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A arte da dissimulação
[29/FEV/2004]
O prenome de menino bem-nascido, Carlos Henrique, antecipava um galho pendurado em árvores genealógicas antigas: Gouveia de Mello. Magro, estatura mediana, barbas e cabelos longos, nariz marcadamente aquilino, aparentava cerca de 25 anos quando chegou a Cruzeiro do Oeste, interior do Paraná, na primeira metade da década de 70. Naquelas terras ainda à espera de domadores, a chegada de forasteiros não provocava surpresa nem estimulava perguntas incômodas. O jovem desconhecido, avesso a fazer confidências ou falar sobre o passado, imaginou ter achado o lugar certo.
Meses depois, já proprietário da loja de roupas O Magazine do Homem, passava horas na cadeira instalada atrás do balcão. Depois de atender algum freguês, hasteava-se na porta e, de pé, observava silenciosamente a modorra da Rua João Rezende. As tardes dos sábados eram consumidas no bar a metros do estabelecimento comercial. Acomodado perto do balcão, alternava a contemplação das partidas de sinuca (jogava de vez em quando) com a leitura do semanário Tribuna do Oeste.
Um adolescente que o conheceu naqueles tempos costumava fazer-lhe perguntas sobre fatos históricos. Impressionava-se com a precisão das respostas, curtas e claras. Como gente de interior gosta de pespegar apelidos, Carlos Henrique Gouveia de Mello logo virou “Pedro Caroço”. Fazia sucesso nos programas populares das emissoras de rádio a música Severina Xique-Xique, em que o intérprete se referia a alguém sempre “de olho na butique dela”. Carlos Henrique estava namorando Clara, que tinha a melhor butique da cidade (além de cabelos louros e olhos azuis).
Wilson Beline decidiu chamar de “Pedro Caroço” o sócio e amigo. O apelido pegou. Assim o identificavam tanto companheiros dos sábados, como o boêmio “Mazzaropi”, quanto figuras gradas de Cruzeiro do Oeste, caso do delegado Aimoré.
Só duas vezes o adolescente que fazia perguntas o viu protagonizando explosões de ira. A causa da primeira foi o irmão de Wilson Beline, que resolvera brincar com a bengala flexível de Pedro Caroço e acabou por quebrá-la. Também descontrolou-se com o furto das moedas guardadas no cofrinho sob o balcão.
Puniu com palavrões tremendos os larápios jamais identificados e retomou a rotina tranqüila. Em tempos de eleição, o comandante do Magazine do Homem se tornava mais lacônico. Nunca manifestou ostensivamente opções partidárias, nunca se descobriu que preferências políticas cultivava. Ele evitava emitir opiniões até mesmo sobre miudezas municipais. Até que foi decretada, em 1979, a anistia destinada a apressar o fim do período militar.
Só então Cruzeiro do Oeste soube que abrigava havia mais de cinco anos o perseguido político José Dirceu de Oliveira, ex-dirigente estudantil banido do Brasil no episódio do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Vivera exilado em Cuba e voltara ao país clandestinamente.
Só então Clara e o filho nascido do casamento com um homem que jamais chamara pelo nome verdadeiro souberam que nunca existira um Pedro Henrique Gouveia de Mello. José Dirceu de Oliveira reassumiu a identidade oculta e partiu sem a família.
Ele agora se tem queixado de que seu amigo e assessor Waldomiro Diniz agiu de modo dissimulado. O aluno teve um excelente professor.
Brasileiros vivem celebrando, nos desfiles da Sapucaí, os europeus que descobriram o país do carnaval. Talvez tenha chegado a hora de cantar aventuras e façanhas de compatriotas que, em pleno Terceiro Milênio, continuam descobrindo terras de cuja existência a gente nem desconfiava. O sempre ousado Paulo Maluf, por exemplo, conheceu as Ilhas Jersey, no meio do Canal da Mancha, muito antes dos espectadores do filme Os outros, ambientado naquelas paragens. Agora, o audacioso ex-prefeito Celso Pitta acaba de confirmar a existência de uma certa Ilha Guernsey, também no Canal da Mancha. Havendo um bom banco, garantida a lavagem, podem apostar: a turma dá um jeito e chega lá.
Registrei na semana passada, como exemplo de injustiça resultante do habitual açodamento do PT, o caso de Eduardo Jorge Caldas Pereira, secretário-particular da Presidência da República na Era Fernando Henrique. Contei que Eduardo Jorge, reduzido a réu por mandarins petistas, foi por eles condenado sem provas. Convencido de que isso não basta, o ex-assessor do Planalto escreveu à coluna para deixar claro que colaborou voluntariamente nas investigações até deixar provada sua inocência.
“Eu próprio sugeri ao Ministério Público a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico”, informa. “Entreguei aos procuradores minha completa evolução patrimonial desde a década de 80, com identificação de origem de recursos.”
Sempre espontaneamente, procurou todos os órgãos envolvidos nas apurações, pronto para fornecer explicações e provas. “Não se encontrou nenhum indício de que eu tenha praticado qualquer ato ilegal, imoral ou antiético”, enfatiza. Um rastreamento promovido pelo Banco Central nas contas vinculadas ao nome de Eduardo Jorge nada localizou de irregular. Tal constatação foi endossada por auditorias da Receita Federal.
“Apesar do ‘escândalo’ alimentado por boa parte da imprensa e do Ministério Público, nem mesmo os Josés Dirceus ou Genoinos da vida foram capazes de verbalizar uma só acusação contra mim”, argumenta Eduardo Jorge. “Limitaram-se a levantar dúvidas que, na opinião de ambos, mereceriam ser investigadas por uma CPI.”
Ele admite ter conversado, por telefone e pessoalmente, com o notório juiz Nicolau dos Santos Neto. “Naquela época, tratava-se de um magistrado aparentemente respeitado por todos”, ressalva. A hipótese de que o assessor de FH teria ajudado Nicolau a liberar verbas para as obras do TRT de São Paulo seria “uma impossibilidade jurídica”. Quando nada, pela complexidade do processo.
“A trama exigiria a cumplicidade do ministro da Fazenda e seu secretário-executivo, do secretário do Tesouro, do presidente do TST e do diretor-geral do TST”, ironiza. Nenhuma dessas autoridades foi ouvida. Tampouco os deputados do PT que apresentaram emendas favorecendo a obra. Vários deles também conversaram por telefone com Nicolau, como se pôde comprovar.
Essa discriminação aborrece Eduardo Jorge tanto quanto a expressão “tráfico de influência”, incluída na coluna de domingo. “Ninguém conseguiu descrever um só episódio em que isso tenha se dado”, reitera. “Nunca tive vínculos desse tipo com qualquer empresa.” Eduardo Jorge está processando veículos de comunicação e procuradores que, a seu ver, estiveram engajados numa “campanha de desmoralização”.
Relança um repto que abrange o colunista. “Façam uma completa auditoria em minha vida e verifiquem se existe um só centavo cuja origem eu não possa explicar”, desafia. Para Eduardo Jorge, é injusto apenas dizer que nada é capaz de incriminá-lo. “Creio ter deixado claro que foi muito diferente”, repete em tom indignado. “Eu tive de provar minha inocência. E provei.”
Bem traduzida, uma fusão de versos dos sambas-enredos das escolas de São Paulo, todos baseados no aniversário da cidade, poderia explicar aos turistas estrangeiros o que ocorreu há 450 anos e nas décadas imediatamente seguintes. Por exemplo:
O rei mandou convidar:
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