Pouco depois dos 100 dias à frente da pasta da Educação, o ministro Cristovam Buarque brindou o país com o anúncio de que o ensino básico no Brasil é uma tragédia. Trouxe à luz os resultados de pesquisa do sistema de Avaliação da Educação Básica: 33 milhões de brasileiros não sabem ler, embora sejam considerados formalmente alfabetizados. Dos que têm 18 anos ou mais, 73,1% não concluem o ensino médio. Das crianças de 4 a 17 anos, 6,3 milhões estão fora das escolas. Um adolescente pobre, entre 12 e 17 anos, tem cinco vezes menos chances de freqüentar a escola do que um adolescente de classe média ou alta.
Diante de tal quadro, Cristovam Buarque pediu mais verbas para cumprir a meta de alfabetizar 20 milhões de brasileiros em quatro anos. No dia seguinte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu: ''Não fique preocupado, porque quem tem pressa come cru. Dinheiro é necessário, mas muitas vezes é desculpa. Depende mais de motivarmos a sociedade para certas tarefas que não são responsabilidade de um governo.''
Não erra o presidente quando reclama motivação da sociedade. Mas o ministro não tem pressa. Sabe que este quadro é uma herança de 503 anos. ''Começando agora, serão necessários de 15 a 20 anos para que possamos resolver todos os problemas'', avalia. Portanto, mãos à obra.
O efeito perverso da tragédia que o ministro da Educação denuncia explodiu como nunca na semana passada. Uma das piores resultantes da má educação é o desprezo às leis. E, ainda pior, a perda de vidas.
Singelo exemplo: não é admissível que um motorista e dois estudantes morram, e 24 pessoas fiquem feridas, porque um bloco de granito precariamente preso se solte da carroceria de um caminhão e desabe no meio da estrada à frente de um ônibus lotado de jovens. Onde está a fiscalização? E o respeito às leis que regem este tipo de carga?
Não é admissível - especialmente depois do naufrágio do Bateau Mouche 4, com tantas mortes no réveillon de 1988 - que o acidente se repita. Embora em outras proporções, foi o que vimos, há dias, com o barco Tona Galea, uma chata precariamente adaptada e rebatizada de ''escuna''. Foram 15 mortes causadas pela imprudência e a imperícia dos responsáveis pelo barco e, também, pela habitual negligência de autoridades de todos os escalões que, em casos como este, se contentam em emitir atestados de gabinete.
Não é admissível o incêndio de um casarão em pleno centro dessa relíquia cultural do país que é Ouro Preto, cujas encostas são ocupadas de forma irregular e cujos prédios, apesar de tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional, são reformados em desobediência aos padrões de época da cidade. Uma lástima, também, que os 12 profetas esculpidos pelo Aleijadinho, em Congonhas do Campo, permaneçam expostos à poluição, ao vento e à chuva que tanto desgastam a pedra-sabão. Não seria o caso de preservar os originais em museu fechado e expor boas réplicas ao ar livre?
Não é admissível que, dos 52 parques nacionais, 22 estejam fechados ao público por falta de infra-estrutura. E, sem fiscalização, fiquem sujeitos à caça ilegal, aos ladrões de madeira e a invasores de todo tipo, que levam degradação a redutos ambientais que deveriam ser preservados com rigor.
Não é admissível o nível a que chegou o sistema policial do Rio de Janeiro. Aqui, motoristas são abordados nas ruas e, quando surpreendidos com um extintor vencido ou um IPVA em atraso, as ''autoridades competentes'' não se preocupam em que ele cumpra as imposições da lei, apenas em que soltem ''o da cervejinha''. Há também os que prendem gerentes de bocas-de-fumo, cobram de início R$ 10 mil para não levá-los em cana e acabam fechando negócio por R$ 2.000. Não se dão ao respeito. São bandidos.
Isto demole a autoridade, esgarça o tecido social, anula a ética - conceitos que precisam deixar o refúgio das leis, discursos ou protocolos de intenção para integrar, efetivamente, o dia-a-dia de todos os cidadãos brasileiros.
Para tanto, não há outro caminho senão o da educação. Portanto, presidente Lula, Cristovam está coberto de razão: é preciso, sim, ter pressa.
Do contrário, não vamos simplesmente ''comer cru''. Continuaremos a comer o pão que o diabo amassou.