
A Carta de Pero Vaz de Caminha é mais que a certidão de batismo daquelas terras localizadas pelas caravelas. Também antecipa, na forma e no conteúdo, a performance dos legisladores que tentariam orientar o nascituro nos séculos seguintes.
Para Caminha, bastou tatear alguns milímetros de um ponto ignorado da pele para derramar-se na completa descrição de um bebê. Confinado na orla da Bahia, ele pouco vira, quase nada. Bastou-lhe para preencher dúzias de páginas com a convicção de quem fizera pesquisas, todas minuciosas e demoradas, do Oiapoque ao Chuí.
Apressado, palavroso, mas avesso ao exame prévio de matizes e detalhes, Caminha teria, como legislador, emprego garantido no Brasil moderno. Os afilhados seguem os métodos do padrinho. Produzem textos que, como a Carta, tentam empilhar milhões de quilômetros quadrados num pedaço de praia.
Um bom exemplo está no decreto nº 4.553, de 27 de dezembro de 2002, que "dispõe sobre a salvaguarda de dados, informações, documentos e materiais sigilosos de interesse da segurança da sociedade e do Estado, no âmbito da Administração Pública Federal e dá outras providências". Assinado por Fernando Henrique Cardoso em sua última semana no poder, não honra a imagem de um sociólogo que amava pesquisas históricas.
O texto determina que o sigilo de 50 anos imposto à papelada considerada ultra-secreta "poderá ser renovado indefinidamente, de acordo com o interesse da sociedade e do Estado". Tradução: o segredo pode ser eterno. Extenso e palavroso como a Carta de Caminha, o decreto sugere que os redatores se preocuparam com minúcias. Falso. Passa ao largo de itens fundamentais para a catalogação dos documentos do gênero.
Papéis oficiais sigilosos existem em qualquer lugar do mundo, mas a classificação de cada um merece cuidados que o decreto ignorou. Países civilizados recrutam especialistas para tal trabalho, cada página é criteriosamente analisada. Algumas informações são eventualmente riscadas para sempre. Mas os prazos estabelecidos são rigorosamente respeitados, e nenhuma democracia ousou instituir a eternização do segredo.
À falta de justificativas convincentes, ganharam força versões pouco edificantes. Numa delas, FH teria tentado, com o decreto, enterrar na mesma cova profunda tanto segredos da era militar quanto maus momentos protagonizados por condutores do processo de privatização de empresas estatais. De quebra, foram sepultadas informações envolvendo figurões do PT. A versão tornaria menos estranha a tibieza de Lula no trato do tema.
O decreto talvez já estivesse revogado se a exumação coletiva exibisse apenas cadáveres saídos dos porões da ditadura. Mas também emergiriam outros esqueletos incômodos. Ocorre que o Brasil quer conhecer o próprio passado, e a História será de alguma forma exumada. Resta a Lula agir.
"O problema mais difícil do mundo, quando bem equacionado, acabará resolvido", ensinou Mario Henrique Simonsen. "E o mais fácil, mal equacionado, nunca terá solução." Coragem, presidente.
O Instituto Rio Branco, incumbido da seleção e do adestramento de diplomatas brasileiros, acaba de ser informado pelo chanceler Celso Amorim: a tradicionalíssima prova de inglês deixará de ser eliminatória nos exames para ingresso no Itamaraty. Amorim acha desnecessário falar inglês ou expressar-se por escrito nesse idioma. Basta compreendê-lo. Confuso, o Cabôco quer saber como farão esses monoglotas limitados ao "me Tarzan, you Jane" para acompanhar reuniões que adotem o inglês como língua oficial. Pergunta: é algum plano para garantir mais empregos aos tradutores simultâneos.
FOTOPRONTUÁRIO
Jorge Babu, inspetor de polícia, vereador pelo PT do Rio, cujo hobby é o da hora: noitadas no Clube Privê Cinco Estrelas. A foto torna dispensáveis informações adicionais
Senador é o campeão
O vencedor da semana é o senador paulista Aloizio Mercadante, figurão do PT. Para atenuar a história da detenção de Duda Mendonça, flagrado pela Polícia Federal quando se divertia no Rio com galos que arrancam sangue uns dos outros em brigas freqüentemente mortais, assim falou Mercadante:
"Como todo artista, Duda tem suas excentricidades".
Ao tratar de modo tão blasé um crime que dá cadeia, Mercadante mostrou ser bom ator. Portanto, também é artista, e fica liberado para excentricidades do gênero. Por exemplo, praticar tiro ao alvo nos gatos da vizinhança.
O bêbado e a mulher do político
O deputado Ulysses Guimarães estava no começo do discurso em Cajazeiras, no sertão da Paraíba, quando irrompeu o vozeirão do bêbado pendurado no caminhão improvisado em palanque:
- Cala a boca todo mundo! - ordenou. - Está falando o machão do Brasil!
Presidente do MDB, Ulysses circulava pelo Brasil nos idos de 1974 comandando a campanha para as eleições de novembro. Gostava de comícios, sobretudo com platéias de bom tamanho, como aquela em Cajazeiras. Tanta gente e muitos goles provocaram o berro perfeitamente dispensável: embora excitados, todos ouviam Ulysses com atenção.
Mas o bêbado queria o silêncio absoluto. Platéia e palanque se juntaram na gargalhada. Ulysses esperou que o barulho cessasse e seguiu adiante por quase 20 minutos. Sem perder o humor, seria interrompido quatro vezes pelo berro tremendo. O episódio virou ilustração de um dos ensinamentos do seu manual de campanha.
- Comício sem bêbado não tem graça - sorria o velho navegante.
Além de muito pedagógico, o manual montado por Ulysses era diversificado e divertido. Um dos itens contemplava a complicadíssima questão da mulher do político, que o deputado costumava invocá-la com muita graça.
- A gente chega em casa e conta que esteve com fulano ou beltrano. Como a mulher do político tem uma memória tremenda, lá vem algum comentário do tipo: "Sei, aquele que você sempre diz que é ladrão". O jeito é argumentar que política é assim mesmo, que o adversário de ontem pode transformar-se no aliado de amanhã. E tentar cair no sono o quanto antes.
Enquanto houve no Brasil só a Arena subordinada ao governo e o MDB oposicionista, Ulysses não deve ter sofrido cutucões semelhantes com tanta freqüência. Mora Guimarães, a discreta mulher do deputado, entendia que o bipartidarismo fizera do MDB um guarda-chuva destinado a agrupar os grupos contrários ao regime.
Era menos penoso justificar a presença de certas moscas na sopa de facções. E havia a atenuante comum: todos integravam a ampla resistência democrática. O fim do bipartidarismo decerto atrapalhou algumas noites de Ulysses, compelido a alianças de difícil digestão.
Tudo estaria bem pior se, nos anos 90, o casal não estivesse junto na viagem de helicóptero interrompida pelo acidente mortal. A progressiva revogação de escrúpulos e pudores, processo alegremente estimulado por todas as siglas, parece ter completado o ciclo: os políticos perderam de vez a vergonha. Voltou a vigorar um mandamento subscrito pelos mais detestáveis oligarcas do século passado: em política, só é feio perder.
O segundo turno deste 2004 foi reduzido a uma seqüência de acasalamentos pornográficos. Trata-se de um espetáculo repulsivo. Adultos decentes tratam de manter-se a distância. Deve ser proibido para menores.
Coerência estuprada
O painel desenhado no segundo turno por alianças partidárias ou acordos entre desafetos uterinos mostra que a inovação não funcionou. Em tese, deveria permitir que o eleitorado, feita a filtragem inicial, pudesse conhecer menos superficialmente os dois finalistas - e, amparado em quesitos e critérios qualitativos, apontar um deles com a necessária convicção. Na prática, a coisa desandou. Com o advento do segundo turno, o Brasil entrou de vez na Era da Pouca Vergonha. Vale tudo por um voto, venha de onde vier, seja qual for o currículo (ou a folha corrida) do parceiro eventual. Os autores da idéia argumentavam que a mudança resultaria no fortalecimento dos partidos políticos, que teriam de seguir seus programas com coerência. Conseguiu-se apenas apressar o estupro coletivo das últimas vestais.
Opção pelo pecador
O presidente Lula anda desconfiado de que o episódio da prisão do marqueteiro Duda Mendonça foi uma "armação" montada por dissidentes da Polícia Federal interessados em prejudicar a imagem do PT e, por tabela, afrontar os chefes da instituição. "É coincidência demais", insinuou o chefe de governo. Essa é de deixar ruborizado até busto de mármore. Em vez de ficar bravo com quem pecou, Lula está indignado com quem castigou pecadores. O mitológico coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, esbanjou sabedoria ao resumir de que modo os poderosos nativos enfrentam restrições legais: "Se a lei é fraca, a gente passa por baixo; se a lei é forte, a gente passa por cima". Também coberto de razão está o grande Joel Silveira, que assim tratou do tema. "No Brasil não foram as leis que não pegaram. O que não pegou foi o Brasil".