
O presidente cancelou todos os compromissos agendados, abandonou o gabinete de trabalho e saiu por aí, no papel de candidato à reeleição. Foram sete dias de festa e discurseira. Em improvisos diários, falou mal de FH e bem de Lula, berrou bravatas, obviedades e tolices, festejou o progresso do Brasil, afirmou que a economia é sólida mas, paradoxalmente, vulnerável. Terminada a turnê, os brasileiros descobriram que o país onde Lula mora é muito melhor que o Brasil.
Figurino caprichado: jaleco no Rio
SEXTA-FEIRA, 22
A excursão começou com dois
improvisos no Rio. “Tenho a exata
noção de que não podemos deixar
escapar nenhum culpado”, reconheceu
de manhã. Pareceu menos
sóbrio depois do almoço: “Não vai
ser a elite brasileira que vai fazer
eu baixar a cabeça”, esbravejou.
Lembrou que os pais analfabetos
geraram um filho imaculado: “Pode
ter igual, mas não tem nem mulher
nem homem que tenha coragem
de me dar lições de ética,
moral e de honestidade”.
SÁBADO, 23
No ABC paulista, manjedoura
política de Lula e do PT, o presidente
esqueceu as elites golpistas.
Em dois improvisos, embarcou na
nostalgia e, de passagem, cutucou
FH. “Continuo metalúrgico”, jurou
o ex-operário que não lida com
tornos há 25 anos. “Para dirigir o
país não é preciso diploma universitário,
é preciso coração”.
Aconselhados pelo coração, o
presidente e o candidato evitam
tratar de coisas tristes. Até hoje,
Lula não contou quando e como
soube da existência do mensalão,
nem que medidas tomou – se é
que tomou alguma. E finge não
enxergar o pântano da corrupção
que já engoliu R$ 4 bilhões.
DOMINGO, 24
Ainda no ABC, Lula revelou à
platéia formada por motoristas
de caminhão o nome do culpado
pela decomposição das estradas:
Fernando Henrique Cardoso,
claro. “Herdei 38.000 quilômetros
de estradas intransitáveis,
nem trabalhos de manutenção
eram feitos”, lamuriou-se.
Que fazer? Lula pediu paciência.
No início de 2006, as rodovias
federais de São Paulo serão
privatizadas. Até dezembro, sumirão
os problemas restantes.
Apesar da indigência financeira
do Ministério dos Transportes, o
candidato Lula jurou que, em
um ano, o presidente Lula fará o
que não fez em dois e meio.
SEGUNDA-FEIRA, 25
De volta a Brasília, Lula manteve-
se à distância do Planalto. A
turnê previa uma apresentação
especial no aeroporto. O candidato
apareceu em companhia do faxineiro
Francisco Cavalcante,
que devolveu ao dono o pacote
com US$ 10.000 encontrado num
banheiro. “Se tivéssemos 180 milhões
de Franciscos, o dinheiro
daria para fazer muito mais para
o povo pobre”, devaneou.
Mais simples e prático seria recuperar
as fortunas roubadas do
Brasil dos franciscos pela quadrilha
dos companheiros de Lula.
TERÇA-FEIRA, 26
Uma pausa na turnê forçou o
candidato a reassumir a Presidência,
enfurnar-se no palácio e
encarar tediosas miudezas.
Alheio às ponderações de assessores,
indicou Tércio de Barros
para a presidência da Infraero.
Nomeou mais problema: um inquérito
investiga pilantragens
ocorridas quando Tércio chefiava
o Aeroporto de Cumbica.
Naquele dia, o lamaçal fora
ampliado por detritos mineiros,
respingara em Daniel Dantas e
chegara à altura do pescoço do
Amigo Zé. O silêncio declarou
que Lula não tem nada com isso.
QUARTA-FEIRA, 27
De Brasília, Lula seguiu para o
Rio Grande do Sul, escolhido para
o encerramento da excursão:
em dois dias, o candidato se exibiria
em cinco cidades. O repertório
deu preferência a antigos
sucessos, como a decência dos
pais analfabetos (“o único legado
que tenho é vergonha na cara”) e,
claro, FH (“não adianta ser professor
da Sorbonne”). Entre as
poucas frases novas, uma merece
destaque: “É um tal de diz-quediz-
que eu não sei como se sentem.
Eu me sinto indignado”.
A indignação não inibiu o candidato,
que comemorou o nascimento
de um novo Brasil. A economia
vai bem, a inflação está
sob controle, o desemprego caiu,
as exportações subiram, os programas
sociais vão liquidando a
pobreza, a Polícia Federal acumula
triunfos na caça aos corruptos.
“Vamos punir quem errou e
inocentar quem não cometeu irregularidades”,
declamou.
QUINTA-FEIRA, 28
No interior gaúcho, o tom do
candidato mudou: “A economia
do país é vulnerável”, advertiu.
Convencido de que o alerta conterá
a drenagem do pântano, voltou
sorrindo ao Planalto.
Sempre aos gritos, a senadora Ideli Salvatti, catarinense e petista, vive festejando o sucesso do governo no impenitente combate à corrupção. ''A Polícia Federal realizou quase 150 operações e fez mais de 1.500 prisões'', berra Ideli. O Cabôco gostou dos números, mas acha que faltam outros. Quantos delinqüentes aguardam o julgamento em liberdade? Quantos foram julgados? Quantos foram condenados?
Um artista em dois papéis
Para impedir que a CPI do Mensalão
invada campos minados, a maioria governista
no Legislativo assumiu o comando
da CPI do Mensalão. A presidência
ficou com o senador Amir Lando, ministro
da Previdência por um tempo ligeiramente
superior ao consumido por
namoro de motel. O relator, quem diria,
será Ibrahim Abi-Ackel, ministro da Justiça
do governo Figueiredo (à esq.).
Hoje no PP, Abi-Ackel foi incensado,
quem diria, pelo senador Aloizio Mercadante.
“É um deputado acima de qualquer
suspeita”, disse o mais vistoso bigode
do PT. No dia seguinte, Abi-Ackel foi
incorporado à turma do mensalão. Intimado
pela CPI, vai protagonizar um espetáculo
sem precedentes. O relator Abi-
Ackel fará as perguntas. O deputado Abi-
Ackel dará as respostas. É o Brasil.
Um banco que parece gente
O Banco Rural é estranho até no nome: age nas grandes cidades, nunca faz negócios no campo. A julgar pelo noticiário, não tem donos nem diretores. Só tem funcionários, que obedecem ao código da irresponsabilidade perdulária. Quem mandou agir assim? O Banco Central. A instituição até parece gente como a gente. Só que bem mais intrigante que a gente.
Senhor do próprio destino, o banco faz e desfaz. Concede empréstimos milionários sem exigir garantias. Dispensa até assinaturas: bastam garranchos num papel. Entrega pacotes de dinheiro vivo a desconhecidos. Não é preciso abrir contas para deslocar boladas de um guichê para outro. Abastece o caixa dois de partidos e candidatos. Promove reuniões com ministros e ganha favores do governo.
Se a CPI intimá-lo, o banco será representado pela logomarca. Decerto sabe falar.
Uma taça para o impenetrável
Ao analisar a crise política em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o prefeito Cesar Maia viajou bonito. Leiam o trecho que levou a taça:
''O sistema político brasileiro - e aqui quero entender o Estado em todas as suas vertentes - se metrossexualiza nas eleições sucessivas. Não muda.''
Cesar Maia talvez ficasse menos impenetrável se escrevesse em sânscrito.
Homem certo no lugar certo
Em meados de 2002, com o patrocínio do Ministério da Justiça, a Polícia Federal lançou uma inventiva promoção: ''Conheça o Brasil com Fernandinho Beira-Mar''. Os sherloques premiados viajaram pelos céus do Brasil em busca de hospedagem para o superbandido. O passeio terminou em São Paulo, que engaiolou Beira-Mar numa prisão de segurança máxima. Um juiz misericordioso decidiu que ninguém pode sofrer tal castigo por mais de dois anos. Nem um meliante que gosta de ouvir pelo celular os gritos dos condenados à morte por esquartejamento.
Como as prisões federais não saíram das plantas, Beira-Mar foi recolhido a Brasília. Faz sentido. Ali, qualquer bandido se sente em casa.
O professor despetalou a flor do Lácio
A doutrina de Pasquale foi transformada num Aurélio de bolso pelos companheiros oradores
Oentusiasmo
nacional
com a vitória
de Lula em
2002, escancarado
por alegres
multidões formadas
majoritariamente
por brasileiros
humildes,
contagiou o professor
Pasquale
Cipro Neto.
Graças a programas
na TV e
colunas em jornais,
Pasquale já
ganhara fama com
o c raque em
português. Sem a sisudez dos
gramáticos que defendem a
bengaladas cada pétala da última
flor do Lácio, o professor
dizia, com didática clareza, o
que é certo e o que é errado.
O advento da Era Lula provocou
interessantes mudanças
na cabeça de Pasquale. Ficou
muito mais tolerante. Em
pouco tempo, especializou-se
em explicar o inexplicável.
Como justificar aquele
menas” que Lula infiltrava
em qualquer improviso? Se os
ouvintes entenderam, não
houve erro, alegava Pasquale.
É o povo quem faz a língua.
Transformada
num Aurélio de
bolso do PT, a
“Doutrina Pasquale”
animou os
companheiros a
revogar plurais,
concordâncias e
outras quinquilharias.
Vale tudo,
como atestaram
na CPI Delúbio
Soares e Sílvio
Pereira.
Delúbio não
diz “ele negocia”.
Acha “negoceia”
mais bonito. Sílvio
barganha também
consoantes. Nunca apresentou
pleitos que beneficiavam
amigos. Só “preitos”.
Não costumava freqüentar o
Planalto. Só ia ao “Pranalto”.
E agora, mestre Pasquale?
Santa Cruz em vez de Brasil
O ministro da Comunicação, Hélio Costa, pediu que a CPI dos Correios mude de nome, para preservar a imagem da instituição (e a integridade física de carteiros alvejados por gente que confunde as coisas). Como a imagem do Brasil parece enlameada, talvez não seja má idéia rebatizar o país com um dos nomes usados logo depois do Descobrimento: Terra de Santa Cruz. Lembra calvário. E não tem contra-indicações.
CORREÇÃO
Jacques Chirac não é
primeiro-ministro da
França, como informou
erradamente a coluna de
domingo passado. É o
presidente da República.