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O lucrativo verão do Congresso


No fim de 2003, deputados e senadores que trocaram em Brasília votos de um próspero Ano Novo apenas trataram de seguir as normas de etiqueta vigentes nessa época. Todos sabiam que o verão de 2004 seria muito lucrativo, graças à convocação extraordinária do Congresso pelo presidente Lula da Silva. Provavelmente comovido com o bom comportamento dos parlamentares, o chefe de governo resolveu oferecer-lhes um presente de Natal. Um presente e tanto. Serão reservados a sessões no plenário 20 dias úteis. Permanecerá intocado o calendário da preguiça, que manda emendar aos fins de semana também as sextas e segundas. Merece respeito a folga de quem se esfalfa a serviço da nação. Ninguém é de ferro.

Pelo esforço, cada parlamentar receberá dois salários adicionais de R$ 12.720,00, embolsando R$ 25.440,00. Ou R$ 1.172,00 por dia trabalhado. “A convocação é escandalosa”, comentou (precipitadamente, como logo se veria) o próprio presidente da Câmara, João Paulo Cunha. “Deve ter sido um erro do Planalto. Como pagar dois salários se não teremos produção nenhuma?” Bastou uma conversa com o ministro de Tudo, José Dirceu, para João Paulo constatar que devolver presentes é provocação, deselegância. Horas depois do destempero, Cunha já considerava a convocação extraordinária um grande passo para a aprovação de projetos essenciais à retomada do crescimento, à criação de empregos, à queda dos juros, talvez à chegada do homem a Marte. E essas coisas não têm preço.

O deputado Chico Alencar (PT-RJ), integrante do pequeno grupo que se recusa a receber essa remuneração afrontosa a um país com milhões de miseráveis, faz um lembrete bastante oportuno. “No primeiro dia de fevereiro, quando a atual legislatura completar um ano, os parlamentares terão recebido 19 salários por 11 meses de trabalho”, informa esse deputado que honra o Rio e as tradições do velho PT.

As muitas batalhas perdidas não induzem à capitulação o otimista vocacional. Chico Alencar e seus parceiros vão exigir a inclusão, na pauta das sessões extraordinárias, do projeto que reduz à metade o recesso parlamentar de 90 dias. “Trata-se de um imperativo ético-político”, argumenta o deputado. “Isso ainda não aconteceu por motivos inconfessáveis.”

Em entrevista ao Jornal do Brasil, o senador José Sarney admitiu que as coisas foram longe demais. “Devemos abdicar dessas regalias a que temos direito”, disse o ex-presidente da República. Deputado ainda na década de 50, o atual presidente do Senado é PhD em tais assuntos. Ele sabe que nos últimos 15 anos o Congresso foi convocado extraordinariamente 18 vezes, sempre com resultados raquíticos. Sabe que o povo se vai sentindo insultado com os salários da turma, quintuplicados por truques e espertezas. Mas Sarney também sabe que é complicado convencer quase 600 parlamentares a renúncias do gênero.

A pouca vergonha coletiva é favorecida pelo cenário. Com Brasília, nosso inventivo Oscar Niemeyer criou uma cidade inimiga das gentes. Ali, multidões só se formam quando desembarcadas de ônibus alugados por organizações sindicais. Imagine-se uma convocação extraordinária como a que vem por aí transferida para o Rio. O povo logo saberia quanto custava a festa. E o Congresso, instituição indispensável a democracias genuínas, correria o risco de ser dissolvido. Fisicamente.

Cumplicidade criminosa

Assassino confesso de 12 crianças gaúchas, Adriano da Silva, 25 anos, escapou por pouco de ser linchado pela multidão que cercava a cadeia onde se hospeda. Em brilhante artigo publicado pelo Estadão na segunda-feira, o jornalista José Nêumanne fez a ressalva indispensável: Adriano matou tantos graças à cumplicidade de autoridades federais e estaduais. Não fosse assim, ainda estaria preso em União da Vitória, no Paraná, condenado a 27 anos de reclusão por roubo, assassinato e ocultação de cadáver. Fugiu da cadeia meses depois. Foi para o Rio Grande do Sul e recomeçou a matar. Duas vezes preso como suspeito, foi solto “por falta de provas”. A Justiça e a polícia gaúcha não consultaram colegas paranaenses. Se o fizessem, saberiam que o Paraná continua fora do sistema nacional de informações sobre criminosos. Só agora o governador Roberto Requião, tão íntimo de Lula que o visita trajando camisa de mangas curtas, prometeu conseguir as verbas federais necessárias. Só que o dinheiro não existe.

Critérios

A Petrobras reservou uma bolada respeitável – R$ 22,5 milhões – para acelerar a equipe da Williams na temporada da Fórmula-1. A creche-escola do Centro Espírita União, Amor e Luz, de Salvador, ficou com bem menos: R$ 131 mil. A empresa garante obedecer a critérios rigorosamente técnicos para distribuir essas verbas.

Argumento

A denúncia lançada sobre o ex-prefeito de Guaribas – acusado de tungar dinheiro destinado a famílias incluídas no Fome Zero – não deixa de ser bom sinal. Se houve roubalheira, é evidente que algum dinheiro já se conseguiu juntar. José Graziano pode usar esse caso para pedir ao presidente Lula que o mantenha à frente do programa.

A réplica do homenageado

Agraciado com o troféu na semana passada, o professor Cândido Mendes não gostou da homenagem. Replicou com a mensagem reproduzida a seguir, que reafirma a elegância do mestre e, em muitos momentos, o completo domínio do yolhesmancrisbellês castiço.

Prezado amigo

Atingiu-me o seu “Sete Dias”. Hesitei, em boa parte da minha vida, em sair do livro e do ensaio para a batalha da comunicação jornalística. Só o fiz por intimação expressa de Dr. Alceu que, em 83, me fez passar a este gênero, em colaboração semanal ao “Jornal do Brasil” e à “Folha de São Paulo”, inclusive, após sua morte, às sextas-feiras. Nesse longo período procurei ajustar-me ao que fosse esta especialíssima escrita, suas regras objetivas e seus limites à elaboração do pensamento. Impus-me, nessas contribuições, guardar um texto reflexivo, ao lado da informação. Minha aposta foi ao que pudesse suportar o artigo de estilístico, no emprego da metáfora, da aliteração, ou do explorar-se o léxico, que possa se somar a indispensável fluência da redação jornalística.

Acredito que uma língua não entra em inverno obrigatório, frente à linguagem de jornal, e que o consumidor diário pode querer mais do que a leitura ainda sonâmbula, do que abre na cama ou no café da manhã. Tal como não acho que o artigo ideal seja o que se esqueça na hora, para só responder aos estereótipos da recepção de massa.

Só tenho a admirar, e de há muito, o seu papel criador na imprensa brasileira. No que agora nos dá, nos seus “Sete Dias”, exatamente como marca de um estilo trazido com brio ao fait divers e ao anedótico. Não acredito, como Barbosa Lima, que uma colaboração passada a leitura do instante joga-se na cesta. Mas não cheguei ainda àquela refinadíssima “sensação do inacabado” ou do casual, que Mauriac quis dar aos seus bloc notes no “Figaro”, exaustivamente trabalhados como um quase soneto.

Persevero nesse intuito, e quero a sua crítica continuada. Entendo que um jornal como o JB e o público a que destina, e que é só seu, na inteligência carioca, pode comportar o grão da dissonância e da frase exigente. Errarei muito ainda no meu dito barroco, e no achado verbal por vezes temerário. Mas sei que nos entendemos, no que falo a um escritor – o que quero ser – e, sobretudo, a um inquieto com o nosso tempo e sua reflexão, no que compartilho, espero, com uma mesma consciência.

Na admiração que reitero, e no abraço, todo, de Cândido Mendes.


[18/JAN/2004]


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