Houve tempos em que a inflação progredia em lentidão decimal, e assim se permitia a estabilidade das efígies. Em boa parte dos anos 50, por exemplo, vigorou entre gerações de crianças brasileiras a sensação de que a nota de 1 cruzeiro, ilustrada pelo Almirante Tamandaré, jamais teria afetado o poder de compra, garantido pelo olhar severo do herói dos mares. Outros rostos, freqüentemente adornados por barbas, suíças, cavanhaques ou bigodeiras retorcidas, foram inquilinos longevos das cédulas do cruzeiro. A moeda nem existe mais, vítima de um galope inflacionário que também instituiu o motel das efígies.
A sucessiva emissão de notas requeria figuras ilustres em quantidade crescente. De repente, o governo percebeu que logo faltaria gente para tal homenagem (que já ia se tornando duvidosa). A ilustração das notas, com a discrição possível, passou a recorrer a relíquias da nossa flora e nossa fauna, sempre tão variadas.
O Brasil é uma das raras nações do planeta que quase esgotou o estoque de pais da pátria com cacife para enfeitar as próprias cédulas. Era muita inflação para pouco herói. Não deixa de haver semelhanças entre o problema enfrentado pelas autoridades monetárias, até que a inflação fosse controlada, e a ameaça lançada sobre os chefes da Polícia Federal.
Aparentemente, a PF acelerou o ritmo dos trabalhos e tem exibido melhoras sensíveis no desempenho. Neste país, quadrilhas nunca faltaram. De uns tempos para cá, todavia, vêm recrutando metodicamente bandidos de terno e gravata. A roubalheira passou a ser avaliada em dólares. Convergiram para os bandos canalhas originários todos os Poderes e Estados, combinaram-se negociatas em distintos sotaques.
Estimulada pela grita dos homens de bem, a Polícia Federal desencadeou a inadiável ofensiva. Como sobram larápios, não faltaram alvos à espera de operações. O que começa a faltar é o necessário nome em código escolhido para designar ações do gênero. A turma do ofidiário já freqüentou muita manchete de jornal. Houve há pouco tempo uma Operação Cobra Coral, desenvolve-se no momento uma Operação Anaconda de abrangência inquietante.
Segue adiante também a Operação Banestado. É nome de charme escasso (e farta ladroagem). Mas exigir-se tanto da imaginação policial parece exagero. A Anaconda apenas começou a dar botes nos répteis mais vistosos e a Polícia Federal se viu obrigada a deslocar parte dos agentes para Roraima. Ali a grande quadrilha chefiada pelo ex-governador Neudo Campos montara um esquema destinado a desviar dos cofres públicos montanhas de dinheiro.
Agiam com a volúpia de gafanhotos. Nome da operação: Praga do Egito. Boa sacada. Mas não há imaginação que acompanhe roubalheira em tamanha quantidade e em tais dimensões. Ou se acaba com a impunidade ou faltarão nomes para operações da PF. Registre-se: a identificação de figurões já recolhidos à cadeia, como o juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, é sempre um bom começo.
Rocha Mattos e seus asseclas estiveram no meio de casos que beneficiaram muitos morubixabas da política paulista. Sobretudo por isso, é muito animador constatar que as investigações avançam com força na direção de outros integrantes do bando integrado pelo juiz. Mais ladrões se vão enredando em teias complicadas. Bom mesmo será a condenação dos responsáveis. Melhor que isso, só a recuperação do dinheiro que há tanto tempo gente assim vem surrupiando ao povo brasileiro.
Que tais usos e costumes se estendam a todos os casos, aí incluído o dos “gafanhotos” de Roraima. Pode estar envolvido na história o atual governador Flamarion Portela. Com a vitória de Lula, Portela abandonou espertamente o raquítico PSL e se bandeou para o PT. Ganhou a simpatia do Planalto, traduzida há dias no apressado apoio do presidente do partido, José Genoino. É improvável que Genoino promovesse a absolvição liminar do governador se Portela ainda estivesse no PSL.
Apesar de trapalhadas do gênero, o filme vem agradando à platéia. Está na metade, os bandidos se organizam para reagir. O PT não pode perder chance tão preciosa de mostrar que é diferente dos demais partidos: no governo Lula, não haverá contemplação com ladrões.
Será bonito ver isso.
SENADOR DAS ARÁBIAS
Barrado numa reunião entre o presidente Lula da Silva e autoridades sírias, o senador Ney Suassuna
(PMDB-PB) prometeu que no item seguinte da programação em Damasco não só estaria presente
como daria um jeito de brilhar. A ilustração comprova que o bravo Suassuna consumou a promessa.
O retorno de um campeão
De férias no Brasil depois de algumas semanas estafantes em Roma, o ex-presidente Itamar Franco, embaixador na Itália, reapareceu repaginado: lembra um Dom Pedro I septuagenário. Depois de ministrar as habituais lições sobre como governar o país com mais eficácia – Lula já sabe, por exemplo, que é preciso “mudar o rumo” e “adotar o norte da campanha” –, Itamar levou para Minas o Yolhesman Crisbelles com a explicação oferecida para o novo visual:
“Não se trata de nenhuma inspiração setembrina. Às vezes, nos permitimos uma modificação. Talvez seja uma busca de um novo encontro, que só ocorre quando a gente vem de uma cidade em que há muita fé e espírito de reconciliação.”
Senador das Arábias
Barrado numa reunião entre o presidente Lula da Silva e autoridades sírias, o senador Ney Suassuna (PMDB-PB) prometeu que no item seguinte da programação em Damasco não só estaria presente como daria um jeito de brilhar. A ilustração comprova que o bravo Suassuna consumou a promessa.
Procissão de boas notícias
Não, não é o espírito de Natal invadindo a coluna e tornando o horizonte todo cor-de-rosa. Nem se acaba de aqui descobrir que a vida também é feita de muita coisa boa. Quem não sabe disso? Ocorre que, de vez em quando, fatos agradáveis dão de desfilar em procissão. Então, o mais cinzento dos anos fica admiravelmente luminoso.
Quem gosta de cinema já pode acompanhar o diretor Clint Eastwood na grande viagem construída por seu filme mais recente, Sobre meninos e lobos. Enquanto isso, saboreia-se a espera do momento da estréia brasileira de Diários de motocicleta, outra explosão de talento do diretor Walter Salles, na iminência de comover o Festival de Sundance.
O escritor Moacir Japiassu está na praça com Concerto para paixão e desatino. O livro se apóia em episódios ocorridos na Paraíba às vésperas da Revolução de 1930 para reafirmar a presença de um romancista maior. Japiassu é dos grandes.
O livro de Marcos Sá Corrêa sobre Itatiaia reúne textos e imagens de tal forma deslumbrantes que ressuscitou entre amigos a pergunta antiga: ele escreve tão bem quanto fotografa ou fotografa tão bem quanto escreve?
E Villas-Bôas Corrêa completou 80 anos, sólido e cada vez mais lúcido, corajoso e independente, respeitado à esquerda e à direita. Nosso Villas é, sobretudo, uma evidência de que é possível, sim, ser decente a vida inteira.
O primeiro símbolo do PT nunca tinha ouvido falar de um companheiro de nome Flamarion Portela. Descobriu que se trata do governador de Roraima, convertido ao petismo com a vitória de Lula. Também soube que o homem fora pinçado no PSL, sopa de letras tão familiar a João quanto uma temporada em estações de esqui. Ele vai pedir uma audiência ao companheiro José Genoino. Pela veemência com que defendeu Portela das suspeitas de envolvimento nas falcatruas em Roraima, o presidente do PT, além de revisor da Bíblia, é hoje Aquele-que-Tudo-Sabe-e-Tudo-Vê.