No segundo encontro do
Ciclo de Debates JB
para o Desenvolvimento do Rio, cujo resumo foi publicado na edição de ontem deste jornal, o tema foi o turismo. É nítida a vocação turística do Estado do Rio. Como é nítida a falta de iniciativa de governos e do setor em transformar esta vocação num gerador de riquezas. Os discursos, mais uma vez, são propositivos. Mas na vida real impera a briga entre cada segmento desta atividade econômica.
Quando participei das reuniões para elaboração do Plano Rio Maravilha, capitaneado pela prefeitura, hotéis brigavam com restaurantes, que brigavam com a turma do turismo ecológico, que se engalfinhava com os defensores do turismo marítimo. Cada segmento só olhava para o próprio umbigo.
Por essas e outras, o Brasil - esta imensidão de possibilidades de turismo ecológico, religioso, gastronômico, musical, agrícola, litorâneo, arquitetônico, florestal etc. etc. - recebe míseros 4 milhões de turistas por ano. E o Rio, apesar de tudo, ainda é a principal atração.
Naquelas reuniões ouvi planos para o desenvolvimento integrado da indústria de fruticultura - particularmente a laranja - com a rede hoteleira. Afinal, não há café da manhã sem suco de laranja. A idéia era estabelecer cooperativas para compras conjuntas. Isso facilitaria a venda pelos produtores e reduziria o preço para os hotéis consumidores. Alguém tem notícia desta prática? Um hoteleiro, ao entrar na sala comemorando taxa de ocupação de 80% durante um congresso de cardiologia - equivalente à alta temporada, no verão - irritou-se quando argumentei que é raro um setor da economia festejar 20% de ociosidade.
Ora, se nossos hotéis vivem vazios, porque não integrar a população a eles. Porque não promover pacotes de fim de semana para que o carioca possa degustar os serviços prestados pelos cinco estrelas na orla? Em Miami, às 18h, os gerentes verificam a taxa de ocupação e reduzem as tarifas até que o preço do pernoite cubra os custos. Afinal, da cozinheira à faxineira, da despensa aos equipamentos, o dinheiro gasto precisa ser coberto. Desta forma, lotam os quartos. Sem prejuízo e sem explorar quem se hospedou para pagar pelos quartos vazios.
O Aeroporto Internacional trabalha, hoje, com dois terços de capacidade ociosa. Como atrair mais vôos? Primeiro, tornando seguras as vias de acesso, as linhas Vermelha, Amarela e a Avenida Brasil. Depois, reduzindo a criminalidade que, como publicou o JB de ontem, fez definhar as noites cariocas.
E é preciso garantir ao turista o tratamento que faz do Rio uma das cidades mais simpáticas do mundo. Jamais voar sobre eles como sanguessugas, como fazem os carros de aluguel ilegais que se estabecem às portas dos hotéis. Cobram preços absurdos para levá-los ao circuito básico Corcovado-Pão de Açúcar, terminando em bares e restaurantes dos quais recebem comissão. Não têm o menor interesse em ampliar os horizontes do turista além da combinação Coupacavána e keypirinha.
Há centenas de atrações, no Rio, ociosas. De turistas e, dramaticamente, de cariocas. A melhor propaganda que uma cidade pode fazer de si mesma é apresentar à população todas as possibilidades que oferece. E há poucos destinos no mundo em que a oferta permite um leque tão variado quanto de qualidade.
Ao se pensar além da capital, o Litoral Sul é pontilhado por ilhas, servidas por saveiros, que por sua vez oferecem programas de um dia inteiro com serviço duas, três estrelas no máximo, quando poderiam ser menos básicos. O Litoral Norte resume-se praticamente a Búzios. Na Região Serrana, gastronomia, história, arquitetura e natureza se multiplicam. Mas o turismo externo ainda não descobriu este paraíso.
O problema é que os agentes que recebem turistas no Rio brigam com as cidades do Litoral Sul, como Paraty e Angra, que concorrem com Petrópolis e Teresópolis, que enfrentam Búzios. Num plano nacional, o Sudeste briga com o Nordeste e, naquela região, a Bahia briga com o Ceará, que enfrenta Pernambuco, que desdenha o Rio Grande do Norte, que despreza Alagoas.
Para qualquer turista proveniente do Hemisfério Norte, vir ao Brasil só vale a pena se o programa durar de uma a duas semanas. Menos tempo não vale o preço da passagem. Cristo, Pão de Açúcar e Copacabana consomem dois dias, no máximo. Mas, se incluir a Floresta da Tijuca e adjacências, Santa Teresa, o circuito das casas noturnas com samba autêntico ou chorinho na Lapa, a visita se alonga e a cidade se beneficia dos dólares, euros e empregos gerados.
Fora o trabalho do Rio Convention & Visitors Bureau, que disputa 20 olimpíadas por mês. Mas este é tema para a próxima coluna.