Luiz Cláudio Gomes da Silva comandava desde janeiro de 2003 a Coordenadoria Geral de Recursos Logísticos do Ministério da Saúde. No momento dispensado de aparecer no local de trabalho, nem precisava desse tipo de folga. Mas decerto aproveitou o feriadão de Corpus Christi para revisitar a chácara de dez hectares perto de Recife.
Ali convalesceu dos sobressaltos que lhe interromperam, na segunda quinzena de maio, a boa vida de figurão da República. No dia 19, comprovado o envolvimento com os larápios da Máfia do Sangue, foi preso pelos policiais engajados nas investigações da Operação Vampiro.
Com a liberdade, recuperada menos de uma semana depois, perdeu o cargo, “afastado preventivamente” pelo ministro e amigo Humberto Costa. É improvável que volte ao posto. Mas dificilmente acabará engaiolado. Não lhe faltam amizades úteis.
Convém ressalvar que a quadrilha agora desbaratada age desde o começo dos anos 90. Não se trata, portanto, de algo nascido no governo do PT. Mas Gomes da Silva é criatura de Humberto Costa (na foto). E isso envolve o partido.
Há quatro anos, ao assumir a Secretaria da Saúde de Recife, Costa o nomeou diretor-financeiro. Levou-o para Brasília em janeiro de 2003, para servir-lhe de braço direito. Deu no que deu.
Ele seria, para Costa, o que foi Waldomiro Diniz para José Dirceu. Nenhum dos ministros tem o direito de espantar-se.
Ambos sabem que nenhuma função pública garante salários invejáveis. Humberto Costa deveria ter perguntado ao amigo como conseguira comprar – há quatro anos, vejam a coincidência – aquela chácara em Igarassu. Nos fins de semana que ali passou, tampouco lhe custaria pedir a fórmula do milagre da multiplicação dos requintes.
Há uma sede com cinco suítes, duas residências para caseiros, estábulo, piscina, um campo de futebol soçaite e açude (com pista de acesso asfaltada). É só a casa de campo. Foi colocada em nome de terceiros, sabe-se agora.
Computado o subtraído às declarações de renda, como estará o patrimônio do homem? Quanto terá roubado a serviço da nação?
Enquanto o ladrão descansa, o amigo participa da inauguração de “farmácias populares” – outra bobagem eleitoreira – e recebe afagos do presidente. “Devemos solidariedade ao companheiro Humberto Costa”, declamou Lula na última pajelança. “Estamos no mesmo barco.”
Os brasileiros decentes estão fora. Gomes da Silva deveria estar preso. E Costa, de novo metido em trapalhadas, poderia fazer o favor de sair de cena.
Neste país, como disse Jânio Quadros, não se renuncia sequer ao cargo de síndico. Só agem com desprendimento os homens de bem. Não são poucos, mas sempre souberam guardar distância de embarcações que lembram uma nau dos insensatos.
A geladeira vazia do presidente Sarney

Foi o jornalista Getúlio Bittencourt, então chefe da sucursal da Veja, quem disseminou em Brasília o hábito de marcar encontros com figurões durante o café da manhã. A novidade surgiu no início dos anos 80. Fez sucesso, para desolação de antigos passageiros da noite. Horários historicamente obscenos – sete, sete e meia da madrugada – foram incorporados à rotina de trabalho. Getúlio Bittencourt, meu velho amigo: foi o pai da idéia.
Num fim de noite em Brasília, soube que o dia seguinte começaria cedo. “Temos um café da manhã”, avisou Getúlio. “Com o Sarney, sete e meia.” Achei um despropósito. O senador José Sarney era presidente do PDS. Pelo andar da carruagem, os militares não durariam tanto tempo no poder, mas os civis governistas ainda nem piavam.
Não havia no horizonte sequer vestígios de campanhas pela eleição direta do presidente, muito menos sinais de dissidências no PDS. Para que, então, aquela conversa?
E naquele horário? “Deixa de ser arrogante”, cortou Getúlio. Mas por que às sete e meia? “Porque ele gosta”, encerrou. Fui, resignado. Como iria outras vezes, muitas. Sempre em companhia de Getúlio, sempre naquele horário. Sempre achando que estava perdendo tempo. Até que Sarney virou presidente. Liguei para Getúlio e capitulei: meu amigo era um profeta.
“Ele vai continuar te recebendo naquele horário”, tripudiou. Assim seria. De hábitos moderados, Sarney gostava do horário. E tinha motivos para deduzir que dividíamos o encanto pela contemplação da aurora. Sempre havíamos conversado cedo. Por que não manter a conversa no café da manhã, à base de queijo de leite de cabra, queijo-de-minas, pão, café com leite, só?
Fora o horário, nada ali lembrava uma família americana. Mas tivemos encontros interessantes, um deles no Palácio da Alvorada. Numa manhã de 1988, ficamos sentados frente a frente no meio de uma mesa enorme, dessas usadas em banquetes do Lions. Mais ninguém. Eu combatia o sono, ele parecia especialmente animado. Comia e falava, falava e comia.
Entre uma garfada e outra, engolia uma das pílulas coloridas que se aglomeravam no pratinho ao lado. E seguia o discurso sobre o espetáculo de desenvolvimento patrocinado pelo Plano Cruzado. Comecei a achar aquela conversa meio doida. A euforia dos primeiros meses acabara, o país entrara no que os economistas chamavam de “crise de desabastecimento”.
Faltava carne, o delegado Romeu Tuma comandava caçadas a rebanhos supostamente escondidos por sabotadores. Faltava tudo. O frango que antes sobrava também sumira, a inflação voltava a galope. Estava claro que aquilo iria acabar mal. Mas Sarney esbanjava otimismo.
“O importante é que quem comprou uma geladeira continua com a geladeira”, ouvi o anfitrião argumentar. Despertei de vez. “Mas não há nada na geladeira, presidente.” Gentil como sempre, olhou-me com expressão misericordiosa. “Só que agora existe a geladeira”, explicou. “E antes não havia a geladeira.”
Na galeria de imortais
Concebido para contemplar declarações tão pomposas quanto vazias, frases ininteligíveis ou textos amalucados, o troféu Yolhesman Crisbelles – nome inspirado na expressão inscrita na faixa que abre os desfiles da Banda de Ipanema – também prevê premiações especiais, destinadas a grandes sopas de letras. Uma delas ocorreu nesta semana, protagonizada pelo governador do Paraná, Roberto Requião. Criticado pelo senador Álvaro Dias, que acusou tanto Requião quanto o presidente Lula da Silva de leniência frente às invasões de terra ocorridas no Estado (“Eles fazem corpo mole diante dos abusos do MST”, acusou Dias), o governador do PMDB partiu para a conquista da taça com o seguinte recado ao adversário:
“Puxa, Álvaro, quanto ódio no teu coração! Te remeto ao salmo 91: ‘Mil cairão ao teu lado e 10 mil à tua direita, mas não serás atingido.’ Como diz a música, na casa do Senhor não existe satanás. Aproveite melhor o teu tempo: tente ioga, relaxamento. Quem sabe um dia o Lula volta atrás e te nomeia embaixador na Bélgica, te livrando desta angústia, enchendo teu coração de alegria. Quiçá, quiçá, quiçá...”
Requião acaba de entrar para a galeria de imortais do Yolhesman Crisbelles.
Em março de 2003, quando o bandido Fernandinho Beira-Mar já circulava pelo Brasil à frente de uma comitiva de policiais e sob o patrocínio dos contribuintes, à caça de uma cadeia em condições de hospedá-lo, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, prometeu o pronto início da construção de presídios de segurança máxima em vários pontos do país. O Cabôco Perguntadô gostaria de ver ao vivo como anda a gestação de qualquer dessas cadeias. Ele tem uma só interrogação a endereçar ao ministro: onde encontrar algum canteiro de obras?