O Lula que prende e
arrebenta recorreu
ao dialeto da gafieira
para deixar claro,
na quinta-feira, que
a expansão do pântano será neutralizada
a qualquer custo. “Se
alguns dos nossos amigos fizeram
algo errado, vão sambar”,
informou à platéia de ministros
reunida no Planalto. Sublinhou
o aviso com uma frase que até
traseiras de caminhão recusariam:
“Quem mijou fora do penico,
tchau e bênção”.
Esse anjo exterminador de
corruptos talvez se tenha esquecido
de repassar o recado aos
parlamentares do PT. Na mesma
quinta-feira, reeditando piruetas,
espertezas e trucagens utilizadas
desde o começo da cantoria
do deputado Roberto Jefferson,
parlamentares petistas tentaram
impedir a drenagem do
lamaçal.
Na Câmara e no Senado, nas
comissões e na CPI dos Correios,
tenentes da tropa de choque governista
articularam manobras
para absolver liminarmente
companheiros sob suspeita, livrar
bandidos amigos da lista
dos intimados, desqualificar testemunhas,
defender o indefensável.
Para quê? Para nada. O combate à corrupção desta vez
seguirá adiante, porque é essa a
vontade da nação.
Os artilheiros do PT, apoiados
por cúmplices da “base aliada”,
são muito ruins de mira. Ampliaram
os estragos na já bastante
danificada imagem do partido
e, sobretudo, abalaram a confiança
do país na palavra do presidente
da República. Se Lula
deseja efetivamente identificar
e punir delinqüentes de grosso
calibre, tem de ordenar mudanças
Se não agir assim, restará aos
brasileiros honestos escolher entre
duas hipóteses: ou Lula perdeu
a autoridade sobre o próprio
PT ou, intimamente, aprova a
postura dos parlamentares que
chapinham no lodo com a serenidade
de surfista na hora da maresia.
Abertamente estimulados
pela cúpula do partido, integrada
por atores que logo estarão no
elenco dos réus da CPI, deputa dos e senadores parecem dispostos
a manter a rota. Nesse caso,
Lula merecerá figurar entre os
culpados por omissão.
Convém ao presidente percorrer
sem demora o atalho da lucidez.
Generosamente, boa parte do
Brasil tem procurado afastá-lo do
maremoto de escândalos. O pote
da indulgência secou. Os eleitores
não serão clementes nas urnas de
2006. Saberão dar o merecido troco
a parlamentares hoje reduzidos
a advogados da bandidagem.
Os combatentes petistas sabem
ser cautelosos. Evitam cuidadosamente,
por exemplo,
duelos com o agressivo Roberto
Jefferson. Em contrapartida, esbanjam
coragem quando confrontados
com gente indefesa e
inexperiente em batalhas retóricas.
Na CPI, lutaram valentemente
na guerra de destruição
contra Fernanda Karina, ex-secretária
do publicitário Marcos
Valério, um dos operadores do
mensalão.
Quando Fernanda começou a
depor, fora amplamente comprovada
a essência das revelações
feitas à imprensa pela secretária.
Mais: descobertas sucessivas
haviam dilatado notavelmente
o prontuário do homem
da mala, que trabalha em
parceria com Delúbio Soares,
tesoureiro do PT. “Vocês vão conhecer
aquele carequinha de
Minas”, preveniu Roberto Jefferson
na Comissão de Ética. Os
petistas conseguiram adiar o depoimento
do bandido. Preferiram
chamar a mocinha, prontos
para desqualificá-la. Um equívoco
bisonho. Um disparo na
própria testa.
A bandeira da ética na política,
desfraldada pelo PT durante 25
anos, agora está em frangalhos.
Baile do PMDB confunde Lula
Quem tira o PMDB para dançar
corre o risco de chegar ao meio
da pista com o par errado.
O presidente da República queria
bailar com o presidente do
partido, Michel Temer (à esq.).
Acabou abraçado ao presidente
do Senado, Renan Calheiros,
conhecido de antigos carnavais.
Induzido a honrar a palavra
empenhada pelo senador Aloizio
Mercadante (à dir.), precipitado
organizador de parcerias, Lula
entregou à metade já seduzida
do PMDB os quatro ministérios
que prometera para noivar com o
partido inteiro. O desfecho do
baile, prejudicado pela
precipitação, parece ter deixado
Lula um tanto confuso. Decidido
a consolar-se com alguma
celebração na Granja do Torto,
inverteu o calendário gregoriano.
Como mostra o convite, Lula e
Marisa Letícia produziram a
única festa junina de julho.
O Cabôco quer saber a
quantas anda a Chacina
da Baixada. Foram capturados
todos os PMs responsáveis
pelo massacre?
Quando serão punidos?
As testemunhas estão
em segurança? O Estado
tomou providências
para indenizar as famílias
das vítimas?
Se faltar dinheiro para
a última resposta, o
Cabôco sugere que a Comissão
de Anistia doe ao
Rio parte da dinheirama
desperdiçada com indenizações
duvidosas.
O colunista pisa na bola
Diferentemente do que a
coluna publicou no
domingo passado, a cota de
três senadores por Estado
e mais três para
representar o Distrito
Federal) não foi
estabelecida pelo “pacote
de abril”, embrulhado
durante o governo Geisel.
O trio de senadores existe
desde a promulgação da
Constituição de 1891 e teve
o endosso dos constituintes
de 1946. O que o “pacote”
inventou foi o “senador
biônico”, escolhido pelo
governo entre homens de
ilibada reputação e notório
saber – e chancelado pelas
Assembléias Legislativas.
Com a redemocratização,
todos voltaram a ser eleitos
pelo voto direto. O colunista
pede desculpas pelo erro.
É proibido viver muito

Lucas (com uma amiga): o desenhista de um Rio imaginário
Como as estreitas vielas de
terra, como as casas pequenas
e as famílias imensas, como as
crianças que empinam pipas
multicoloridas, também as
guerras entre quadrilhas rivais
e tiroteios entre policiais
e bandidos são inseparáveis
da paisagem da Rocinha. Permanentemente expostos à
violência, os moradores da favela
se tornam, ainda na infância,
passageiros do medo.
O medo como rotina parece
menos apavorante: aos 15 anos,
Lucas Batista não tinha medo
de ser feliz. E tentava. Na laje
do prédio de quatro andares habitado pela família, divertiase
com amigos. De vez em
quando, fazia desenhos. O Rio
que desenhava só existia na
imaginação do menino. Morreram
juntos, assassinados por
um tiro de revólver. Lucas nascera
num Brasil proibido de viver
por muito tempo.
Ignorância
laureada
Um integrante da CPI
interrompeu Joel dos Santos
Filho, advogado e
aprendiz de araponga, para
avisá-lo que estava dizendo
o contrário do que
havia declarado à Polícia
Federal. A justificativa:
“Estava tão nervoso na
polícia que nem lembro o
que depuí”.
Isso mesmo: depuí. Pela
palavra inventada
quando depôs, Santos Filho
merece o troféu. Também
merece ter confiscada
a carteira de advogado.
Licença para matar
OMinistério Público brasileiro
vem tentando mostrar
que todos são iguais
perante a lei. O Órgão Especial
do Ministério Público paulista
deve achar os promotores
mais iguais
que os outros. Na semana
passada, seus
integrantes anularam
a expulsão do
colega Thales Ferri
Schoedl, decretada
em abril pelo Conselho
Superior da
instituição. Motivo
invocado pelos conselheiros:
“comportamento
incompatível com
função”. Tradução: assassinato
por motivos fúteis.
Thales tinha 26 anos e era
promotor substituto quando
decidiu aguardar a chegada de
2005 em Bertioga, perto de São
Paulo. Na madrugada de 30 de dezembro, voltava de um luau
com a namorada (e um revólver
na cintura). Alguns jovens
dirigiram gracejos à acompanhante
do doutor, que condenou
à morte a turma
inteira. Disparou
15 vezes. Matou
Diego Modanez e
feriu gravemente
Felipe Siqueira Cunha
de Souza, ambos
com 21 anos.
Caso alcance
setembro incorporado
ao quadro de
promotores, Thales
completará
dois anos no cargo, que se
tornará vitalício. Não poderá
ser julgado por um júri popular:
só o Tribunal de Justiça
cuida desses réus especiais.
Até lá, continuará ganhando
R$ 5.800 por mês,
sem trabalhar. É o Brasil.