Barracas da Marinha no Campo de Santana: proclamada a falência do sistema de saúde que afronta a população carioca
A espetaculosa montagem do hospital de campanha no Campo de Santana sugere que o lugar é um dos palcos prediletos das Forças Armadas para eventos histórico. Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca liderou a Proclamação da República no meio daquele descampado no coração da cidade. Os soldados do Exército pareciam não entender direito o que faziam, diante da bestificada platéia de civis. Tinham tantas informações sobre os acontecimentos em curso quanto as cutias que já povoavam o Campo de Santana.
Agora foi a vez da Marinha brasileira. Os livros de História haverão de registrar que nos idos de março de 2005 foi proclamada, no mesmo cenário da Proclamação da República, a falência do sistema de saúde que deveria amparar a população do Rio de Janeiro. A proeza resultou de uma aliança entre desafetos muito parecidos no cinismo e na incompetência.
Não teria sido possível chegar tão longe sem a convergência da inépcia que vergasta o Planalto, o governo estadual e a Prefeitura do Rio. À exceção dos médicos envolvidos no episódio, todos os protagonistas da intervenção merecem pesados apupos.
O colapso na área da saúde vai além dos hospitais federais. O sistema inteiro foi destroçado, graças à tríplice ofensiva de gestores ineptos. No campo estadual, o ex-governador Anthony Garotinho e a sucessora Rosinha cuidaram de garantir o desastre. O prefeito Cesar Maia afinal conseguiu dimensão nacional: espantou o Brasil inteiro com a estrondosa implosão da rede de hospitais federais do Rio de Janeiro.
E que nunca se esqueça Humberto Costa, o pior ministro da Saúde de todos os tempos. Ao espalhar barracas pelo Campo de Santana e outras áreas com boa visibilidade, o comandante da intervenção escancarou um pátio de milagres que geraria múltiplos efeitos. O tamanho da crise garantiu-lhe alguma sobrevida no gabinete. Disso Costa gostou. Não gostará de saber que pagou um alto preço para seguir homiziado no cargo.
Agora ninguém mais desconhece que a rede de hospitais está em escombros. Que no Rio o Sistema Unificado de Saúde (SUS) é pura ficção. Que as carências alcançaram proporções assombrosas: faltam milhares de médicos e enfermeiros, faltam equipamentos elementares, faltam remédios essenciais. Nunca houve, no Brasil, algo que efetivamente merecesse ser chamado de política nacional de saúde. A coisa só piorou. Muito.
As filas intermináveis tendem a tornar-se maiores e mais apavorantes. Têm sido engrossadas por brasileiros movidos por esperanças que não serão atendidas. Milhares de pacientes ficaram tão entusiasmados com a aparatosa operação quanto pioneiros do Velho Oeste, acuados por índios no círculo de carroções, no momento da chegada da Cavalaria americana. Mas a presença da Marinha nas barracas improvisadas não se estenderá por muitas semanas. Algum acerto virá entre as partes em litígio. E o povo será devolvido às mãos do destino. São mãos pouco solidárias.
Os primeiros sinais da retirada foram dados pelo almirante sem farda Humberto Costa. Desencadeada a operação de guerra, trocou a frente de combate por uma animada trégua nos restaurantes e botequins do Recife, moldura dos festejos pelo 25º aniversário do PT. Voltou à Brasília para comemorar a própria ressurreição. O zumbi que zanzava pelos labirintos da reforma ministerial recupera cores, a voz esganiçada ganha certa firmeza.
Na quinta-feira, inspecionou o front carioca e foi descansar. Na volta, terá de explicar, além da crise no Rio, também a morte de crianças indígenas e a proliferação do Mal de Chagas pelos campos do Brasil.
Como as pendências
sem solução se acumulam,
o Cabôco tem perguntas
a formular sobre
duas questões diferentes.
Primeira: o que o Itamaraty
tem a dizer sobre
a situação do engenheiro
João José Vasconcellos,
seqüestrado no Iraque
há semanas? Segunda:
cadê o mandante da morte
da missionária americana
Dorothy Stang, assassinada
no Pará?
Timão da Granja desafia o Real Madrid
Escoltado pelo
“capitão” José
Dirceu, o presidente
técnico do Clube da
Granja do Torto, Lula
da Silva, formaliza a
contratação dos dois
novos galácticos do
time. Depois de cinco
meses de intensas
negociações, foram
incorporados ao time
Romero Jucá,
especialista em
jogadas pela direita
revelado em Roraima,
e Paulo Bernardo,
prata da casa muito
bom na defesa.
Defende a pontapés
até as taxas de juros
do governo. O timão
reformado promete
desafiar em breve o
Real Madrid.
É isso aí, meu garoto
O troféu da semana vai para Flávio Maluf, filho de Paulo, pela explicação oferecida à Polícia Federal sobre a dinheirama em dólares que mantém no exterior, em contas suspeitíssimas:
''Todas as minhas movimentações tiveram motivos filantrópicos.''
Ah, bom, tudo certo: é que o garoto tem coração grande. Como o pai.
Parabéns, Dr. Tonhão
Com tantos processos importantes em pauta, uma Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio achou tempo para julgar uma medonha irrelevância: o juiz Antônio Malheiros, de São Gonçalo, acaba de ganhar a causa em que exige ser chamado de ''senhor'' ou ''doutor'' pelos porteiros e vizinhos de prédio. Ou Tonhão da Toga desfruta de enorme prestígio entre os pares ou nossos meritíssimos estão com tempo de sobra.
Cuba opera sob a lona
Entidades que
representam a categoria dos
médicos reuniram provas
para mais uma denúncia que
envolve o movimento dos
sem-terra e o governo.
Comprovaram que cubanos
brasileiros diplomados em
medicina na ilha de Fidel
estão trabalhando em
acampamentos do MST.
Querem saber quem
autorizou a atividade
irregular. E quem anda
pagando essa conta.
Severino lucra com besteirol
Quando o homem desanda a viajar pelo pântano, não adianta a filha Ana Cavalcanti ficar catucando: pai Severino não interrompe a travessia.
Foi assim no discurso em que se apresentou como protetor dos bêbados e arruaceiros da cidade natal, João Alfredo. Foi assim no ultimato a Lula. Aparentemente, foi grosseria. Era tudo que o presidente queria.
Avesso a tomar decisões, Lula usou a fala de Severino para praticar um dos esportes que mais aprecia: deixar para depois. Se quisesse mostrar autoridade, bastaria ao presidente substituir o preferido do deputado por outro nome. Mas o que Lula desejava era sossego. Também saiu no lucro Severino, que costuma tirar proveito de escorregões menores.
O rompante insensato substituiu no noticiário da imprensa fatos recentes e bem mais obscenos, protagonizados pelo mesmo artista. Esfalfados pelo ritmo da ópera-bufa, jornalistas suspenderam a ofensiva contra o vergonhoso aumento na verba de gabinetes dos deputados, concedido pela Mesa da Câmara.
Nesses gabinetes se penduram em bons ordenados cachos de parentes. E assim é desviado para a receita familiar dos deputados o dinheiro dos contribuintes.
Perdão, leitores
A construção do Eurotúnel,
que permite
desde 1994 a circulação
entre a Inglaterra e a
França de trens com passageiros,
veículos e mercadorias,
demorou sete
anos. Com uma só linha,
esta coluna criou domingo
passado uma “ponte
rodoferroviária” no
mesmo Canal da Mancha.
Perdão pelo erro,
leitores. No Brasil da
Era Lula, dizer bobagens
(e ainda por cima
ser aplaudido) é prerrogativa
presidencial.