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Judiciário surfa num tsunami


''A longo prazo, estaremos todos mortos'', avisa o pensador espanhol Ortega y Gasset. Impiedosamente exata, a frase estimula caminhadas em direções antagônicas. Homens decentes costumam transformá-la em convite a, enquanto durar a passagem pelo planeta, agir de modo a torná-lo melhor. Todos morreremos, mas a vida haverá de continuar.

Esse é o bom caminho. Há o outro, balizado por uma ilação perversa: já que o fim vem aí, vamos aproveitar antes que acabe. Para tanto, ignore-se qualquer barreira que atrapalhe a acumulação de fortunas. Assim é desenhado o caminho da alta corrupção, muito percorrido por brasileiros enquadrados na faixa dos leitores potenciais de Ortega y Gasset.

Nascidos em famílias sem aflições financeiras, todos têm dinheiro para conseguir livros, diplomas universitários e empregos com salários bastante vistosos para os padrões nativos. E no entanto roubam com gula e gana um povo historicamente às voltas com carências dolorosas.

O final de 2004 mostrou ao Brasil mais imagens do tsunami que agride a credibilidade do Judiciário. Em dezembro, soterrado pelo himalaia de evidências e provas colhidas durante a Operação Anaconda, desencadeada pela Polícia Federal para identificar figurões especializados em manipular processos judiciais e comercializar sentenças, João Carlos da Rocha Mattos foi enfim instalado num banco dos réus.

Capitão do time de 11 acusados, pegou três anos e meio de cadeia, perdeu o emprego e, já reduzido a ex-juiz federal, virou o ano engaiolado. Um comparsa foi absolvido. Os nove restantes sofreram algum tipo de condenação. Na pátria da impunidade, merece ser saudada com fogos de artifício qualquer sanção imposta a corruptos desse quilate, sobretudo se craques na arte de fazer amigos e influenciar pessoas.

O desfecho da primeira etapa da operação, contudo, configurou um fiasco equivalente ao tamanho da cobra que a batizou. A Anaconda, até aqui, não passou de uma piada. Muitos delinqüentes se livraram do perigo já na fase do inquérito. Outros foram premiados com sentenças anedóticas. O juiz federal Cassem Mazloum perdeu o cargo. Mas colegas generosos trocaram a pena de prisão por um castigo que os criminosos pedem a Deus: ''prática de serviços comunitários''.

(Cassem forjou com o mano Ali Mazloum, também magistrado, a dupla apelidada de Irmãos Metralha nos fóruns de São Paulo. Os vizinhos da figura, apavorados com eventuais ofertas de ajuda, vão tratando de esvaziar carteiras e ocultar bens valiosos).

Otimistas irremissíveis podem até consolar-se com a constatação de que afinal se aplicou a um juiz federal a pena de reclusão, reservada à turma do andar de baixo do Brasil. É pouco. Aos 56 anos, sempre atento a cuidados físicos, Rocha Mattos esbanja saúde, não vai morrer tão cedo. A cadeia não lhe será tão sombria como se afigura a gente comum.

Ele tem milhões de dólares a esperá-lo, em contas bancárias intocadas pela Justiça. Para prisioneiros com tais horizontes, o tempo passa mais depressa. Logo o ex-juiz estará livre, leve e rico. Já deve estar murmurando, aos amigos que o visitam, a frase popularizada no cinema: ''Um dia vamos rir muito disso tudo''.

Rocha Mattos certamente vai, distendendo com sorrisos o rosto emoldurado pela cabeleira de beque argentino aposentado, que recebe carinhos de patrimônio estético. Ao saber que o barbeiro da cadeia o aguardava, exigiu a convocação de seu cabeleireiro particular. Preservou o visual, como preserva o fruto do roubo.

Não é pouca coisa. Nos anos 80, depois de audaciosas intervenções em processos que envolviam o governo paulista, tornou-se conhecido como ''o juiz do Quércia''. Além de Orestes Quércia, também lhe devem sentenças favoráveis os ex-governadores Luiz Antônio Fleury e Paulo Maluf, ou empresários que costumam demonstrar em espécie o bonito sentimento da gratidão.

E assim o Brasil entrou em 2005 um pouco mais cafajeste.


Embaixador atira da trincheira em Lisboa

ABr
Paes de Andrade (de terno escuro) em Brasília: numa reunião do PMDB, mas a serviço do Itamaraty

Em homenagem ao ministro Luiz Gushiken, que vive recordando à imprensa a importância de valorizar o lado positivo das coisas, a coluna registra que o embaixador em Portugal, Antônio Paes de Andrade, encerrou a longa temporada nos trópicos e reinstalou-se no gabinete em Lisboa. Pode não ser uma boa notícia para os irmãos lusitanos. Para os brasileiros, todavia, é sempre positivo saber que algum figurão federal reapareceu no local de trabalho. Do inverno europeu, por fax, o embaixador disparou a mensagem reproduzida a seguir:

Senhor Jornalista:

Somente ontem, 4 de janeiro de 2005, recebi cópia de sua matéria publicada na edição de 19 de dezembro de 2004 do Jornal do Brasil.

Nela, como em várias outras matérias suas escritas contra mim, desde que me candidatei à presidência da Câmara dos Deputados, em 1989, há agressão, há injúria e há difamação. Nesta, afirma-se que o Embaixador Antônio Paes de Andrade esteve durante quase quatro meses, no Ceará, ocupado com a campanha eleitoral. Mentira. Na verdade, estive em Fortaleza, de férias, no período de 11 de setembro a 6 de outubro de 2004.

Fui posteriormente a Brasília, chamado a serviço pelo Itamaraty, no período de 1º de dezembro a 16 de dezembro de 2004. No dia 12 de dezembro, estando em Brasília, compareci à reunião da Executiva do PMDB, na qualidade de Presidente de Honra do Partido.''

A coluna suspeita de que o embaixador foi clonado: alguém com o nome e a fachada de Paes de Andrade passou esse tempão no Brasil, sim. E aproveita para contar ao fundador da República de Mombaça um episódio, ocorrido há séculos, que os bons diplomatas de carreira andam recordando nos corredores do Itamaraty. O Duque de Toscana queixou-se ao embaixador da República de Veneza: achara rasa demais a qualificação intelectual de um representante veneziano com quem fora obrigado a conviver. ''Não me surpreende, temos muitos tolos em Veneza'', ironizou o interlocutor. ''Também temos tolos em Florença'', replicou o Duque. ''Mas tomamos o cuidado de não exportá-los''.

O Brasil exporta.


O Cabôco Perguntadô soube que quase 2 mil prefeitos entregaram o cargo sem ter cumprido exigências estipuladas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Alguns são vítimas da indigência financeira de municípios inviáveis. Outros foram sobretudo incompetentes. A maioria viajou na gastança. O essencial é que todos esbanjaram o que não tinham e se expuseram a punições. Se ficar por isso mesmo, estará desmoralizada a Lei de Responsabilidade Fiscal. O Cabôco pergunta: O que vai acontecer com a turma?


Duda consuma a vingança

Fotos João Paulo Engelbrecht e André AZ
Preso pela Polícia Federal do Rio na rinha que freqüentava em companhia do vereador petista Jorge Babu (à esq.), o publicitário Duda Mendonça foi à forra: já estão fora dos cargos que ocupavam os quatro policiais envolvidos na operação. Espera-se que, sobretudo durante a Missa do Galo, Duda tenha orado pela alma dos seus bons e prestativos amigos instalados no governo federal. Pediu, levou.

Tudo bem no Brasil

O Rio é mais seguro que Londres, garante o secretário Marcelo Itajiba. O apagão em território fluminense, informa a ministra Dilma Rousseff, foi um ''erro insólito'', decorrente da fusão de problemas técnicos e falhas humanas. Mas não se repetirá. Tudo vai bem em 2005, portanto. A gente é que tem mania de se queixar.


O velho e bom Colégio Pedro II merece ser tratado com mais atenção e carinho, ministro Tarso Genro. Mande contratar os professores aprovados em concurso, há meses esperando a hora de preencher vagas que são deles.

Novilíngua tropical

O ministro Márcio Thomaz Bastos popularizou o termo que os petistas passaram a divulgar: agora, tudo o que o governo faz é ''republicano''. Segundo o Aurélio, o adjetivo significa ''referente à república'' ou ''partidário da república''. Bom saber que a desconfiança é improcedente: Lula não quer ser rei do Brasil.


Detetive traz taça do morro

Muito animada com captura do bandido Dudu, que disputava a bala o comando da favela famosa, Marina Maggessi, inspetora de polícia em ação no Rio, abateu os demais candidatos ao Yolhesman Crisbelles da semana com um só disparo retórico:

''O povo da Rocinha agora poderá dormir tranqüilo, porque há um único grupo no controle do tráfico''.

Marina é policial competente. Não custa nada recomendar-lhe cautela nas declarações e entrevistas em momentos de entusiasmo agudo.


Rodovias enfartadas

A famosa frase atribuída ao presidente Washington Luiz (''Governar é abrir estradas'') foi mais que uma perfeita bobagem. Transformou-se em senha para o início da derrocada do sistema de transportes. Hoje, o país de dimensões continentais é dependente de estradas, a maioria das quais em frangalhos. Pulverizou-se a malha ferroviária, projetos de hidrovias foram arquivados.

Nos anos seguintes, o Ministério dos Transportes foi assolado por epidemias de raquitismo financeiro, e também as rodovias acabaram abandonadas. À exceção de São Paulo, os Estados exibem artérias à beira do enfarte. Viaje mais por terra, presidente. Viaje e confira o que não será visível aos olhos dos passageiros do AeroLula.


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[09/JAN/2005]


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