Divulgado o orçamento do governo para 2004, as primeiras análises apontam para uma involução em relação ao governo Fernando Henrique. As verbas reservadas para a área social, que no último ano da gestão anterior somaram 72,5% dos recursos disponíveis, em 2004 serão apenas 70,25%. Nominalmente é mais dinheiro. Corrigida pela inflação e considerado o crescimento do PIB, a quantia é menor. Ah, são apenas 2,25%, dirão os defensores do governo. Mas estamos falando de R$ 9 bilhões! Uma afronta, em se tratando do governo das mudanças prometido por Luiz Inácio Lula da Silva.
''Este é um orçamento realista'', avisou o ministro do Planejamento, Guido Mantega. Ao destacar este, dá a entender que os outros não o foram. Tem alguma razão. Todo ano o rito se repete. O governo envia ao Congresso a previsão de orçamento, abre-se uma extensa discussão sobre o valor do salário mínimo, com idéias mirabolantes aqui e ali sem que ele jamais chegue a corresponder aos sonhados US$ 100 (talvez em 2006, quando, segundo o ministro Mantega, chegará a R$ 400). Em seguida senadores e deputados incluem dezenas de obras sonhadas por seus eleitores e, mais importante, seus financiadores de campanha. Eles sabem que nem tudo sairá do papel, mas faz parte do jogo incluir na lista. O governo federal, por sua vez, sabe que não poderá atender a todas as demandas, talvez a nenhuma, mas é importante ter nas mãos os sonhos de cada um ora para afagar um ego parlamentar, e com isso garantir um voto, ora para ameaçar um rebelde dissidente. Isso também faz parte do jogo.
Desta vez o governo disse simplesmente: estou sem recursos. Em parte é verdade. Faltam R$ 30,2 bilhões - que virão, espera o Planalto, da aprovação das reformas tributária e da Previdência - para obras de infra-estrutura e para a área social. Mas no mesmo orçamento encontra-se um belo argumento para a senadora Heloísa Helena, Babá e sua turma. Estão reservados R$ 42,3 bilhões para pagamento de juros. ''Calote'', ''Fora FMI'' voltarão a berrar os radicais. Não foi dívida contraída no governo Lula, que pode rever o acordo com o FMI, mas não pode abrir mão dele. Mais uma vez o governo estará diante de questões que combateu ao longo de anos mas, no poder, muda de atitude e de discurso.
Com a indústria paralisada, o comércio às moscas e a renda do trabalhador à míngua, não há muito como se mover. A queda das taxas de juros e a perspectiva de inflação de um dígito soam como um oásis para quem caminha no deserto.
Porém, basta olhar para os lados e perceber que muita gente não vai chegar até lá. Não sentimos pena daqueles que na era pré-privatização tiveram benefícios nababescos, não souberam fazer reservas e hoje reclamam de inanição. Nos revoltamos quando percebemos pessoas físicas e jurídicas que caminham com dificuldade tentando se manter na legalidade, pagando impostos regularmente e cumprindo seu dever, com cada vez menos energia para seguir adiante. Enquanto isso, os informais e ilegais crescem em número e conseguem dar passos mais rápidos. Mal sabem que quantos mais assim se comportarem, mais estarão caminhando em direção a uma miragem.
Se o governo demonstrasse rigidez e perseverança diante dos desafios, a caminhada seria menos árdua. Mas episódios como o das nomeações no Instituto Nacional de Câncer minam a confiança. Os recuos nas negociações das reformas idem. Lula continua mais forte que seu governo, e precisa demonstrar que cumprirá sua determinação ainda que precise abrir mão de um ministro aqui, um secretário ali ou optar pela qualificação técnica e não no arranjo político em determinados órgãos e instituições.
No orçamento de 2004 a previsão de crescimento do país é de 3,5%. Para uma nação que está próxima do crescimento zero, a meta é ousada. Mais do que isso, é absolutamente necessário cumpri-la. Sob pena de se agravar a crise de desemprego, de renda, de falência do setor produtivo. E de explodir a criminalidade ou a revolta de setores da sociedade.
O Brasil chegou ao limite. Se a correção de rota não se der agora, o preço e o prazo serão maiores no futuro. A população, doutrinada a esperar o bolo crescer para ser dividido, sabe que uma parte do bolo solou, outra queimou e o resto foi para longe. E não parece disposta a esperar de prato e barriga vazios. Que o crescimento na indústria de papel ondulado, usado para embalagens, seja sinal de um período de índices positivos.