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A indulgência que anula a sensatez


O presidente Lula da Silva, sob o olhar leniente ou o entusiasmo escancarado de muitos devotos, fez do Brasil o único país do mundo onde ser derrotado em eleições regionais pode transformar-se em ótimo negócio. Algum candidato do partido foi vencido na disputa para o governo estadual ou para o Senado? Pois o Ministério está aí justamente para mostrar que Lula não é homem de abandonar companheiros.

Não existem ministérios para tantos deserdados das urnas? Pois que se criem outros, ou então se trate de inventar uma ''secretária-especial'' que garanta ao titular o status de ministro. Emília Fernandes, reeleita, seria apenas mais uma senadora. Perdendo, lucrou: virou ministra dos Direitos da Mulher, embora até hoje ninguém no Planalto saiba explicar direito o que é isso.

Benedita da Silva, desempregada, foi para o primeiro escalão cuidar da Promoção Social. Só ganhou espaços no noticiário ao decidir rezar em Buenos Aires, hospedada no esplêndido Hotel Alvear. Alguns conseguiram ministérios de verdade, como Humberto Costa, pinçado para cuidar das coisas da Saúde.

(Outros foram contemplados com estatais mais valiosas que governos. Caso se elegesse em Sergipe, José Eduardo Dutra estaria, no momento, implorando verbas e empréstimos federais em Brasília. Nomeado presidente da Petrobras, gastou R$ 54 milhões só para celebrar os 50 anos de vida da empresa. Dutra vive bajulado por nativos e forasteiros em busca de patrocinadores de cofres cheios.)

Sem contar gente como Dutra, Lula tem uma equipe formada por 35 ministros ou secretários especiais com status idêntico. O jornalista Ricardo A. Setti foi direto ao ponto: nenhum executivo do mundo é capaz de despachar regularmente com tamanha multidão. Mas não há sinais de que será reduzida ao fim da errática e claudicante reforma ministerial.

Imagine-se um encontro de prestação de contas do primeiro escalão. Para utilizar comparações familiares a Lula, duraria o equivalente a um jogo de futebol, incluído o intervalo. Distribuídos entre os presentes, esses 105 minutos resultariam em três para cada um. É tempo suficiente para cumprimentar o presidente, que nem teria tempo para retribuir o gesto, e agradecer a oportunidade de ter falado algo.

Além de cultivar o hábito de recolher náufragos das urnas, Lula também parece avesso a livrar-se de auxiliares amigos, mesmo quando demasiadamente bisonhos. O presidente mantém armazenados, na garganta sempre loquaz, elogios para todos. Há pouco, disse que, se Walfrido dos Mares Guia fizer nos próximos três anos o que conseguiu em 2003, acabará transformado no melhor ministro de Turismo de todos os tempos. A maior proeza do ministro do PTB até agora foi hospedar-se, em Brasília, num hotel que cobra a diária de R$ 2.000.

Ou Lula não conhece direito o trabalho de Mares Guia ou está decidido a elogiar qualquer jogador do time. Ou ambas as coisas. Esta é a hipótese mais provável. O presidente também contemplou com frondosos adjetivos Emília, Benedita e até o ministro dos Transportes, Anderson Adauto. Tampouco faltarão frases gentis para quem vier do outrora satanizado PMDB. Não há governo que funcione satisfatoriamente quando orientado pelo critério da indulgência.

Não hesite, presidente. Afaste os incompetentes. Chame os melhores.

O professor fica com o troféu

Nosso bom Cândido Mendes caprichou tanto na argumentação favorável ao acerto entre o PT e o PMDB que ninguém entendeu o palavrório do respeitado cientista político. Saia ou não o acordo, ele merece receber o Yolhesman Crisbelles. Segue-se um dos trechos que reafirmam a justiça da homenagem:

No aceitar para mudar as regras do jogo, aí está o acordo com o PMDB, de impacto ainda mal pressentido, no alterar, de vez, o chão político primeiro do país, na disputa das prefeituras. Associado ao PT, o partido do Dr. Ulysses deixa para trás o PFL, seu inimigo íntimo de todo o sempre, e rival no Brasil-município. Uma vitória da nova aliança descola, de vez, o sistema de poder do acordo endogâmico que condenava os governos federais sempre ao ''entra e sai'' no Palácio, comandado por um entre os dois partidaços e, afinal de contas, responsáveis pela eterna torna ao país do mesmo. Nessa aliança com um deles, o PT chega às bases como as transforma: a coligação acompanha o destino do pote de barro frente ao pote de ferro. Avulta a força que sabe o que quer e transforma. E o PMDB não terá, nesse empuxe, outro caminho que o de modificar-se para enfrentar, sem volta, a mobilização eleitoral diferente. Nele perde os trunfos obsoletos que agora traz a bandeja da futura vitória petista. A transformação social pega de dentro, morde no inesperado e se faz por fora do que apregoe o canto das patativas da radicalidade. O PMDB vai permitir ao governo um desempate final, no plano do Brasil de fundo.

Bonito, isso. Pena que incompreensível.

Precipitação em Roraima

Tão cauteloso como advogado, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, tem-se mostrado um tanto imprudente como conselheiro do presidente Lula da Silva. Deveria ter prevenido o chefe, por exemplo, sobre as confusões que viriam inevitavelmente com a assinatura do decreto que cria a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

E as jóias?

Agora que já impressionou amigos e parentes com a exibição das jóias que ganhou na viagem pela Arábia, a primeira-dama Marisa Letícia chegou ao momento da decisão. Ou consuma a doação ao Fome Zero da fortuna em colares e pulseiras de ouro e pedras preciosas ou comunica ao povo que, como o dado não é roubado, José Graziano e Frei Betto devem procurar doadores em outras paragens.

E os outros?

Para reafirmar que nada tem de antiamericana - limitou-se a cumprir a Lei de Reciprocidade -, o juiz federal de Mato Grosso responsável pela instituição do fichamento nos aeroportos deveria baixar a borduna em certos países árabes. Alguns negam visto a brasileiras. Outros exigem que as turistas só circulem internamente em companhia de um homem. Obrigue o Brasil a fazer o mesmo, doutor.


[11/JAN/2004]


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