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Um homem avesso a afetos reais


Líder da bancada governista até o começo da semana, o deputado Aldo Rebelo viveu seu primeiro domingo como integrante do primeiro escalão. Em tese, está incorporado à tropa do Partido Comunista do Brasil. Na prática, é o mais obediente legionário do PT. Foi premiado com um cargo que mal cabe no cartão de visita: ministro de Coordenação Política e Relações Federativas. É título de quem manda muito, capaz de impressionar interlocutores nativos ou forasteiros.

Assustado com a pompa, o próprio Rebelo cuidou de comunicar ao país que, escalado para jogar ao lado do chefe da Casa Civil, não vai tirar poder nenhum de José Dirceu. “Vamos apenas dividir responsabilidades”, declarou o recém-chegado. Não vão, não. José Dirceu, no governo Lula, tornou-se ministro de Tudo. Continuará a sê-lo, escalando Rebelo para missões específicas.

Igualmente dispensável foi ressalvar que José Dirceu não perderá poder. Ou Rebelo fica em seu canto ou nem esquenta cadeira. José Dirceu pertence à espécie de político com raros afetos reais. Raríssimos, no caso. Rebelo não é sócio desse clube fechadíssimo cujo presidente é Fidel Castro.

Há poucas semanas, durante a visita a Cuba da comitiva liderada pelo presidente Lula da Silva, o velho amigo foi confirmado no cargo. O rosto lacrimoso do ministro encostado no peito paternal de Fidel pode ter produzido uma cena patética. Não é todo dia que o superministro de um regime democrático fica tão emocionado por rever o mais antigo ditador do planeta. Mas ao menos serviu para reafirmar o carinho de José Dirceu por Fidel.

O ditador continua a chamá-lo de “Daniel”, codinome usado pelo jovem exilado político durante as temporadas vividas na ilha. Foram duas. Na primeira, José Dirceu submeteu-se a treinamentos que formam guerrilheiros de elite. Com a face redesenhada por uma cirurgia plástica, voltou clandestinamente ao Brasil em 1971 (ou 1973, os biógrafos divergem). Felizmente para todos, o clandestino achou prudente esquecer tiroteios e esconder-se no Paraná.

Na pacata Umuarama, disfarçado de comerciante, casou-se com a dona de uma butique, teve um filho e nem piou sobre assuntos políticos até 1979, quando a anistia o alcançou. Só então contou à família quem era e avisou: estava de partida. Homens comuns teriam tomado o primeiro ônibus para São Paulo. José Dirceu é menos singelo. Voltou para Cuba, restaurou o rosto com outra plástica e desembarcou no Brasil entre exilados da primeira divisão. Só mais tarde se soube do demorado desterro em Umuarama.

De novo casado, acoplou-se a Lula, assumiu o controle da máquina do PT e passou a exibir o temperamento glacial. Usou armas pesadas contra companheiros da juventude, como Vladimir Palmeira e Fernando Gabeira, integrante do grupo que conseguiu retirá-lo da cadeia.

Lula gosta muito de José Dirceu. E ele, tem afeto por Lula? Ninguém sabe.

O avião virou prioridade

Aviões presidenciais de uso exclusivo se vão tornando soberba de rico ou extravagância de pobre. Figura na segunda categoria o Airbus que servirá às viagens de Lula. Num país de miseráveis, ele poderia usar a imaginação e encontrar soluções mais baratas, como pede aos ministros. Preferiu o colosso de US$ 56,7 milhões, ou R$ 175 milhões. Ou 3,5 milhões de cartões do Fome Zero.

O dinheiro engolido pelo avião não fica muito abaixo dos R$ 200 milhões reservados para o Ministério do Turismo em 2004. Está bem acima dos R$ 122,1 milhões prometidos ao Ministério do Esporte. E supera amplamente os R$ 75 concedidos ao Ministério da Pesca. Lula talvez queira planejar o combate à fome – sua maior prioridade – com o conforto merecido por um operário que virou presidente da República.

A voz dos olhares

No primeiro dia do ano, estou outra vez no quarto que ainda é meu na casa de minha mãe. Lá me esperam os avós, alojados em retratos nas paredes. Percorreram trajetórias bem distintas, mas todos se assemelham nos olhares. São sisudos, severos, solenes. Parecem quase tristes de tão graves. Resgatei-os um a um, e há tempos enfim nos juntamos para o convívio negado pelas trapaças da vida. Antônio, Honória e Emílio sequer me viram nascer. E eu nem tinha 12 anos quando Amábile me deixou órfão dos pais de meus pais.

Então começaram os encontros entre um neto e os avós que não pôde conhecer. A cada reunião, somos cinco passageiros de noturnas travessias – travessias que confirmam, nos muitos diálogos mudos, a eloqüência do silêncio. Nenhum paradoxo: vozes de almas e olhares não são coisa para os tímpanos. Emitem ondas, não sons. E só o coração sabe ouvi-las.

Antônio Nunes da Silva, catarinense bonito, foi o primeiro a chegar. Era um pouco mais velho que o neto. Como o tempo não passa para quem vive em retratos, o avô de 40 anos com 40 continua. Hoje o mais velho sou eu. Os olhos verdes de Antônio são tão claramente verdes que é possível ver-se o verde no retrato em preto e branco. E a expressão é docemente máscula.

Resume a história de um homem contemplado pelo raro equilíbrio dos que preferem a paz sem jamais fugir à guerra. Dos que mantêm a mão estendida mas adivinham a hora de fechá-la para o soco (ou levá-la ao gatilho).

Honória Gonçalves veio em seguida, para o demorado reencontro. Tem só vinte e poucos anos (e não verá muitos mais, murmura a demasia do branco que lhe envolve as pupilas). Os sertanejos sabiam que gente assim morre moça, como cedo morreria a cabocla paulista: 35 anos de vida e mil de melancolia. Honória não é bela. A fisionomia exprime a coragem dos que aprendem a suportar quaisquer dores, mesmo a iminência do fim. E todas suportou com a altivez sem bravatas e a bravura sem rompantes da mulher do sertão.

Cedo também morreria o plácido austríaco Emílio Menon. No retrato que o aprisiona, parece recém-saído de alguma cervejaria dos grotões da Baviera. O rosto gordo e rosado lembra cara de dono. O olhar afirma o contrário. É o olhar guloso de quem espreita, com a contrição do impio pronto para atacá-las, procissões inteiras de copos. Do homem que sempre ergue, quando o crepúsculo chega, um brinde a todas as noites.

É o mais recente dos hóspedes. Chegou logo atrás de Amábile Zamarioli, que nunca foi só retrato.

Morta, seguiu vivendo na memória de quem pôde, graças a ela, ao menos imaginar o que é ter uma avó. Suave como o prenome, muito antes de Guevara aprendeu a endurecer sem renunciar à ternura, como os incontáveis órfãos da Itália que souberam resistir ao exílio decretado pela fome irremediável. Que empreenderam a viagem indesejada e sem volta, e nem assim revogaram o sorriso.

Os olhos azuis dessa avó italianíssima convidam a idéias eugenicamente adúlteras. Se ela tivesse trocado Emílio pelo outro avô, como seria o azul-verde dos olhos de algum fruto de Antônio e Amábile? Já tratamos desse assunto. E de muitos outros.

Pergunto-lhes com insistência como souberam inventar caminhos onde nem trilhas havia, e cruzar montanhas, matas e mares na dura perseguição a Eldorados camuflados nos confins do imaginário. Falamos do Brasil, do governo, da cidade, da família, das coisas da vida. Tratamos de tudo, de todos.

Não foi assim no último encontro. Os retratos me contemplam estranhamente calados. “Boa noite”, murmuro. Não será, adverte o silêncio conjunto dos olhares. Então me dou conta da profunda mudança que impõe a quietude. Como em tantos janeiros, estamos no mesmo quarto da casa da minha mãe. Mas desta vez a mãe já não há.

Homenagem póstuma

O economista Marcos Vianna, testemunha visual e auditiva, não recorda o nome do protagonista. O episódio ocorreu há mais de 50 anos. Vianna tinha apenas 12 e acompanhava o pai, secretário da Fazenda do Espírito Santo, na cerimônia de inauguração de uma coletoria em Guarapari. O clima da festa, aquecido por rojões, fogos de artifício e estudantes com bandeirinhas, estimulou o prefeito a infiltrar no discurso de saudação uma sopa de letras poderosamente amalucada:

“Guarapari, país formoso e hereditário, onde se respira o ar por conseqüência. De um lado (o orador olhou para o mar), vemos o oceano marital. De outro (virou-se para o lado oposto), temos o oceano matagal.”

O prefeito da velha Guarapari merece a primeira homenagem póstuma conferida pela coluna desde a criação do troféu. Leva a taça da semana para o Espírito Santo.


[25/JAN/2004]


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