O presidente Lula da Silva deve estar perguntando à primeira-dama, sugere a foto, o que terá dado na telha de José Dirceu para aparecer com aquele modelito no palanque de 7 de setembro. A idéia do terno negro como a asa da graúna talvez tenha emergido na viagem ao Ceará, de onde o chefe da Casa Civil acabara de chegar. Mais complicado é explicar o que fazem no rosto do ministro esses óculos mais que escuros. São negros, e foram exibidos publicamente pela primeira vez durante as comemorações em Brasília.
O modelo funde estilos popularizados por duas tribos bem diferentes. A primeira juntou nos anos 40 bandos de ditadores latino-americanos, sobretudo caribenhos. A segunda é a dos personagens de Matrix, trilogia que exibe façanhas de tal forma prodigiosas que só podem acontecer no cinema. Ou no mundo maravilhoso de José Dirceu.
Como tudo o mais no capitão do time do Planalto, também os óculos são muito especiais. Não se limitam a abrandar a luz do sol. Também alteram cenários e fatos para atender a vontades ou interesses do portador.
É compreensível que José Dirceu prefira usá-los na intimidade, longe de testemunhas. As lentes escureceram espaços nos quais Waldomiro Diniz promovia movimentos cada vez mais suspeitos. Dirceu nada notou.
O mesmo adereço o induziria a localizar atenuantes suficientes para absolver o gatuno amigo. E absolver com tal convicção que Dirceu, no momento, está em vigorosa ofensiva contra corruptos de outros partidos.
Contempladas pelos óculos do Capitão Dirceu, investigações conduzidas por promotores de Justiça ou procuradores ameaçam reduzir o Ministério Público a uma contrafação da Gestapo. Mais de 60 anos depois daqueles tempos terríveis, muita gente talvez não saiba que Dirceu se está referindo à polícia política da Alemanha nazista, mobilizada por Adolf Hitler e comparsas para esmagar os inimigos do regime.
O ministro parece ignorar o tamanho da bobagem que disse. Mas ele nunca diz algo antes de cuidadosas contemplações influenciadas pelas lentes espertas, que redesenham o mundo conforme lhe convém. Nesse episódio, Dirceu viu a Gestapo porque lhe interessa arrefecer o ritmo de apurações incômodas. Brasileiros comuns, minimamente informados, só estão vendo homens da lei dispostos a apurar bandalheiras. Pouco importa se praticadas por meliantes ligados ou não ao PT.
A Madona de Beslan
Não foram identificadas pelas agências de notícias as figuras que compõem o quadro dilacerante. A mulher que acaricia o rosto enfim devolvido à placidez - uma placidez definitiva - talvez nem seja a mãe biológica da criança assassinada. A vítima do massacre na escola nos confins da Rússia pode ser a parte amputada de uma família amiga, alguém que brincara perto de sua casa. Beslan é uma cidade pequena, quase todos sabem quem é quem. Não importa. A imagem da Madona de Beslan é a tragédia de uma mãe que afaga o filho morto. É a imagem da dor que não passa, o começo do luto eterno, a primeira estação do calvário interminável. O que terão visto, antes de selados pelas pálpebras, os olhos do rosto ensanguentado? Como estará a alma da mulher que chora um choro tão ferido que dispensa lágrimas? Daqui a muitos anos, essa foto estará em todas as retrospectivas do século 21. Até lá, o mundo será freqüentemente reapresentado à Madona de Beslan. Sua primeira aparição ocorreu na semana de 2004 em que terroristas resolveram ter chegado a hora de fuzilar crianças. Fantasia premiada Enquanto os grandes jornais do Sudeste garantiam que a paisagem econômica está cada vez mais bonita, quase 10 mil pernambucanos disputavam com ferocidade 400 empregos de empacotador oferecidos por um supermercado. O Nordeste é muito longe: até notícia boa está demorando a chegar.
Civilização e barbárie
Merecem elogios e votos os políticos cariocas que montaram o acordo concebido para poupar o Rio de faixas, galhardetes, cartazes e pichações. É um avanço animador para os que acreditam num Brasil com bons modos.
Merecem o repúdio das urnas os candidatos paulistanos que vetaram acordo semelhante na maior cidade do país. São Paulo voltou a ter a paisagem ultrajada pela propaganda de rua. Políticos que usam esse tipo de publicidade deveriam receber uma passagem rumo ao ostracismo e 15 chibatadas por voto recebido.
Fantasia premiada
Seguirá pela mala diplomática o troféu conquistado por José Maurício Bustani, o imaginoso embaixador deste país na Inglaterra. A frase que lhe valeu a taça:
OS BRASILEIROS, CADA VEZ MAIS, DISCUTEM POLÍTICA EXTERNA: AS NEGOCIAÇÕES DA OMC, A PRIORIDADE DA ÁFRICA, O JOGO DA SELEÇÃO NO HAITI OU A RECUSA A APOIAR A INVASÃO DO IRAQUE SÃO TEMAS VIVIDOS E DEBATIDOS NAS RODAS DE FAMÍLIAS E AMIGOS.
Nosso homem em Londres precisa vir mais ao Brasil. E sair por aí ouvindo conversas.
O Cabôco Perguntadô foi treinado desde criancinha a respeitar os mais velhos. Mas não é de dar trégua a delinqüentes mesmo quando centenários (e cultiva especial antipatia por figurões corruptos). Até conseguiu engolir a mudança de endereço do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto: favorecido por buracos na lei, o ladrão de cabelos brancos saiu da cadeia para sofrer outro castigo: tem de passar o dia inteiro em casa. Mas o Cabôco pergunta: da fortuna que Lalau tungou, quanto foi recuperado pelas autoridades? E quanto vai sobrar para os herdeiros?
ERREI
O artigo que abriu a coluna de domingo passado (5/9) contém dois erros grosseiros. Ali se afirmou que a Bolívia teve perdoada por Lula uma dívida de US$ 48,7 bilhões. A cifra correta é muitíssimo menor: US$ 48,7 milhões. O segundo escorregão envolveu Cabo Verde. Aquele país africano não devia ao Brasil US$ 2,7 bilhões. Devia US$ 2,7 milhões, também perdoados. Peço desculpas aos leitores.