
Certos episódios costumam desafiar a divisão por seções adotada há tempos pela imprensa mundial. São histórias cujos protagonistas se movem por pântanos surgidos na confluência de fronteiras antigas. Misturam interesses empresariais e tramas políticas, escancaram métodos semelhantes aos utilizados por quadrilhas criminosas. Freqüentemente, viram coisa e caso de polícia. Em que seção publicar material desse tipo?
Como páginas policiais raramente abrigam figuras com contas em dólares, jornais acabam publicando esse gênero de notícia na editoria de Política ou na de Economia. É um erro. Pérolas forjadas nessa geléia geral exigem espaço próprio. A seção poderia chamar-se ''Só no Brasil''. E a reportagem inaugural provavelmente seria protagonizada por Daniel Dantas.
Examinem com atenção as imagens acima reproduzidas. O rosto do baiano Dantas, hoje com 48 anos, exibe traços bem talhados, agradáveis. Boa fachada. Dispensa camuflagem.
Pois é esse o rosto que tenta ocultar-se atrás do jornal, como fazem delinqüentes comuns ao colidir com câmeras fotográficas. No caso, Dantas está saindo de tribunal nas Ilhas Cayman.
Acabara de comparecer a uma das incontáveis audiências judiciais que atulham a agenda do chefe do grupo Opportunity. Um negócio, uma trapalhada na Justiça. Sempre assim.
De tempos em tempos, resolve animar a rotina com alguma confusão das boas. É o que acaba de fazer, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Metido numa antiga briga com a Telecom Itália, contratou a empresa de investigações Kroll Associated para espionar o inimigo. Os arapongas ampliaram a teia de alvos e acabaram alcançando autoridades do governo federal. Não custa lembrar que o grupo de Dantas controla a empresa encarregada de explorar a telefonia em Brasília.
Bancar o espião é um de seus prazeres prediletos. Gosta de ouvir conversas telefônicas grampeadas, apraz-lhe a leitura de mensagens alheias trocadas pela internet. Agora foi longe demais. Zelador do dinheiro dos outros, pagou muito por nada. É de quinta categoria o material colhido pelos arapongas. Deve ser gente que a CIA, forçada a melhorar, demitiu.
A música, a alma e o sofá
Para compreender por inteiro o cérebro de Luis Favre, e decifrar os enigmas do marido da prefeita Marta Suplicy, será preciso aguardar a invenção do jornal sonorizado. É a primeira lição a extrair da entrevista concedida à colunista Mônica Bergamo.
''Se você não ouvir a Sinfonia nº 5, de Mahler, do começo ao fim, nunca vai descobrir a minha alma. Ouça e depois escreva a reportagem'', prescreve o argentino de 53 anos. Não é tudo. ''Quando tiver concluído sua matéria, ouça novamente a música.''
Não seria útil, também, permitir que a repórter acompanhasse o cotidiano do entrevistado? Dispensável, acha Favre. O que faz em casa ou fora do expediente - nada disso é da conta dos outros. Conversas, só na agência de Duda Mendonça.
O publicitário lhe paga salários de R$ 20 mil para ajudar a reeleger Marta. Em casa, nada além de fotos. São mais reveladoras que palavras. Mostram que o trotskista Favre descobriu que é possível chegar ao poder ouvindo música no sofá.
Pára, Lula
Exibido no cineminha do Alvorada, o filme O tempo não pára, sobre a vida do cantor e compositor Cazuza, teve uma platéia de convidados do presidente. Encerrada a sessão, vieram os aplausos e, claro, comentários de Lula: ''Não é apenas a questão financeira que leva o jovem a fazer isso ou aquilo'', pontificou. ''Acho que as coisas estão muito mais ligadas à família, ao meio ambiente em que a pessoa vive. Mas a família é a célula principal.'' Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, não gostou: ''Nem consegui entender se o Lula estava falando bem ou falando mal.''
Quando o homem começa a viajar por esses improvisos, algum assessor precisa levantar a placa com a instrução providencial: ''Pára, Lula.''
É hora de testar os devotos
Cesar Maia entrou na luta pelo voto evangélico com uma frase esperta: ''Sou católico, mas o prefeito é ecumênico.'' Se há muito tempo o voto perdeu a identidade, e não faz pouco foi dispensado de atestado ideológico, não seria por motivos religiosos que um candidato ampliaria os riscos nas urnas. Mas a coisa está pedindo algum freio. Hierarcas da Igreja Católica, por exemplo, poderiam surpreender visitantes com testes até singelos. Se tivesse de recitar a segunda parte do Salve, Rainha, a turma inteira acabaria reprovada.
Baloncesto merece taça
Em regime de dedicação integral à temporada de caça ao voto, Paulo Maluf excitou-se com a aproximação da Olimpíada de Atenas e achou relevante avisar que sempre foi um tremendo esportista:
''PRATIQUEI ONZE MODALIDADES. AINDA SOU BOM EM ESQUI AQUÁTICO. E JOGUEI ATÉ BALONCESTO.''
Entregar-lhe a taça da semana é mais que justo. Além de resumir em 13 palavras tão extraordinária polivalência, a frase informa que o sempre surpreendente Maluf é o único brasileiro que aprendeu a jogar basquete em espanhol.
Sempre desconfiado, o Cabôco Perguntadô pensou tratar-se de outra intriga da oposição e foi conferir. Era verdade. A socióloga Maria Rita Garcia, mulher do ministro José Dirceu, ganha R$ 17 mil como assessora da Presidência da Escola Nacional de Administração Pública. Foi nomeada em março de 2003, um mês depois da médica-sanitarista Margareth Rose Silva Palocci, mulher do ministro da Fazenda, que recebe R$ 14.850 para assessorar a Presidência da Fundação Nacional de Saúde. O Cabôco está à procura de uma noiva que seja ministra. E anda perguntando: existe alguma disponível no Planalto?
Semelhança evidente
Capaz de trocar qualquer comício por um grande jogo de futebol (é palmeirense de brigar na arquibancada), o ex-ministro José Serra gosta de recordar lances antológicos protagonizados por craques dos anos 50. Um dos ídolos do agora candidato a prefeito de São Paulo é o argentino Di Stefano, que brilhou no Real Madrid daquela década. Pelo estilo já exibido pelo tucano, Serra e Di Stefano têm algo em comum: a calvície.