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Paulo Blank
O Nome do Mal



O Nome do Mal


Duzentas e trinta e uma letras. Segundo os místicos da Kabalá, o secreto nome de D's era composto de 231 letras. Quem as conhecesse seria capaz de operar milagres. O nome teria a força de D's, cada letra seria parte de sua energia infinita. Quanto ao nome do mal, temos no momento várias possibilidades nada secretas de montar o seu perfil. Bush Laden é só uma delas, cada um, segundo sua ideologia e desejo, pode escolher a forma preferida e tomar cuidado ao pronunciá-la. Nunca se sabe.

Passados dois anos, fica claro que Bush e Laden refletem a dependência que têm um do outro. Quem é figura, quem é sombra? Pergunta tão difícil de respon- der quanto de deixar de formular. No dia em que os dois se penetraram na fumaça e no fogo das duas torres, eu acabava de telefonar para um amigo que me perguntou se assistia à televisão. Como, se era hora de trabalho? Ele avisou que derrubaram as torres gêmeas, me recusei a acreditar, ele insistiu, corri para casa, lá estava a cena na TV. Treinado em horrores da história - todo um ramo da família desfez-se na fumaça dos fornos nazistas - meio gritando disse a uma filha, como quem quer adverti-la para que se cuide do mal: lembra deste dia, hoje o mundo mudou!

Convidado para ler uns poemas num lugar de jovens, artistas e intelectuais do amanhã, a data acabou coincidindo com os acontecimentos de Nova York. Percebendo em alguns a mesma alegria que também era visível em certas análises na mídia e em conversas privadas, resolvo dedicar o meu poema às vítimas do dia 11. Fui saudado com silêncio e surpresa. Sendo a vítima o monstro americano, o sentimento de impo- tência terceiro mundista transformava a própria fraqueza em vingança. Pensando-se vitoriosos, vi jovens colocarem Osama nas alturas de seus ressentimentos derrotistas. O rigor do mal baixava do alto das torres gêmeas e pousava em corações da Cidade Maravilhosa. O mundo, novamente, começava a desabar. O rigor e o mal ganhavam mais alguns adeptos entre nós. Mas de que rigor estamos falando?

A Kabalá, uma brilhante filosofia mística, ensina que o mundo foi criado com duas medidas: a da lei e a da compaixão. Se a compaixão não for temperada pela lei, o mundo não ganha forma e não se organiza. A compaixão, força expansiva e doadora, necessita da forma para realizar-se. É aí que entra a lei, que, tal qual a compaixão, é um dos atributos da Árvore da Vida, teoria muito bem acabada sobre os processos da existência humana. É o equilíbrio entre as duas ener- gias que permite a criação de todas as coisas. Estamos sempre entre estas duas energias, buscando seu equilí- brio ou, despreocupados com ele, optando por um dos seus lados. Se a lei, também chamada de Severo Julgamento, não for suavizada pela compaixão, ela se transforma em rigor. O rigor, por sua vez, não dá importância ao outro, usa e abusa de quem quer e bem entende. Encarnando a própria lei, nos tornamos senhores e senhoras do certo e do errado, donos da vida e da morte, julgamos a todos e a tudo plenos de certeza e arrogância. Eis o mistério do mal. Imbuído de um poder desmedido, ele se impõe ao mundo como única verdade. Se a metáfora do mal são as trevas, deve ser porque na escuridão total perdemos qualquer possibilidade de ver o outro em suas necessidades e diferenças. Não será colocando Bush Laden nas alturas que enxergaremos algo melhor lá de cima.

Sou bastante velho para lembrar o dia da queda de Allende. Um 11 de setembro, eu jovem psicólogo con- duzindo uma reunião de alunos, um professor irrompe na sala. ''Derrubaram o Allende'', grita alegremente como quem traz um aviso importante. O mal, como vemos, não faz distinções políticas, nem escolhe credos, em última análise torna-se presente toda vez que elegemos o rigor como trilha de andar a vida.


[14/SET/2003]


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