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A esperança em julgamento


Rogério Montenegro Integrantes do Ministério Público cometeram erros, protagonizaram excessos, produziram admiráveis trapalhadas. Os próprios procuradores, subprocuradores e promotores sabem disso. Luiz Francisco de Souza foi mais de uma vez o PT ao volante do fusquinha escandalosamente modesto. (É natural que ande tão retraído.)

Há poucas semanas, a conversa noturna entre o subprocurador da República José Roberto Santoro e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, celebrizado pelo encontro gravado com Waldomiro "Um por Cento" Diniz, apresentou ao país uma espécie de similar tucano de Luiz Francisco. Ressalva feita, vamos ao que interessa.

Um processo em exame no Supremo Tribunal Federal pode resultar na desastrosa amputação do poder de investigar exercido nos últimos anos pelo Ministério Público. Acuado por provas e evidências colhidas por integrantes da instituição, um parlamentar maranhense transformado em réu contra-argumentou de modo a forçar a palavra final do STF: só organismos policiais, sustenta, podem colher material destinado ao inquérito.

A Constituição não confere expressamente ao Ministério Público o direito de conduzir apurações do gênero, alegam advogados do parlamentar. Tampouco proíbe formalmente que o faça, retrucam partidários da tese favorável aos promotores.

É assim em nações civilizadas, como os Estados Unidos ou a Itália. Por que estreitar fronteiras num Brasil ansioso por decência?

A OAB alega que investigar é coisa de policial. Como permitir que se metam já nas etapas iniciais homens que reaparecerão nos tribunais como acusadores? O argumento é tão raso quanto poças que, na imagem de Nelson Rodrigues, formigas poderão atravessá-las com água pelas canelas.

Primeiro, por festejar investigações conduzidas exclusivamente pela polícia brasileira. Depois, porque baseado na falácia segundo a qual o Ministério Público vive à caça de alvos, não em busca da verdade. Como os milhões de interessados em aperfeiçoar inquéritos e processos, também os advogados deveriam reivindicar a parceria que não há, que nunca houve.

Graças a investigações promovidas pela instituição, o Brasil tornou-se menos cafajeste. Deve-se ao Ministério Público a descoberta das falcatruas promovidas durante a construção do Fórum Trabalhista de São Paulo (na foto), a teimosa busca da verdade sobre a morte do prefeito Celso Daniel, a revelação das negociatas na Sudam, a captura do deputado Hildebrando Paschoal ou o sucesso da Operação Vampiro.

A decisão do STF não se limita ao caso do deputado maranhense. Se for contrária ao Ministério Público, poderá reduzir a nada esses casos e muitos outros. Está em jogo o passado do Brasil. E, com o passado, também o futuro deste país tão maltratado.

O governo mostra a cara

Montagem Marcelo Pio/ Agência Brasil Frei Betto brinca de padre na granja, vigiado por Lampião e Maria Bonita

Antes que me acusem de elitismo preconceituoso, aviso que entendo do assunto. Sei marcar quadrilha até em francês, berrei muito estrangeirismo no sertão de Araraquara. "Dames et chevaliers: a ses places", começava. O sanfoneiro abria o fole e a dança comia solta: "en avant!", "tour!", "dames au centre, chevaliers au retour!". Uma beleza.

O Brasil não inventou o juiz de juiz de futebol? Acabo de nomear-me juiz de festa junina. Tratemos, quesito por quesito, da festança na Granja do Torto que comemorou, da noite do dia 12 à madrugada do dia 13, as bodas de pérola do primeiro casal.

FIGURINO: "Traje caipira", recomendava genericamente o convite enviado a 120 eleitos, dos quais compareceram 90. A maioria dos homens limitou-se à camisa xadrez e ao chapéu de palha. Faltaram botinas. Ficou bem no retrato quem tem cara de capiau, como José Viegas, ministro da Defesa. As mulheres que atenderam à recomendação do convite exibiram vestidos largos, tranças, chapéu de palha e sardas. Destacou-se Patrícia Pillar. Hoje no elenco da novela Cabocla, Patrícia Pillar apareceu vestida de Patrícia Pillar. O ministro Ciro Gomes compareceu de Ciro Gomes. Não foi notado.

ALEGORIA: Alguém exagerou no sincretismo. Bandeirinhas juninas balançavam ao lado de estandartes de São João e São Pedro no dia 13, que é de Santo Antônio. Os três dividiram espaço com retratos de Lampião e Maria Bonita, sem chances de entrar em listas de candidatos à beatificação na Santa Sé.

PADRE: Só podia ser Frei Betto. Sempre superlativo, o bom dominicano desandou. Padre de festa junina capricha no visual. Betto meteu-se numa batina com retalhos aplicados, botou chapéu de palha e exibiu-se na fantasia inovadora: sacerdote maltrapilho. Em vez de brincar com os noivos, brincou de padre. Recitou um salmo que nada tinha a ver com Santo Antônio. Pregava o fim da brigalhada entre a turma presente à festa, e pedia a paz entre presentes e alguns ausentes como José Dirceu e seu sotaque.

NOIVOS: Lula e Marisa ouviram no altar o sermão do sacerdote: "Bem-aventurados os que governam trabalhando em equipe, fazendo da política um grande mutirão democrático", recitou Betto a certa altura. Também ouviram conselhos sobre a vida conjugal. Lula foi bem. Mas deve demitir quem lhe sugeriu enfiar o crisântemo no bolso da camisa. Marisa estava toda de branco, com tranças e pintinhas. O repolho que substituiu o buquê, jogado para trás, caiu na mão de uma mulher casada. Santo Antônio corou.

SOM: O ministro Gilberto Gil, cantador dos bons e sanfoneiro improvisado, fez o que pôde com sucessos de Luiz Gonzaga e clássicos sertanejos. A trilha sonora da procissão piorou quando Betto resolveu fazer dupla com Gil. O padre desafinou até na ladainha.

CARDÁPIO: Cada um levou seu prato de comida. Não foi divulgado o nome do responsável pela bebida. Tem competência. Nada faltou: cachaça, quentão de vinho tinto ou pinga com gengibre, cerveja, uísque, até refrigerante. "Lula só provou", repetiram assessores preocupados com jornalistas estrangeiros.

DANÇA: Quadrilha não houve. Como pode haver quadrilha sem marcador? Baile caipira, forró, arrasta-pé, escolha-se um desses termos. Deixe-se a velha quadrilha fora da geléia geral.

SUMÁRIO: Nesse fim de semana, o que se viu na Granja do Torto foi a conhecida face brega do Brasil. E o governo de Lula aproveitou a festança para mostrar por inteiro sua cara: nunca se viu nada tão jeca.

Falsificador é isso aí

Maluf só assume a autoria da assinatura reproduzida acima. Renega a outra, que subscreve a carta ao banco suíço. O caso é raríssimo: gêmeas que não são irmãs

Nem Sílvia Maluf, mulher do Doutor Paulo, notaria diferenças entre as duas assinaturas. Mas o marido jura que a de baixo foi falsificada. Já setentão e ainda a serviço do Brasil, Maluf merece o benefício da dúvida, certo? Pois que se encontre, então, o autor da falsificação. E logo. Trata-se de um craque no ramo. Vai acabar vendendo tudo o que Maluf tem.

Mais um triunfo da cretinice

O tratamento dispensado pela imprensa às guerras entre bandos de traficantes irritou o secretário de Administração Penitenciária do Rio, Astério Pereira dos Santos. Convencido de que muitos jornais "fazem a apologia das facções", disse que mereciam viver "um episódio como aquele do Tim Lopes" - o repórter da Globo assassinado no Morro do Alemão. Assessores da governadora informaram que Rosinha não pensa assim, mas Astério continua no cargo. No Brasil, não ocorrem demissões por cretinice.

A justiça é demorada

O júri do Yolhesman Crisbelles, sempre soberano, resolveu entregar o troféu da semana ao senador Aloizio Mercadante por uma frase declamada, quatro anos atrás, pelo deputado Aloizio Mercadante. Irritado com o acréscimo de apenas R$ 29 ao salário mínimo, o então líder do PT na Câmara esbanjou indignação na tribuna:

"Esse aumento ridículo não paga o copo de água mineral nem a tinta da caneta MontBlanc que o ministro Malan usou aqui."

Hoje favorável a um esquálido aumento de R$ 20 no salário mínimo, o senador, se quiser, pode repassar o troféu ao deputado.

Do voto ao veto em só dois anos

"O presidente vê um pequeno aumento no salário mínimo como custo. Deveria ver como renda. O trabalhador ganhando R$ 40 a mais não vai comprar dólar nem carro importado. Vai comprar feijão, arroz." Quem disse essa frase foi algum oposicionista astuto, certo? Foi, mas não para complicar a vida do atual governo. Quem disse isso foi Lula, mas em julho de 2002. Candidato à sucessão de Fernando Henrique, não pensava nas contas do governo, mas em votos. Hoje pensa no veto a um aumento de R$ 15.


Ao comentar entre amigos o desempenho esplendoroso do atacante Ronaldo no jogo entre o Brasil e a Argentina, o Cabôco Perguntadô fez a descoberta: o craque resolvera exibir-se para a modelo Daniella Cicarelli, presente à tribuna do Mineirão. Convenceu-se de que o amor não é só lindo: também garante arrancadas, dribles e gols. Como Ronaldo não repetiu a performance no Chile, o Cabôco concluiu que faltou Daniella por lá. Está à procura do técnico Carlos Alberto Parreira para fazer-lhe uma pergunta: por que não incluir a namorada do Fenômeno na próxima convocação da Seleção. Ele vai retribuir no gramado o bolão que andam jogando antes e depois das partidas.


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[20/JUN/2004]


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