A banalização da violência
no mundo da
bandidagem reduziu
a peça de antiquário
a figura do
punguista, aposentado pela proliferação
de assaltantes armados
ou gatunos que dispensam a discrição
para furtar à luz do dia. Engano.
A velha tribo dos punguistas
não corre nenhum risco de extinção.
Afinada com a passagem
dos tempos, transferiu-se para
paragens mais seguras e aperfeiçoou
a metodologia criminosa.
Logo terão sumido das ruas os
remanescentes da linhagem clássica,
tipos que enfiam dedos no
bolso da vítima com imperceptível
leveza, e pinçam carteiras ou
cédulas com suavidade sensual.
É quase uma forma de arte, mas
se tornou anacrônica. Os grandes
punguistas modernos trocaram
Rio e São Paulo por Brasília. Já
não agem em calçadas, ônibus ou
vagões repletos de gente distraída.
E hoje trabalham de terno.
Instalados em gabinetes do governo,
sobretudo os reservados a
funcionários de organismos da
área econômica, não deixam de
preservar certas tradições. Para
subtrair dinheiro de cidadãos comuns,
por exemplo, seguem recorrendo
apenas às mãos.
Mas hoje nem roçam o corpo
das vítimas. Furtam à distância,
sem se expor a flagrantes. Usam
as mãos para assinar decretos,
portarias ou medidas provisórias,
e para infiltrar espertezas
em textos divulgados em datas
cuidadosamente escolhidas.
Foi assim na virada do ano. O governo
federal prometera um presente
aos contribuintes: reduzir
em 10% a alíquota do Imposto de
Renda das pessoas físicas. Assim
fez. Malandramente, porém, os
punguistas do Planalto omitiram
itens essenciais da MP232/2004,
todos forjados para tungar a classe
média. Com a pilantragem tributária,
a União arrecadará em
impostos mais R$ 200 milhões.
Com o suposto favor conferido a
empregados com carteira assinada,
perdeu R$ 1,8 milhão. Em
contrapartida, ganhará R$ 2 milhões
com a elevação da base do
cálculo dos chamados "prestadores
de serviço".
O aumento de 32% para 40%,
segundo os articuladores do golpe,
nada tem de injusto: para preservar
os ganhos das pessoas físicas,
foi preciso buscar dinheiro
nas pessoas jurídicas prestadoras
de serviços. E declamam tais
argumentos com o olhar opaco
dos punguistas veteranos.
Até os botões do elevador particular
do ministro da Fazenda,
Antonio Palocci, sabem que "pessoas
jurídicas" somos nós. "O antigo
assalariado está virando empresa,
para desonerar as folhas
trabalhistas das corporações",
registrou o jornalista Israel Tabak
em artigo no JB. "E é penalizado
duplamente: perde direitos
trabalhistas e a empresa a que foi
reduzido sofre com o aumento
dos impostos". Perfeito.
Falta dinheiro ao governo?
Que nem se fale nos lucros extraordinários
dos bancos, tampouco
se ressuscite a idéia de taxar
devidamente imensas heranças.
Mais fácil é enfiar os longos
dedos federais nos bolsos da classe
média, esta sim em extinção.
Lula gosta de mencionar os milhões
de pobres do Brasil. Pois a
legião vai aumentar com tantas
expropriações arbitrárias. A menos
que o rebanho nativo reaja a
tempo, e impeça o Congresso de
legalizar o grande assalto.
Palmas para o enterro da Ancinav
Uma autobiografia que não será publicada decerto surpreenderia mesmo velhos amigos do colunista com informações até aqui mantidas sob sigilo. Por exemplo: fui ator de teatro em duas peças. Estreei aos 15 anos no papel de mordomo. Despedi-me aos 20 no papel de feto, numa confusa apresentação improvisada por calouros da USP. As vaias duraram dez minutos.
Nada comparável ao currículo de um Paulo Autran, reconheço. Mas posso declarar-me ex-artista, com direito a festejar a decisão de enterrar essa bobagem chamada Ancinav. Arte regulamentada é para regimes autoritários. Não combina com democracias.
Foi bom? Vai melhorar
Amigos do filho caçula do presidente aguardam com especial ansiedade as próximas férias de
julho. Em 2004, viajaram para Brasília num avião da FAB. Agora, poderão decolar no AeroLula,
que tem até banheira a bordo. Uma chuveirada, e já estarão prontos para brincar no piscinão.
Choradeira tem prazo devalidade
É compreensível que o prefeito de São Paulo, José Serra, tenha divulgado com minúcia e barulho o tamanho real da dívida legada por Marta Suplicy. Tudo bem, até porque a quantia é bastante superior à difundida pelo PT. Mas é bom encerrar a choradeira e fugir à tentação de retomar, com a ótica invertida, o discurso da ''herança maldita''.
Serra sabia que as coisas não andavam bem. A maioria do eleitorado ao menos desconfiava, tanto assim que mandou Marta para casa. Se achava impossível resolver os problemas, Serra deveria ter tratado da própria vida. Como não achou, que agora trate da vida dos paulistanos.
Comandante condecorado
Assustados com o som de tiros disparados por grupos de traficantes que corriam do Morro do Chapéu Mangueira em direção às areias do Leme, milhares de banhistas deixaram a praia em desabalada carreira. O episódio, ocorrido no começo da tarde de domingo, inspirou um audacioso parecer do coronel Dario Cony, comandante do batalhão da Polícia Militar encarregado de garantir a segurança naquelas paragens:
''Não houve pânico, apenas síndrome de pânico''.
Tiroteios e correrias nos morros do Rio são parte da rotina. O tumulto no Leme, portanto, não é coisa para policiais, mas para psiquiatras. Além da taça, o coronel merece um convite: passear sozinho pelas plácidas vielas do Chapéu Mangueira.
Garimpeiro de notícias da Corte, o Cabôco soube que os gastos da União com viagens somaram, em 2004, cerca de R$ 1 bilhão. O líder do ranking é o Ministério da Defesa, patrocinador de idas e vindas que consumiram R$ 85,5 milhões em passagens, hospedagens e diárias extras. Outras áreas disputaram o campeonato com bastante entusiasmo.
Há tempos inconformado com a decomposição do sistema de transportes, o Cabôco irritou-se ao saber que, dos 20 mil quilômetros de rodovias federais, 18 mil precisam ser urgentemente reconstruídos. Quer saber o que o governo espera para aplicar nesse esforço ao menos parte do dinheiro esbanjado em viagens.
Bigode bom de ginga
Para acalmar bancadas arredias a currículos esquerdistas,
o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, candidato à sucessão
do atual presidente da Câmara, João Paulo Cunha (à
esquerda,), vem esbanjando cintura. Aos ruralistas, prometeu
manter distância do MST, que sempre defendeu no Congresso
e, como advogado, também nos tribunais. Mais um pouco, e o
candidato acabará esquecendo a idéia de devassar os arquivos
oficiais da guerrilha do Araguaia, o que ajudaria a localizar ossadas
enterradas na selva. É bom estar de bem com quartéis.
Correção
O artigo de abertura da coluna de domingo passado atribuiu ao pensador espanhol Ortega y Gasset a frase ''A longo prazo, estaremos todos mortos''. Errei. O autor é o economista inglês John Maynard Keynes. O equívoco foi corrigido na seção de Cartas da edição de terça-feira, dia 10. Além de repetir a correção nesta página e pedir desculpas aos leitores, reproduzo a mensagem encaminhada por Fernando Cardim, do Instituto de Economia da UFRJ, que oferece interessantes observações sobre a tradução das palavras de Keynes:
A frase de John Maynard Keynes está no livro Tract on Monetary Reform, publicado originalmente em 1924. O trecho completo é: ''But this long run is a misleading guide to current affairs. In the long run we are all dead. Economists set themselves too easy, too useless a task if in tempestuous seasons they can onlt tell us that when the storm is long past the ocean is flat again.'' (destaques de Keynes).
Há uma certa sutileza no fato de que a tradução precisa da frase é que ''no longo prazo, estamos todos mortos'', ao invés de estaremos, mas aí já é coisa provavelmente de interesse apenas para economistas (os mais informados sabem que ''longo prazo'' é uma posição, não uma data).