Na quinta-feira, às 11 da manhã, cerca de 50 representantes de entidades ligadas ao movimento negro ocupavam o plenário Barbosa Lima Sobrinho na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Foram convidados para a audiência pública ''As ações afirmativas na universidade e no mercado de trabalho: Os benefícios da inclusão''. O convite partira da deputada Jurema Batista. Mas a estrela do encontro era Sharpe James, prefeito de Newark, nos Estados Unidos.
Veterano do movimento pelos direitos civis americano, está no quinto mandato, que divide com uma cadeira no Senado. Pauta sua ação na defesa das minorias e do meio ambiente. Proibiu na cidade, no Estado de New Jersey, o uso de produtos que prejudiquem a camada de ozônio. Não há comercialização, ali, de embalagens plásticas que não sejam biodegradáveis. Sua história política começou na década de 70, quando a brutalidade policial contra as minorias negra e porto-riquenha resultou em cinco dias de tumultos e 22 mortes na cidade. Além de prejuízo de bilhões de dólares em destruição. ''Apesar da repressão, sobrevivemos e decidimos que isso jamais voltaria a ocorrer'', contou James.
Unidas, as minorias elegeram quatro dos oito representantes que haviam escolhido para disputar cargos públicos. Fizeram o primeiro prefeito negro. ''Nosso objetivo era que todos compartilhassem as riquezas'', simplifica James. Hoje é um defensor da política de cotas, que tanta polêmica cria no Brasil. ''Em Newark, 25% de tudo têm que ir para as minorias e há setores em que a proporção chega a 100%'', ensina.
Enfrentou ameaças, intimidações, empresas que juraram deixar a cidade diante da implantação de cotas. ''Nenhuma saiu'', pontua. Quanto à política de reserva de vagas para negros, foi adotada nas universidades, e a batalha, como no Brasil, derivou para os tribunais. ''Simples, criamos bolsas como os programas Martin Luther King, Malcom X e outros'', dá ele o caminho das pedras. Sharpe James vê o racismo e a discriminação vivos. Acha tão americanos quanto a maternidade ou a torta de maçã. ''A ação afirmativa é para corrigir os erros do passado, quando a cor da pele era símbolo de desonra'', realça. Aos colegas negros brasileiros, recomenda ser esta a hora de corrigir tais erros. E reforça: ''Não se trata de caridade, mas de paridade.''
Diante de platéia tão diminuta, embora representativa, o prefeito e senador americano sabia tratar-se o Brasil de uma nação em que a Síntese dos Indicadores Sociais de 2003, divulgados pelo IBGE, indica 40,5% de pardos na população, 5,6% de negros, enquanto os brancos somam 53,3%. A Região Sudeste concentra quase metade das populações negra e branca do país.
Quando se fala em escolaridade, na faixa dos 15 aos 24 anos, 50% dos brancos estão no ensino médio. Os 50% negros estão no ensino fundamental. No ensino superior, os brancos são 21,7% e os negros resumem-se a 5,6%. Cada branco, com mais dois anos de estudo que um negro, tem os rendimentos duplicados. Os homens brancos ganham, em média, 44% a mais que pretos e pardos. As mulheres brancas, que ganham menos que os brancos, ainda assim têm média salarial 40% superior à de qualquer homem negro. Entre os 10% mais pobres da população, 35% são brancos, 7,4% negros e 57,6% pardos. O 1% mais rico é composto por 86% de brancos, 1,4% de negros e 12,6% de pardos.
Tudo isso revela que se perpetua no Brasil uma distorção da idade do país. Que racha a nação entre negros, pardos e brancos, entre pobres e ricos. Entre eles um abismo chamado distribuição de renda, refletido na ausência ou não de educação, saúde, saneamento básico. Entre possibilidades e oportunidades, como lembrou no encontro na Alerj a deputada federal Denise Frossard.
Os efeitos de mais de 500 anos cavando este abismo se refletem no retrato cruel observado nas favelas das metrópoles do país. Legiões de subumanos abandonados à própria sorte e ao domínio do mais vil grupo de criminosos que controlam territórios em que o poder público é ausente.
Mudar a realidade a curto prazo não é possível. Pode valer em discursos eleitoreiros que convencem alguns ignorantes tanto quanto quem oferece, por alguns tostões, uma vaga no céu.
Se queremos mudar isso, há que se pensar em, no mínimo, 20 anos. Se começarmos agora, claro.