As gavetas da memória estavam quase vazias. Prontas para guardar as coisas da vida que mal começava a ser vivida. Prontas para arquivar o que ensinavam as professoras do grupo escolar. Algumas lições seriam úteis, outras teriam alguma importância, muitas de nada serviriam. Mas sobravam gavetas.
Os meninos da roça, pobres, descalços e famintos, aprendiam com dificuldade. Pensavam mais na sopa do recreio que no falatório das aulas. Numa prova mensal, perguntaram quais eram os três Poderes da República: “Baixinho”, “Gordinho” e “Simpático”, respondeu um deles. Grande e sucinta descrição de Getúlio Vargas.
Se ainda vigorasse o Estado Novo, a resposta valeria nota 10. Não na segunda metade da década de 50, anos depois do tiro no coração. Mas para aquele menino quem mandava no Brasil ainda era Getúlio. Que os bem-alimentados da turma cuidassem de outros saberes, de outros requintes.
Os que garantiam com proteínas o bom volume de neurônios assimilavam tanto conhecimentos bem-vindos quanto rematadas bobagens. Havia os que decoravam todos os afluentes do Amazonas. Eu me divertia descobrindo palavras com correspondentes femininos esquisitos. “Elefante” tinha, além de “elefanta” e “elefoa”, aquele estranhíssimo “aliá”. Jamais usaria a expressão.
Mas gostei de saber que existia. Também achei divertido descobrir que havia um correspondente feminino para “general”. Era “generala”. Mas que mulher haveria de ser generala, meu Deus do céu?
Errei espetacularmente.
Protagonista da tragédia do Iraque, a generala Janis Karpinski, guerreira americana a serviço do governo George Bush, assumiu o comando da prisão Abu Ghraib. Ali seria montado o cenário para a ampliação das fronteiras da brutalidade. Ali, em momentos documentados por fotos e vídeos, haveria a fusão da tortura com a pornografia. E no comando estava uma mulher. Uma generala.
Os jornalistas se referem à figura não como “generala Janis”, mas “general Karpinski”. O tratamento masculinizado trai o espanto de quem sempre tentou crer que certas crueldades eram exclusividade dos homens. Mulheres viam a vida de outra forma.
Por quê? Sobretudo por conhecerem o sentimento da maternidade. Bobagem, como sugerem declarações da oficial sobre o episódio. “A tortura foi ordenada e aprovada por investigadores da inteligência militar americana”, informou a guerreira de 51 anos.
Entre os torturadores destacou-se a soldada Lynndie England, uma jovem de jeito simplório que, depois de apontar o revólver para o órgão genital do prisioneiro, sorri como quem pergunta na lanchonete se o freguês quer mais ketchup.
Janis e Lynndie confirmaram que a banalidade do mal iguala os seres humanos. O menino dos anos 50 aprendeu o que não sabia. E passou a sentir-se mais velho.
Admirador de Dora Kramer, o Cabôco Perguntadô anota as contas que a colunista divulga periodicamente sobre a frase pronunciada por José Dirceu em 16 de março, quando o caso Waldomiro Diniz agitava o Planalto: “Antes da Semana Santa, vou botar os pingos nos is.” Como neste domingo o aviso completará 43 dias, e os pingos nos is de Waldomiro Diniz continuam limitados a três, o Cabôco pergunta: quando prometeu deixar tudo muito claro, José Dirceu estava pensando na Semana Santa de 2004 ou na do ano que vem?
Um porre com Jânio Quadros (conclusão)
O dia em que bebi com o presidente Jânio Quadros, aqui relembrado na semana passada, deixou curiosos muitos leitores. Alguns ficaram justificadamente intrigados: se naquela tarde de maio de 1980 o repórter acabou nocauteado pelo uísque, como pôde publicar a entrevista? A explicação está na foto: enquanto o campeão me mantinha nas cordas, mandando jabs e uppercuts, o jornalista Jomar Moraes seguia anotando o que Jânio dizia. Competente e sensato, Jomar só tomou água.
Outros quiseram esclarecimentos para um aparente mistério: se bebeu tanto, como pôde Jânio fornecer material suficiente para uma reportagem de capa da Veja (e capa das boas)? Porque aquele entrevistado dominava a arte de lidar simultaneamente com copos e palavras.
Só especialistas em Jânio conseguiam notar a ultrapassagem de barreiras etílicas invisíveis. Depois de atingida determinada distância, por exemplo, ele passava a ditar o que diria aos jornalistas.
– Dois pontos – ordenava.
As frases eram sublinhadas por cuidados que denunciavam o rigoroso professor de Português do Colégio Dante Alighieri: vírgula, ponto, ponto-e-vírgula – todos os detalhes eram enunciados entre um gole e outro.
A derrubada das garrafas costumava deixá-lo mais criativo. De manhã, entre São Sebastião e Santos, dissera a Jomar que achava Paulo Maluf “um moço com muito futuro na cena política paulista e nacional”. Cheguei depois da conversa.
No meio da tarde, refiz a pergunta. Jânio já vencera a etapa das 17 latinhas de cerveja e dos seis copos americanos de caipirinha. Estava no vinho do Porto. Mudara de bebida e também de idéia. Soltou de improviso uma grande frase.
– Com Maluf, Deus me deu um Adhemar de Barros com correção monetária.
Foi essa a frase que a revista publicou. Jânio não a desmentiu, como não renegou nenhum trecho da reportagem.
Só jurou que não bebera.
O craque anônimo
Um leitor da coluna pinçou o seguinte trecho do papelório batizado de “Noções básicas de segurança e saúde do trabalhador”, editado pela Fundacentro, do Ministério do Trabalho:
“O mundo atual mudou o paradigma comportamental de preservação da espécie, priorizando o da qualidade de vida e, conseqüentemente, o da preservação de acidentes através da análise de riscos, sob este enfoque.”
A estranha salada de vogais e consoantes leva o troféu da semana. Como o redator – um craque – não está identificado, a taça será entregue ao ministro Ricardo Berzoini.
Jaques Wagner, o presidente Lula e Antonio Palocci, inspirados nas gêmeas olímpicas, aperfeiçoam movimentos da nova
modalidade que muitos ministros do governo liderado pelo PT vêm praticando nos últimos 16 meses: o nada sincronizado