O currículo oficial de José Viegas Filho, exemplarmente minucioso ao relatar sua trajetória como diplomata, é bastante avaro em informações sobre a formação militar do ministro da Defesa. Subordinado (em tese) só ao comandante supremo das Forças Armadas, cargo exercido pelo presidente da República, não se fica sabendo sequer se Viegas fez o serviço militar (em tese) obrigatório.
É provável que tenha passado por algum Tiro de Guerra, ou freqüentado durante meses quartéis destinados a adestrar recrutas. Se foi assim, ao menos aprendeu a acautelar-se contra tiros pela culatra ou no próprio pé. Já é alguma coisa.
A carreira escolhida, a silhueta franzina, o temperamento cordato, tudo isso sugere que Viegas nunca levou jeito para herói de guerra. Mas a coleção de medalhas e condecorações militares anotadas no currículo é de matar de inveja qualquer general paraguaio. Todas as Armas lhe concederam alguma Grã-Cruz das muito cobiçadas.
A FAB também conferiu a Viegas a Medalha Santos Dumont, a Marinha o homenageou com a Medalha Tamandaré. Pena que, junto com a indicação para o cargo, o ministro da Defesa do Brasil não ganhe também fardas de gala - aquelas cujo branco impecável garante contrastes tão vistosos com medalhas coloridas e cruzes adornadas por laços.
Até recentemente, poderia parecer exagero um Viegas nessa versão. Como diplomata, a maior batalha em terreno militar foi travada ao representar o país nas negociações internacionais que levaram à proscrição de minas terrestres. Assinou os acordos, mas algo não deu certo. O Brasil não só mantém minas estocadas como tem permitido que engrossem o arsenal do crime organizado.
Já não haveria exagero agora. A teimosia federal em ocultar a verdade sobre a Guerrilha do Araguaia provocou o aparecimento de um Viegas brigador e, quem diria, incendiário. Ele afirmou que documentos militares sobre o episódio foram incinerados. Mentiu. Vai tombar em breve, numa batalha inglória.
A primeira-dama dos jardins
Brasileiros costumam ser gentis com as primeiras-damas, que vêm mantendo, com poucas exceções, bom padrão de qualidade. Até 1930, quando as mulheres enfim conquistaram o direito ao voto, agiram com tamanho recato que poucos recordam seus nomes. Esse virtual anonimato seria quebrado por Darcy Vargas, que instituiu o modelo clássico: sem descuidar da família, ocupava-se de trabalhos sociais, agindo tão discretamente quanto possível. Foi assim de 1930 a 1945. Não mudaria no governo que começou em 1950 e acabou com o tiro no coração.
Entre um período e outro, o Brasil conheceu o casal Eurico e Santinha Dutra. Passava o tempo em casa, aos sussurros. Sussurrava para rezar, promover intrigas e confabular com hierarcas da Igreja Católica. (Desses cochichos nasceu, por exemplo, a idéia do fechamento dos cassinos.) Sarah Kubitschek e Eloá Quadros esbanjaram classe (e simularam ignorar os excessos dos maridos mulherengos). Maria Tereza Goulart foi vítima de rumores torpes, favorecidos pela beleza incomum. Sofreu o exílio ao lado de Jango, que morreria literalmente em seus braços.
Scylla Médici e Lucy Geisel limitaram-se ao papel de donas-de-casa. Yolanda Costa e Silva portou-se sem exageros enquanto o marido mandou. Iria à forra depois. Dulce Figueiredo foi uma campeã da breguice. Amava viajar para o Rio no avião presidencial. Ou para fazer compras ou para abrilhantar festas. Numa delas, dançou com o ator Omar Shariff. Ficou muito emocionada. Marli Sarney foi exemplarmente sóbria. Rosane Collor passou pelo poder como uma Miss Canapi sem tempo para folhear manuais de etiqueta.
Ruth Cardoso, antropóloga respeitada internacionalmente, seria a mais admirável entre todas: sem ruído, mostrou como pode uma primeira-dama manter a própria luz. E agora temos Marisa Letícia da Silva. A mulher de Lula merece respeito: brasileira de origem humilde e vida sofrida, circula com firmeza e altivez tanto no andar de baixo, que conhece há tempos, como no de cima, que vai aprendendo a dominar. Merece respeito mas anda precisando de conselhos, antes que se transforme em generosa fonte de piadas.
Instalar a primeira-dama num gabinete do Planalto foi idéia de Duda Mendonça, convencido de que isso sublinharia a imagem do casal unido. Entrar sem bater no gabinete do marido já é coisa de Marisa. Por deselegante e impróprio, o hábito deve ser proibido pelo presidente da República. Acompanhar o marido em todas as viagens, seja Oropa, França ou Bahia o destino do vôo, é só uma singularidade. O que pega mal - muito mal - é não doar a programas sociais presentes valiosos que recebe, como as jóias trazidas da passagem pelos Emirados Árabes.
Também pegou mal a idéia de infiltrar floridas estrelas vermelhas nos jardins do Alvorada e da Granja do Torto. Nesses endereços, tombados pelo Patrimônio, todos os inquilinos são temporários. E qualquer jardineiro honesto daria nota zero ao resultado estético.
Lula e Marisa ficam juntos praticamente o dia inteiro. Deveriam conversar sobre assuntos que talvez lhes pareçam secundários. Não são. Ajudam a entender a cabeça de gente que manda no Brasil. Às vezes, pode até mesmo desnudar-lhes a alma.
Palocci leva o troféu
De modo geral, o ministro Antonio Palocci diz coisas inteligíveis, goste-se delas ou não. Mas deve ter ficado confuso com o tamanho do desemprego em São Paulo. Só isso pode explicar a sopa de letras que produziu sobre o assunto:
O Brasil, nesse momento, não conseguiu enfrentar o problema do desemprego na dimensão que o país exige, mas o que há de positivo é que a geração de emprego é positiva. É fortemente positiva.
Levou o troféu da semana.
A ministra Marina Silva continua muda sobre o massacre de 27 garimpeiros por índios cintas-largas, ocorrido numa jazida de diamantes da reserva Roosevelt, em Rondônia. Como tanto os matadores quanto os mortos pertencem aos chamados ''povos da floresta'', o Cabôco Perguntadô quer saber de que lado está a ministra do Meio Ambiente. Marina acha que os índios agiram corretamente ou devem ser punidos?
À espera do próximo
Cinco meses depois do primeiro ataque promovido por militantes do MST, o fazendeiro Luiz Coelho Barros Júnior constatou a serventia da barricada que improvisou em torno da sede da propriedade, no Pontal do Paranapanema. Domingo passado, quando a coluna publicou a foto ao lado, outro ataque deixou mais de 100 marcas de balas na muralha de sacos. O dono diz que a fazenda é produtiva. O governo paulista acha que é devoluta. A Justiça e a polícia esperam que alguém morra para agir.
[02/MAI/2004]
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