Instados a comentar o escândalo dos Correios, documentado em vídeos tão obscenos quanto os piores filmes pornográficos brasileiros, figurões do governo e do PT se penduram numa linha de raciocínio aceitável. Os corruptos apadrinhados pelo deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, não agiam na estrada principal - o caminho que termina no gabinete do presidente. A roubalheira ocorreu num desvio desmatado por pastores petebistas, que atravessa o território onde rebanhos de afilhados engordam contas bancárias suspeitíssimas.
Se acreditasse mesmo na tese, o governo teria encarado com naturalidade o movimento de oposicionistas que reivindicavam uma CPI para a apuração das patifarias nos Correios (que envolvem funcionários infiltrados pelo PMDB no Instituto de Resseguros do Brasil). A prática colidiu com a teoria. A reação do governo, marcada pelo pânico e pela agressividade, foi tão estranha que convém examinar o real traçado do desvio petebista. É possível que acabe retornando à estrada principal. O perigo mora aí.
Ligações perigosas podem envolver mandarins do PT. Só riscos desse porte explicam o espantoso desempenho de companheiros determinados a impedir que se chegasse ao mínimo de assinaturas exigido. Lula, ministros, líderes do PT no Congresso e coadjuvantes acionados para tarefas pontuais se mostraram dispostos a tudo. E tudo fizeram - até o momento da derrota que desonra.
Esse tributo ao teatro do absurdo concluiu o primeiro ato na mais burlesca quinta-feira patrocinada pela inventiva Era Lula. O ministro José Dirceu brilhou intensamente no duelo de assinaturas, amplamente favorável à oposição até o início da batalha decisiva. Ele entrou em cena numa sala da casa de Roberto Jefferson. Até então, o grande suspeito apoiava a CPI.
Dirceu chegou acompanhado do ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo. Antes de ceder, Jefferson repetiu negativas tão convincentes quanto um ''não'' de virgem devassa. ''Só faltou eles se ajoelharem ao pedir a retirada das assinaturas'', gabou-se o condutor do PTB. A humilhação não reduziu o ímpeto de Dirceu. Pouco depois, estava pedindo socorro a Anthony Garotinho.
''Ele suplicou para que eu ajudasse o governo'', discursou o ex-governador numa reunião do PMDB. ''Dizia que precisava desse favor''. A missão falhou. Deu certo a confiada ao companheiro João Pedro Stédile, coordenador do MST. Ele conseguiu convencer o deputado Wasny de Roure (PT-DF) a desertar da tropa rebelada. Com um só voto, pagou a bolada que ganhara de Lula dias antes.
Outra montanha de reais foi dividida entre deputados compreensivelmente hesitantes: pertencem à base aliada, mas são filhotes da linhagem fisiológica que vê no voto a chave do cofre. Em viagem ao exterior, Lula liberou por telefone verbas retidas no Ministério da Fazenda. Não funcionou. Irritado, jurou que tratará com dureza os infiéis.
Melhor ampliar e reforçar as linhas de defesa. Jefferson trocou o tiro ao alvo pelo canto lírico, mas almas não mudam. Se vier o naufrágio, pretende afundar atirando. Na cadeira onde a CPI vai colocá-lo, avisou, logo se sentarão Dirceu e os dois tesoureiros do PT: Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Começa a fazer sentido o espetáculo do pânico.
O Cabôco pergunta: por que só agora o governador Ivo Cassol divulgou os videobandidos gravados em 2003? Em todos, deputados de Rondônia tentam extorquir-lhe dinheiro em troca de apoio. Por que o mocinho não divulgou de imediato a prova da bandidagem? Achou que os deputados acabariam baixando o preço?
O povo da Bolívia avisa: esse óleo é nosso
Multidões de bolivianos em marcha: cenas evocam a campanha pela criação da Petrobras, que mobilizou o Brasil no século passado
É compreensível que muitos líderes da
oposição boliviana, hoje aglutinada no
movimento que busca proteger e
valorizar as riquezas naturais do país,
sejam encarados com desconfiança por
democratas. Uns não sabem o que dizem. Outros não dizem o que sabem.
Essa desconfiança não deve contaminar
reflexões sobre o movimento que cresce
na Bolívia. Mais relevante é sua
essência, que merece olhares sensatos
e honestos.
“O petróleo é nosso”, bradaram no
século passado multidões indignadas
com a voracidade do imperialismo
americano. Os bolivianos descobriram
agora que o óleo é deles. E que os
imperialistas têm sotaque brasileiro.
Peru bebe na festa errada
O ex-presidente Fernando Henrique levou a taça da semana com uma confusa definição do governo.
“Parece um peru bêbado no Carnaval”.
Peru embebedado é coisa de Natal antigo. No Carnaval o que se vê é muita perua bêbada. A espécie adora a Sapucaí.
Sob a proteção de Marina, a floresta ficou menor
O avanço das plantações de soja é um
dos motivos da perturbadora redução da Amazônia
Nem ferozes governistas
podem contestar os números.
Foram extraídos
de um estudo organizado por
técnicos federais. E divulgados
pela ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva, petista
acima de qualquer suspeita.
A coragem demonstrada
pela moça do Acre no combate
a devastadores da Amazônia
levou-a, primeiro, ao altar
dos santos protetores dos
povos da floresta. Depois, ao
Senado e, com a vitória de Lula,
ao ministério desejado.
Hoje, como a selva que jurou
preservar, também o mito
exibe cicatrizes e equimoses
perturbadoras. Foram ampliadas
pelas conclusões do
estudo, nenhuma das quais
melhora a biografia de Marina
Silva. No período 2003-
2004, o desmatamento da
Amazônia cresceu 6,23 em relação
ao período anterior. A
amputação atingiu 26.130
quilômetros quadrados.
A área é do tamanho de
Alagoas. No campeonato da
destruição do verde, só fica
atrás do período 1994-1995,
que opero u o sumiço de
29.059 quilômetros quadrados.
Uma proeza.
Um segundo lugar já não é
pouca coisa. Torna-se ainda
mais vistoso por comprovar
que, nos dois primeiros anos
da Era Lula, o ritmo do desmatamento
foi duplicado. A
liderança está logo aí.
Se a catástrofe tivesse
ocorrido em outros tempos, a
combativa Marina estaria reivindicando
a demissão de
meio mundo. Mas hoje o Brasil
é outro. Mudou o governo.
Mudou o ministério.
Mudou a Amazônia, cada
vez menor e mais indefesa.
Também Marina mudou muito.
Mas os números não deixaram
indignada a antiga combatente.
“São inaceitáveis”,
concedeu. “Mas é impossível
reverter em dois anos um processo
de séculos”. Fiel à cartilha
forjada pelo ministro do
Otimismo, Luiz Gushiken,
exibiu o lado positivo da catástrofe.
O aumento anual da
devastação teria sido extraordinariamente
maior no período
2001-2002. “Caiu bastante”,
alegrou-se.
No elenco dos culpados,
Marina não figura entre os
protagonistas. Vive reivindicando
verbas jamais liberadas,
pede funcionários em
vão, formula projetos ignorados.
Tornou-se uma relíquia
de um PT que acabou.
Deveria examinar o conselho
que a Marina sem ministério
daria à ministra sem poderes:
renuncie, companheira.
Time de Serra muda tática: agora é 4 em 5
Todo prefeito deve substituir sem hesitações qualquer secretário cujo desempenho lhe pareça insatisfatório. Isso é normal. Anormal é trocar quatro secretários em cinco meses de mandato, como fez José Serra em São Paulo. Amigos procuram explicar o fenômeno com argumentos de psicanalista estagiário. ''O prefeito é muito exigente, muito perfeccionista'', alegam.
A oposição, habituada a transformar maresia em tsunami, aposta na crise. ''Serra assumiu sem programa e agora tenta culpar assessores'', discursa Marta Suplicy. Os paulistanos só querem entender por que Serra demorou dois meses para nomear quem não conhecia.