Saulo de Castro Abreu Filho, secretário de Segurança de São Paulo, esteve no Rio na sexta-feira, para o 1º Fórum Nacional de Segurança Pública, organizado pelo
Jornal do Brasil e pela revista
Forbes Brasil. Falante, crítico, mordaz, Saulo esteve no auditório da Bolsa de Valores, na Praça 15. Não passeou a pé pelo Centro. Não passou, na hora do almoço, pela Rua Sete de Setembro, tomada por camelôs. Um, numa Brasília velha estacionada ilegalmente, vendia queijos. Outro, instalou um gato de luz para fazer funcionar uma TV preto-e-branco para apregoar a antena milagrosa que vendia. Ao redor, bermudas, camisetas, CDs, DVDs espalhados no chão. A cena me fez lembrar das palavras do secretário paulista, que defende um choque de legalidade. ''A permissividade é danosa'', disse ele. ''Quando alguém compra uma mercadoria roubada, nem imagina que uma pessoa pode ter perdido a vida por causa dela'', dramatizou. ''Como um jovem pode entender regras, se é criado em um terreno ocupado ilegalmente, se os pais vivem de vender produtos ilegalmente? Com polícia? Cassetete?''
Saulo não acha que a solução seja mais recursos para a área de segurança pública, ou aumento do efetivo policial. Afinal, lembra, ''país nenhum virou o jogo da violência só com polícia''. Para ele, ''é preciso que cada um faça a sua parte, dos governos federal, estaduais e municipais, a cada cidadão. É preciso cumprir a lei'', simplifica. Defensor de políticas ''arroz com feijão'' e nada de prêt-à-porter, como chama propostas e promessas mirabolantes, busca escorar-se na eficácia administrativa. No dia-a-dia ''de quem tem que comprar de ração de cachorro a seguro de 14 helicópteros''. Insiste em que o governo federal e os vizinhos estaduais fechem o foco na integração. ''Não sou um John Wayne, vestido de caubói, que chega para um grupo de bandidos e ameaça: 'Saiam do meu condado'. Eles iriam para o Rio, Minas'', imagina. Não faz sentido empurrar o problema mas, necessidades à parte, pesam diferenças políticas ou conceituais com a atual administração federal.
''A Secretaria Nacional de Segurança está sendo sucateada. Tinha 95 cargos em comissão e agora só tem 50. Só a Secretaria da Pesca tem 400'', reclama. Em seguida, diz ter comprado carros patrulha equipados com rádio, sirenes e pintados, a R$ 17 mil, enquanto o governo federal paga, por modelos idênticos, até R$ 37 mil. Alfineta o fato de o governo federal ter liberado recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública diretamente para dois municípios paulistas. Ambos administrados pelo PT. O mesmo ocorreu com o Rio de Janeiro. Estado que, por ter dívidas com a União, não recebe os R$ 40 milhões a que teria direito para a segurança pública.
Saulo considera algumas diferenças entre o Rio e São Paulo no que se refere a comunidades carentes e à criminalidade: ''Você olha ao redor de São Paulo, só vê a cidade crescendo. Aqui no Rio, olha em volta, e 50% é mar. E, no oceano, não mora bandido.'' O secretário considera a polícia o serviço público mais cobrado pelo cidadão, reivindica mais atuação da Polícia Federal nas fronteiras secas, portos e aeroportos, ''em vez de, com pouco efetivo, ficar como babá de autoridades''. Sugere que o Planalto se pronuncie firme e definitivamente em relação ''ao tráfico de armas do Paraguai, à lavagem de dinheiro livre no Uruguai e à atividade das Farc, na Colômbia, que há muito abandonaram o que tinham de ideológico''. Ações que certamente teriam efeitos sobre a ação de quadrilhas nas metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro.
Responsável pela segurança do Estado mais rico e com maior densidade populacional do Brasil, Saulo alerta para uma mudança de paradigma no que se refere às drogas. Vê com extrema preocupação o crescimento do uso e da apreensão de drogas sintéticas. ''Acabou a história do jovem ter receio de fumar, cheirar ou se picar. Agora basta tomar uma pílula. É preciso ter consciência da gravidade que esta mudança de paradigma representa'', alerta.
São Paulo, como o Rio, tem problemas de ocupação de solo urbano, responsabilidade do poder municipal. Ambas têm problemas com drogas e armas que não produzem, e entram por divisas estaduais, litoral e fronteiras que caberia ao governo federal fiscalizar. Mas São Paulo ainda tem algo que hoje, na área de segurança pública, falta ao Rio: um presídio de segurança máxima que contenha de fato a atividade de gente que a sociedade quer ver não só encarcerada, mas fora de ação à beira-mar.