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O ministro pensa longe (e pensa grande)


O presidente Lula da Silva avisou aos ministros, ainda no ano passado, que dinheiro não há. Culpa da herança maldita, das barreiras comerciais americanas, da instabilidade em outros hemisférios, das tantas assombrações que conspiram contra o Brasil. O fato é que não há dinheiro. Como faltam verbas, os ministros que tratem de usar a imaginação. Só assim o povo, sempre à espera do espetáculo do crescimento anunciado há quase um ano, poderá distrair-se com o palco federal.

Consumada a, como direi?, reforma ministerial, Lula deu outro recado: terminou a fase do “eu acho”. O governo acaba de entrar na etapa do “eu faço”. Mas a turma continuará sem dinheiro. Deve, portanto, recorrer mais do que nunca à imaginação. “Qualquer dúvida, é só procurar o Zé”, aconselhou o presidente. (“Zé” é José Dirceu de Oliveira. O recado de Lula informa que caímos num parlamentarismo de fato. Em tese, Zé é o chefe da Casa Civil. Na prática, virou primeiro-ministro.)

Um tanto confusos, e compreensivelmente perturbados pelo medo de perder o emprego na próxima degola, ministros que sobreviveram à cimitarra do Ano Novo estão à caça de idéias boas e baratas. E que não demorem a sair do papel: Lula está começando a perder a paciência (que José Dirceu nunca teve). Tamanha pressa tanto pode estimular momentos inspirados quanto produzir rematadas maluquices. Nesta segunda categoria deve ser incluída a idéia anunciada na Índia pelo ministro do Turismo.

Walfrido dos Mares Guia, deputado mineiro escolhido para representar o PTB no primeiro escalão, acha que teve uma sacada de gênio: convidar os cineastas daquele país a transformar o Brasil em locação preferencial dos seus filmes. O país tropical serviria simultaneamente de abrigo e cenário para a turma das produções financiadas por produtores indianos.

Incorporado à comitiva de Lula, Mares Guia teve 22 horas de vôo para colher informações sobre a terra de Gandhi. Soube que a indústria cinematográfica esbanja saúde naquele país. Em volume de obras realizadas anualmente, talvez só perca para os americanos. O mercado local garante a boa vida de astros, estrelas e diretores.

Grandes sucessos mantêm as salas superlotadas – visão celestial para quem trabalha com cinema no Brasil e vive em busca de verbas, patrocínio e platéia. E então Mares Guia enxergou no Brasil um gigantesco set a céu aberto, pronto para receber forasteiros cavalgando gruas em vez de elefantes.

Alguém pode ter lembrado ao ministro que os enredos dos filmes indianos costumam encomendar cenários já existentes por perto. Mares Guia terá retrucado que o que existe por lá existe também por aqui, e é mais bonito. Há de tudo neste mundão que vai do sertão calorento à neve do Sul, da floresta ao pampa, da catarata à caatinga. Certamente haverá as paisagens reivindicadas pelos mais exigentes dos roteiristas.

Filmes indianos habitualmente recrutam elencos numerosos e exércitos de figurantes. O Brasil é muito longe. Como contornar o problema? A vinda do elenco, deve ter pensado Mares Guia, alguma estatal haverá de bancar. Quanto aos figurantes, tanto melhor. Como não será possível trazer tanta gente sem a reabertura de programas de imigração, os cineastas recorreriam à mão-de-obra brasileira. E surgiriam milhares de empregos. Transitórios, certo. Mas emprego é emprego.

Mares Guia anda muito imaginoso. Ainda acaba ministro do Trabalho.

Presidente ganha a taça na Índia

Como recomenda a liturgia do cargo, a coluna pede permissão ao presidente para homenageá-lo com o troféu da semana. Lula é quase sempre inteligível – seus improvisos suprimem os do fim das palavras, juntam singular e plural no mesmo balaio, mas dá para entender o que ele quer dizer. Não foi assim com a amalucada exortação em Nova Déli:

Convoco os companheiros indianos a participar de outra globalização.

A Índia mexe com a cabeça das pessoas.

Um deputado audacioso

Uns poucos devolveram os dois salários adicionais garantidos pela convocação extraordinária do Congresso. Quase todos vêm conferindo com discreto prazer as quantias depositadas regularmente na conta bancária de cada um. O deputado federal Max Rosenman, do PSDB paranaense, é mais audacioso. Além de embolsar a afrontosa gorjeta, resolveu nomear-se general da batalha inglória. Para Rosenman, a culpa é da imprensa, que insiste em noticiar o tema. Ressalva que os salários extras foram estabelecidos por lei. (Finge ignorar que quem a inventou foi o próprio Legislativo.) Acha que os jornalistas fazem tantas críticas por falta do que fazer. Rosenman diz que trabalha muito. Talvez esteja à beira da exaustão, o que explica frases insensatas. Deveria descansar. Dinheiro é o que não lhe falta.

Unanimidade

Quatro entre cinco mulheres que conviveram dez minutos com Walter Salles devem estar pensando em conhecer melhor o cineasta. A quinta já tentou. Walter, que vem por aí com seu filme mais recente – Diários de motocicleta –, tornou-se uma espécie de Chico Buarque da virada do milênio. Ambos são bonitos como os próprios sobrenomes. Um faz grandes músicas. Outro, grandes filmes. Certo, há os célebres olhos de ardósia do compositor. Mas as mulheres garantem: Walter fala tão sedutoramente que a voz até parece azul.


[01/FEV/2004]


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