Seu Jorge, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues, Roberta Rodrigues e Jonathan Haagensen correm o risco de ser fichados. Duas vezes. De origem favelada, é possível que precisem ter as digitais registradas em dobro. Uma ao se submeter à humilhante fila imposta a cidadãos brasileiros no Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, outra diante dos habituais trogloditas instalados na aduana nos aeroportos americanos. Os cinco são atores que brilham em
Cidade de Deus e, eventualmente, podem ser convidados a assistir à cerimônia de entrega do prêmio. Para o diretor Fernando Meirelles, o montador Daniel Rezende, o fotógrafo César Charlone e o adaptador de roteiro Braulio Mantovania, não há escapatória. É claro que eles vão passar pelo constrangimento. Afinal, não se delega a terceiros um eventual e inédito Oscar.
Os nomes que abrem a coluna são atores. Integrantes do grupo Nós do Morro, instalado na Favela do Vidigal, com mais de 15 anos de atividade, vêm criando uma legião de jovens de origem humilde que optaram por uma alternativa ao tráfico de drogas. Legião que, a cada prêmio que o filme recebe, atrai mais e mais gente.
Parece distante, mas isso se passa ao lado e concomitantemente à preparação para uma guerra entre integrantes da mesma facção do tráfico no Rio. O Vidigal é um dos pontos de concentração de armas que o bandido Eduíno arregimenta para tentar destituir Luciano do comando da Rocinha. Cada um monta um exército que ultrapassa os 500 fuzis e pode chegar a mil. O número de armas faz parecer ridícula a guerra travada no Morro Dona Marta, descrita em detalhes por Caco Barcelos em Abusado. Em muitos pontos as histórias se assemelham. Mas o poder de fogo cresceu absurdamente.
Como de forma absurda cresceu o comércio de cocaína, justamente o que gera a disputa. A polícia fala em R$ 10 milhões por semana. Feitas as contas, o montante chega a R$ 500 milhões de receita bruta por ano. Só na Rocinha. O valor corresponde ao total pago em 2002 pelas indústrias de cerveja de todo o Brasil em impostos como PIS e Cofins. Ou ao perdão destes mesmos impostos dado às empresas de aviação em 2001 pelo governo Fernando Henrique.
A facção criminosa que domina o comércio de drogas na favela resolveu mudar o gerente. Na economia formal, uma demissão resolve. No tráfico, o gerente comanda um exército armado. E não larga o osso tão facilmente.
A população vizinha que, diga-se, não é quem sustenta este comércio, embora haja quem seja usuário de drogas nas favelas, determina o toque de recolher, desaparece das ruas às 22h ou se refugia em casa de parentes para escapar do confronto. A Polícia Civil faz incursões para tentar evitar a batalha. A apreensão de um fuzil AR-15 com uma lanterna acoplada indica que é mesmo à noite que ''o bicho vai pegar''.
A incerteza da data acaba por impor a todo o Rio de Janeiro o toque de recolher. Quem, em estado de sobriedade, vai ousar botar o nariz na rua e deparar não com um bonde, mas com uma dezena deles. (Bonde é a designação para um agrupamento de carros roubados abarrotados de traficantes fortemente armados com o intuito de aterrorizar alguma comunidade rival.) É ridículo imaginar que o exército de ataque se concentra no Vidigal. Primeiro, a travessia da montanha não é tão simples quanto se imagina. Há um paredão entre as favelas. Segundo, se sai um bonde do Vidigal, basta fechar a Avenida Niemeyer para o plano fazer água.
Portanto, no dia D, e até para surpreender os adversários e policiais, o ataque só vai se concentrar na vizinhança da saída do túnel e nos acessos à Estrada da Gávea. E até chegar lá, as zonas Sul e Oeste servirão de rota destes blindados de combate improvisados.
O Serviço de Inteligência da Polícia foi capaz de anunciar a guerra. O Estado do Rio espera que o governo seja capaz de evitar que a população da Rocinha torne-se refém deste confronto, bem como toda a cidade. Nunca foi tão importante o policiamento preventivo. Nunca terá sido mais necessária a ação antecipada.
O fato de esta guerra ocorrer ou não será um divisor de águas na história deste governo e do próprio Rio de Janeiro. Vai determinar quem de fato manda nessas terras.
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Depois de um ano de batente em ritmo de ''eu faço'', parto para um breve período de ''eu acho''.