guardados para dias especiais, as louças anunciavam que outro tempo se instalava lentamente em cada canto da casa. Outra luz preenchia o lugar. Nas latas de óleo do pequeno quintal, lírios brancos floresciam. Até hoje os reconheço quando passo por algum desses jardins que enfeitam as calçadas. Fui aprendendo que uma realidade diferente estava sendo construída no meio dos afazeres do dia-a-dia. Construir catedrais de tempo e diferenças é talvez a marca maior do gênero humano. Resistir a elas também.
Virar a ampulheta ou dar corda no relógio, cuidar da passagem das horas faziam do homem um artesão do tempo. Enquanto isso o Shoppingtempo desconhece domingos e feriados. Dentro dele, protegidos da luz solar, caminhantes passeiam por corredores iluminados e o dia termina quando as lâmpadas são desligadas. Na Disney, onde domina a irrealidade de um cotidiano de alta tecnologia, festeja-se a cada dia um novo réveillon como se finalmente tivéssemos alcançado o poder de congelar a passagem dos dias. Um mundo igual a si mesmo e eternamente alegre onde a lua e os sol não fazem mais diferença.
Um dia perguntei à Thaís se acreditava em Deus. Sábia menina, em vez de afirmar ou negar ela me respondeu que acreditava nas crenças. Crer nas crenças é dizer que os ritos contêm em si uma verdade fora do mundo das racionalidades. Crer nas crenças é dispor-se a compartilhar afetos, ser parte de um mundo que não olhamos de fora com telescópios ou máquinas de medir. Quando na Disney festeja-se a cada dia um novo ano, banalizamos o tempo e a nossa existência dentro dele. Arquitetos do tempo, é através de ritos que resistimos ao apelo massificante da sociedade tecnológica. Toalhas de mesa, velas, candelabros, cânticos e meditações transformam-se nos portais para as catedrais invisíveis onde percebemos as nuances, os afetos e as sensações que geralmente não nos damos conta no tempo do cotidiano. É do homem buscar a mesmice, ela nos oferece segurança e proteção. Os budistas chamam de apego à tendência da mente humana de agarrar-se às coisas e aos sentimentos. Os ritos em que as várias tradições constroem as catedrais de tempo são as portas de percepção e pertencimento a uma totalidade viva e transformadora. Percebê-la é fazer parte do tempo e de sua infinita dança de formas e sentidos.
Ano católico, chinês, muçulmano, judaico, cada tradição faz tentativas de construir uma catedral onde possamos redescobrir a sensação de que a vida esconde um milagre imperceptível ao olhar destreinado pelo dia-a-dia. Aqui, neste Rio de tantas facetas e conflitos, quando as multidões enchem a praia fundindo Iemanjá ao ano que chega, uma catedral de tempo se ergue por instantes pela massa de branco, onde milhões convivem em surpreendente harmonia. Outro mundo acontece até que os fogos refaçam o milagre da criação na imagem do big-bang colorido determinando o fim daquela experiência.
Hoje, no espaço da catedral dominical, enquanto vocês lêem estas linhas, judeus celebram um novo ano e se preparam para uma revisão de sua existência. Neste Brasil multicultural nunca é demais pensar que todos podemos pegar carona nesta idéia e construir juntos catedrais onde o tempo das promessas e das boas intenções se funda ao tempo das realizações.
Um bom domingo.