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O país espera agora o desfile dos gatunos


Se o governo barrar a CPI, ficará marcado pelo medo de uma investigação mais profunda'', afirmou José Genoino. ''Quem não deve não teme'', resumiu Lula. Como de hábito, José Dirceu foi o mais contundente: ''O governo procura abafar, com a ajuda de alguns órgãos de imprensa, as investigações contra integrantes do primeiro escalão.'' As frases foram reproduzidas sem retoques. Mas não significam que os três pais da pátria mudaram de idéia sobre o caso de Waldomiro Diniz, o extorsionário trapalhão promovido a braço direito do capitão do time do Planalto. Significam que cabeças mudam quando no poder.

A declaração de Genoino é de 1997, quando o então deputado amava uma CPI. Qualquer CPI. Aquela se destinaria a investigar a suspeita de que parlamentares haviam sido comprados para apoiar a reeleição do presidente da República. As palavras de Lula e de José Dirceu datam de 2000, quando ambos solicitavam o justiçamento de Eduardo Jorge, assessor de Fernando Henrique acusado de tráfico de influência.

Naqueles tempos, convém registrar, deputados e senadores leais a FH, quase todos filiados ao PSDB, ao PFL e ao PMDB, consideravam dispensáveis CPIs do gênero - e combatiam o uso do instrumento com a mesma argumentação agora declamada por petistas. O raquitismo da bancada oposicionista era compensado, de alguma forma, pelo berreiro tremendo. Até hoje não se encontraram provas que incriminassem Eduardo Jorge. Mas Dirceu decidiu: era culpado.

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, o futuro superministro incluiu trechos cuja releitura hoje lhe será certamente penosa. Um deles: ''Aos poucos, o país, escandalizado, foi descobrindo que o presidente tinha a seu lado, durante 20 anos, um auxiliar acusado de tráfico de influência, prática de advocacia administrativa, lobby, favorecimento pessoal e familiar em diversos episódios.'' Troque-se presidente da República por chefe da Casa Civil e o libelo escrito em julho de 2000 pode ser aplicado ao escândalo cujo pivô é Waldomiro Diniz.

As diferenças entre um episódio e outro não melhoram a vida de José Dirceu. A culpa de Eduardo Jorge, caso exista, está por ser provada. A ação criminosa de Waldomiro Diniz foi admitida pelo próprio delinqüente. O assessor de Fernando Henrique nunca teve com o presidente da República a intimidade concedida por José Dirceu ao homem com quem chegou a dividir apartamento em Brasília. Quem ignora diferenças entre atacante e zagueiro não pode ser capitão de time nenhum.

Como tantos governos, também o montado pelo PT achou especialmente providencial o calendário de 2004, que decretou o começo do baticumbum quando o barulho em torno da crise assumira dimensões inquietantes. O carnaval impõe alguns dias de trégua, verdade. O povo aproveita a pausa para descansar também dos governos. Mas não esquece problemas e aflições da vida real. Não há como esquecê-los. Se alguém no governo duvida disso, basta fazer um teste de popularidade singelo e sem custos. É só algum ministro exibir-se num camarote na Sapucaí. Qualquer ministro. Nem precisa ser José Dirceu.

Mas é depois da festa que o mundo real retomará por inteiro os espaços momentaneamente cedidos ao país da cuíca e do tamborim. Os horizontes não parecem animadores para quem se habituou a contornar qualquer crise pela trilha da esperteza. O PT só topa uma CPI se for para investigar-se todas as traquinagens e roubalheiras, presentes ou passadas? O Brasil decente aplaude a idéia. E que sejam, enfim, punidos os culpados. Já é hora.

REQUEBROS DA HISTÓRIA NO PAÍS DO CARNAVAL

fotos de arquivo

Políticos, bicheiros, sambistas e colossos femininos têm protagonizado, sempre em fevereiro, saltos históricos no país do carnaval. No alto, à esquerda, o governador Chagas Freitas oficializa o ritual da saudação à bandeira da escola que passa: é a autoridade formal curvada ao poder dos grandes bicheiros, transformados em patrocinadores do desfile. Acima, o governador Leonel Brizola e o prefeito Marcelo Alencar comandam a inauguração do Sambódromo na Sapucaí: escancara-se no asfalto a cumplicidade que renderia alianças eleitorais com donatários de morros e favelas. Abaixo, à esquerda, Castor de Andrade mostra quem manda: é o sinal de que os chefões já acham muito acanhados os lucros do bicho. Ao lado, a modelo Lilian Ramos vive seu maior momento. Em respeito à liturgia do cargo, a coluna preserva a identidade do seu parceiro.

A resposta do fenômeno

A coluna recebeu do vereador Janio Mendes, do PDT de Cabo Frio, a carta abaixo reproduzida:

''Fui tomado por um misto de tristeza e decepção, pois não esperava ver o Jornal do Brasil transformado em tribunal de exceção. Acredito na liberdade de expressão e na Justiça. Estou disposto a responder por todos os atos da minha vida. O que não posso é aceitar a condenação prévia, sem o direito de defesa.

Ousei ser presidente da Câmara num período conturbado. Salários de funcionários e vereadores estavam atrasados. A Câmara nem veículo possuía. Não apenas pagamos salários atrasados, mas também buscamos na prefeitura solucionar o problema do veículo. Disso resultaram o empréstimo do referido Del Rey e o fornecimento de combustível para que vereadores pudessem utilizar seus veículos a serviço da Câmara.

Estávamos elaborando a Lei Orgânica e precisávamos da participação de todos. A movimentação de quantias no período 89/90 foi submetida a auditoria e aprovada sem ressalvas pelo Tribunal de Contas do Estado. O jornalista sugere que mereço ''cadeia''. Enquanto estiver livre, seguirei lutando contra a corrupção, o monopólio do transporte coletivo, as fraudes no Sistema Único de Saúde e os preços absurdos da coleta de lixo.

Também continuarei a caminhar pelas ruas da cidade de cabeça erguida, com a consciência do dever cumprido. Peço ajuda para divulgar os fatos que ocorrem em Cabo Frio, em busca da verdade. Esse compromisso caracteriza a história do JB.''

O vereador só não explica o essencial: como conseguiu percorrer 110 mil quilômetros em 59 dias. Mesmo com a ajuda dos parceiros, é um recorde espantoso.

Patrus vira advogado e leva a taça

O ministro Patrus Ananias ganhou a taça ao socorrer José Dirceu em bacharelês:

Eu aprendi, como advogado e professor de direito, que uma das grandes conquistas civilizatórias é o princípio da individuação da pena.

Quis dizer que Dirceu é uma coisa, Waldomiro é outra coisa. Como se este pudesse ter feito o que fez se não fosse braço direito daquele.

Linha direta com Jesus funciona mesmo, gente boa: com uma ordem só, o homem destituiu o subordinado da liderança da bancada, das funções religiosas e da chefia da quadrilha.


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[22/FEV/2004]


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