Há limite para tudo, repetiu há meses o deputado federal Fernando Gabeira. Ele ainda era filiado ao PT quando pronunciou a frase. Convidado pelo ministro José Dirceu para um encontro no Planalto, chegou na hora marcada. Depois de 90 minutos de espera, achou melhor voltar para casa. Há limite para tudo.
A lição não é nova. A frase é diariamente repetida por milhares de brasileiros. Por que inspirou tantas manchetes nos jornais? Porque as quatro palavras foram pronunciadas por um político. Na voz do habitante de um mundo em que a esperteza e a conveniência rasa prevalecem sobre princípios éticos e morais, a declaração de Gabeira soou como uma novidade e tanto.
Hoje no PV, ele continua a praticar com naturalidade o convívio dos contrários. Talentoso, sensível, conhecedor do universo que habita, Gabeira não se espanta com alianças que implodem amizades antigas ou acordos entre antagonistas históricos. ''Não há nenhum amigo que não possa virar inimigo nem um inimigo que não possa tornar-se amigo'', dizia Getúlio Vargas. Mas ele sabia que há limites.
A crise que resultou no suicídio do presidente atestou a impossibilidade de se buscar alguma trégua entre, por exemplo, Getúlio e seu arquiinimigo Carlos Lacerda. A troca de ofensas entre governo e oposição fora longe demais, atingira a honra e a alma dos combatentes. Ultrapassara fronteiras sem volta.
Tais reflexões emergem da contemplação de fotos que mostram o presidente da República sorrindo ao lado do senador Renan Calheiros. Ou por declarações de Lula que absolvem liminarmente o deputado Roberto Jefferson de acusações passadas, presentes e futuras. O poder subtraiu a Lula o senso do limite.
Ele certamente não esqueceu um dos mais vergonhosos momentos da história republicana: o programa de Fernando Collor no horário eleitoral gratuito que apresentou ao país uma mulher chamada Miriam, mãe de Lurian, filha de Lula. A exumação da história já era uma abjeção. Mais abjetas seriam as falas de Miriam.
Ela seguiu o roteiro traçado por assessores de Collor, aprovado pelo bando de íntimos que incluía dois deputados: o alagoano Renan Calheiros, futuro líder do governo na Câmara, e o fluminense Roberto Jefferson. Lula conta que nunca se sentiu tão humilhado quanto naquela noite. Enquanto mergulhava no pesadelo em São Bernardo, Collor sorria em Brasília com o espetáculo inverossímil.
Ao lado do chefe, também Renan distendia, satisfeito, a musculatura do rosto de professor secundário nomeado sem concurso. Perto deles, um Jefferson então obscenamente obeso sacudia o corpanzil nos momentos mais ultrajantes. Era o fim de Lula, celebrou o bando collorido quando o programa terminou. Não era.
Lula chegou ao Planalto já cavalgando uma aliança entre partidos dissonantes. No poder, não demorou a constatar que teria de conviver com personagens sem acesso a lares respeitáveis. Mas ninguém imaginou que, em junho de 2005, Lula teria em Renan Calheiros, agora na presidência do Senado, o maior aliado na luta para sepultar a CPI que ameaça Roberto Jefferson.
Não se esqueça do que viu naquela noite, presidente.
O Tribunal Regional Eleitoral do Rio suspendeu a parte da sentença da juíza Denise Appolinária que tornava inelegíveis, por três anos, o casal Garotinho e seu candidato (derrotado) à Prefeitura de Campos, Geraldo Pudim. O mesmo TRE manteve o afastamento do prefeito eleito, Carlos Alberto Campista, determinado pela mesma juíza na mesma sentença. Depois de um dia de reflexão, o Cabôco acha que pegou o espírito da coisa. E pergunta: por que o TRE não dispensa intermediários - os eleitores - e instala Geraldo Pudim na Prefeitura de Campos?
Trombone desafinado
Escalado para tocar trombone na banda incumbida de tirar o sono do PSDB, o ministro Ciro Gomes foi direto aos tímpanos do alvo preferencial: o governo do ex-presidente Fernando Henrique, que qualificou de ''entreguista e contemporizador com a ladroagem''. Na pausa entre uma página e outra, algum maroto deve ter trocado a partitura. Depois de trovejar que o atual governo é ''nacional e ético'', derrapou nos sustenidos e bemóis: ''A população está de saco cheio de notícia infame de ladroeira ser premiada com impunidade.''
Ciro precisa ensaiar mais.
A parceria da sovinice com a gastança
O viajante compulsivo regressou do Japão com a corda toda. ''Te confesso, Luís, que voltei com mais gás'', disse Lula ao jornalista que o entrevista no programa Café com o Presidente, transmitido pela Radiobrás. (A informação pode ser incluída na agenda positiva de Luiz Gushiken, ministro do Otimismo: a compra de gás da Bolívia está cada vez mais complicada.) Em seguida, fustigou os nativos batizados por FH de ''fracassomaníacos''.
''Quem estiver torcendo para o fracasso do Brasil vai quebrar a cara'', preveniu Lula. O otimismo do presidente não demorou a colidir com uma procissão de números inquietantes. E o próprio governo tratou de providenciar mais motivos para a inquietação nacional. Soube-se que o governo anda consumindo no pagamento de juros, a cada 24 horas, somas extraordinariamente superiores ao conjunto de investimentos em áreas vitais. No primeiro trimestre, o crescimento do PIB foi de 0,3%. A economia está em desaceleração. Os empresários adiam o momento de investir.
Verbas destinadas a setores moribundos são retidas para que o pagamento dos juros continue sem atrasos. O Orçamento da União reservou ao Ministério dos Transportes quase R$ 6 bilhões. Desse total, foram investidos até maio R$ 23 milhões, ou 0,39% do total. Na dianteira aparece o Ministério da Defesa, com R$ 63 milhões. Coisas do Haiti.
Sovina com ministérios depauperados, o Planalto tem sido bastante generoso com o Congresso. Para conseguir sepultar a CPI dos Correios, o governo liberou R$ 400 milhões reivindicados por parlamentares. Juntos, os ministérios investiram até maio R$ 271 milhões.
Um viveiro de corruptos impunes
Em 29 meses de governo,
a Polícia Federal
promoveu 74 operações
concebidas para caçar
corruptos de distintas vertentes.
Os números não incluem
as cifras da bem-sucedida
Operação Curupira, divulgada
na semana passada
para mostrar que nem transgressores
escondidos na
Amazônia escapam aos braços
da lei. O conjunto de investigações
permitiu a identificação
ou captura de
1.442 acusados.
Não é pouco. Tanto não é
que a imaginação dos encarregados
de batizar operações
foi afetada por soluços:
alguns nomes foram usados
mais de uma vez. O espetáculo
do cerco aos corruptos
não pára por aí. A Controladoria
Geral da União consumou
5.844 auditorias e devassou
as contas de 681 municípios.
“Nunca se
combateu
comtanta
força e eficácia
a corrupção
no Brasil”,
gabouse
o ministro
da Justiça,
Márcio Thomaz
Bastos.
É provável
que volte a
declamar a
fraseno 4º
Fórum Global
de Combate
à Corr
upção.
Os participantes da reunião
em Brasília se arriscam
a ouvir, neste começo de junho,
o sotaque de José Dirceu
sublinhando uma das
bravatas prediletas. “Este
governo não rouba nem deixa
roubar”. Bonito, isso. E
tão verdadeiro quanto o latifúndio
amazônico do ministro
Romero Jucá, o fazendeiro
do ar.
A chuva de estatísticas é
apenas um instrumento forjado
para convencer a nação
de que as bandalheiras
nos Correios não merecem
uma CPI. Bastam o Ministério
Público e a Polícia Federal.
Também por isso, sonega-
se à imprensa um dado
essencial: quantos corruptos
estão presos? O ex-juiz
Nicolau dos Santos Neto
continua preso, diria algum
sherloque. Lalau está preso
em casa. Tremendo castigo.
“Pior que a corrupção é a
corrupção impune”, afirmou
há semanas o ministro
da Justiça. É uma obviedade
velha como o mundo.
Sempre haverá roubalheira
enquanto houver impunidade.
E o Brasil ainda não
aprendeu a prender grandes
ladrões. Muito menos a
mantê-los engaiolados.
Filmado há 15 meses em
plena ação, o extorsionário
Waldomiro “Um por Cento”
Diniz desfruta em Brasília
de uma doce aposentadoria
milionária. Beneficiado por
uma decisão do Supremo
Tribunal Federal, o ex-banqueiro
Salvatore Cacciolla
amarga a vida de foragido.
Em Roma, passeando de
lambreta. Localizar o endereço
secreto de Cacciolla é
tão difícil quanto encontrar
uma pizzaria.
As asas da liberdade também
se abriram para o
notório Rodrigo
Silveirinha,
chefe
do bando de
fiscais ladrões
que arrombou
os cofres
do Rio no
governo de
Anthony Garotinho.
Faz
sentido. No
Brasil , R oberto
Jefferson
é presidente
de partido.
E Jucá é
ministro.
O mestre é bicampeão
Com muito respeito, o júri do Yolhesman Crisbelles decidiu premiar pela segunda vez o professor Candido Mendes, pela seguinte sopa de letras:
“De toda forma, a agilíssima
cultura política do debate,
transformando o seu corpoa-
corpo no da própria
realidade, poderá talvez levar
a mesma transação à
reforma universitária
anunciada, ou à política que
se aguarda venha, de vez, nas
somas algébricas em que os
situacionismos de sempre
podem tornar irreconhecível
a ambiciosa proposta de
partida.”
Algema não é para prefeitos
A prisão de prefeitos alagoanos que montaram uma quadrilha especializada no desvio de verbas destinadas à merenda escolar deixou intensamente indignado o governador Ronaldo Lessa. Eleito pelo PSB e hoje no PDT, não lhe causou irritação a presença entre os ladrões de prefeitos filiados aos dois partidos. Tampouco o enfureceu a descoberta de que andam roubando até comida de criança, incluído o leite. Só ficou indignado ao saber que os presos foram algemados. Prefeitos merecem respeito, argumenta. Desde que não sejam ladrões, replica o povo.