Difícil escolher alguma foto que configure a imagem do ano, como se vê nesta página. Mais fácil é apontar a grande figura brasileira de 2004: trata-se da ginasta Daiane dos Santos. Na Olimpíada de Atenas, depois de voar com o joelho ferido e um país inteiro pendurado nos ombros, ficou em quinto lugar, longe da medalha de ouro exigida pelo berço esplêndido. E então a gauchinha de vinte e poucos anos deu algumas lições ao país.
''Eu errei, é uma coisa que acontece'', resumiu a menina voadora. Usou com ênfase uma primeira pessoa do singular cuidadosamente driblada por políticos, empresários e mesmo perdedores vocacionais, todos habituados a culpar alguém por malogros intransferíveis. Compreensivelmente, Daiane poderia ter lastimado as múltiplas e intensas pressões, ou invocado os sofrimentos impostos por lesões e cirurgias. Poderia apenas ter lembrado que ninguém antes dela voara tão longe.
A garota negra e pobre optou pelo caminho da coragem, e a resposta veio sublinhada pela naturalidade que lhe embeleza os vôos. Errara, apenas isso. Isso acontece a qualquer um, também a esportistas. O técnico russo da grande ginasta não conseguiu camuflar a frustração inexplicável. Demorou exatos 22 minutos até aproximar-se da menina para o abraço que sempre consola. É um treinador que o país talvez tenha contaminado. Aqui o que vale é o ouro. Um segundo lugar é o nada.
Ainda atormentada por problemas nos joelhos, Daiane dos Santos conquistou primeiros lugares em campeonatos de enorme relevância. O país não perdeu tempo com comemorações, talvez convalescendo ainda do ouro que não veio em Atenas. A Brasileira do Ano limitou-se a cobrar do governo mais ajuda para modalidades esportivas historicamente subvalorizadas.
Um país precisa de heróis, sim, sobretudo quando afetado por surtos de cafajestagem. E Daiane dos Santos é uma heroína.
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