A expressão serena e duas palavras bastaram para que a atriz francesa Simone Signoret dispersasse os jornalistas interessados em interrogá-la sobre o caso amoroso entre seu marido, Yves Montand, e Marilyn Monroe, reunidos para filmagens em Hollywood.
– Isso passa – vaticinou Simone.
Passou, como costumam passar romances nascidos em filmagens, como passam até histórias mais consistentes. Neste país especialmente volúvel em matéria de afetos, tal inconstância se estende ao campo da política. Milhões de brasileiros hoje sofrem de alegre arritmia pela chegada ao poder do presidente Lula da Silva. Não custa lembrar-lhe, e aos companheiros do PT, a história de Yves Montand, Marilyn Monroe e Simone Signoret. Isso passa. Ou pode passar.
Milhões de nativos já exibiram corações em descompasso, perdidos de paixão por outros pais da pátria. Getúlio, Juscelino, Jânio e Fernando Henrique, por exemplo, foram muito amados. Também amargaram o ódio ou a indiferença das multidões. Todos aprenderam que governavam uma nação de impacientes. Todos aprenderam que, se não é possível atender a tamanha demanda de esperanças, não se pode deixar de alimentar sonhos com palavras e, sobretudo, ação. Tancredo Neves, que quase tudo sabia, sabia disso também.
Naquele começo de 1985, numa sala de reuniões da Editora Abril, vi pela primeira vez alguém transformar em isqueiro a brasa do cigarro agonizante, para acender mais um e assim manter o ritmo das baforadas. Mas o emissário de Tancredo não fora à procura da revista Veja para protagonizar prodígios tabagistas. Levava uma mensagem em código do presidente eleito.
– Confiram a pasta dele e vejam se as fotos são suficientes – recomendou, depois de resumir as complicações judiciais que envolviam um grande empresário.
Avisou que a figura em questão viraria celebridade nacional nos primeiros dias do novo governo.
– Quanto à foto da capa, não se preocupem: é a do homem numa cela – informou. – Vamos mandar prendê-lo e chamar a imprensa.
O mensageiro do poder admitiu que a prisão só duraria algumas horas: faltava sustentação legal para conservá-lo no xadrez. Mas o tempo de exposição aos fotógrafos bastaria para comunicar ao país, com imagens fortes, que as coisas iriam mudar. A era da impunidade começava a morrer.
O eleito morreu antes da posse. Assumiu o vice, José Sarney, que não mandou prender ninguém. Jamais se saberá que efeitos provocaria a idéia de Tancredo. O fato é que os homens de bem seguem à espera do ataque frontal à roubalheira. Lula prometeu uma ofensiva contra a corrupção. Se souber comandá-la, seu caso de amor com o povo será decerto mais duradouro.
Ele nem precisa de truques. Pinheiro Landim, juízes desonestos, Silveirinha e seus fiscais, todos seguem livres e lampeiros. Que se providencie cadeia para todos.
A propósito
Rodrigo Silveirinha, o fiscal gatuno, efetivamente aprecia a modalidade que o tornou milionário. Enquanto depositava dólares no banco suíço, violava normas de trânsito ao volante de um Citröen Evasion. Evasão, em inglês.
Incomodado com os sinais de cizânia, o chefe Lula da Silva avisou que quer ouvir o PT inteiro falando a mesma língua. Só falta criá-la.
A governadora Rosinha Garotinho pode aumentar rapidamente a arrecadação do Estado do Rio. Basta designar funcionários honestos para voltar às empresas que abriram os cofres ao ataque dos fiscais dolarizados. Em vez de propinas, desta vez pagarão tributos.
Parlamentares que representam o Distrito Federal no Congresso têm direito a auxílio-moradia e passagens aéreas para visitas às bases. Entre eles está o senador Paulo Otávio, que é dono de hotéis e costuma circular a pé por alguns redutos eleitorais.
O deputado federal Jair Bolsonaro, que se transferiu do PPB de Paulo Maluf para o PTB de José Carlos Martinez, tem defendido com muita veemência a instituição da pena de morte e o apoio do seu partido ao novo governo. Nessa ordem.
Estamos conversados
– Depois de ter examinado o processo, o senhor tem alguma dúvida sobre o envolvimento de Pinheiro Landim com traficantes de drogas? – perguntou Erika Klingl, repórter do JB.
– Ele não está envolvido com narcotráfico. Pinheiro Landim é suspeito de facilitar a venda de habeas-corpus para narcotraficantes – respondeu Barbosa Neto, corregedor-geral da Câmarados Deputados. Em seu relatório, disse, apresentou “indícios” para a cassação de Landim.
– Tanto assim que ele renunciou.
Mas logo estará de volta para começar o novo mandato.
– Como será conviver com Landim no plenário?
– Não terei nenhuma dificuldade, como não tive com outros. Não tenho nada a temer.
Não tem mesmo. Nem ele nem Landim nem qualquer outro delinqüente protegido por imunidades parlamentares e amparado pelo corporativismo sempre viçoso no Congresso.
Atendimento aos leitores
Um leitor escreveu perguntando pelos nomes dos deputados estaduais do Espírito Santo contemplados com 30 mil reais cada um, em 2000, para apoiar a candidatura de José Carlos Gratz à presidência da Assembléia Legislativa. Pois não. Pela barganha acima resumida, tiveram a prisão preventiva solicitada pelo Ministério Público Federal os seguintes representantes do povo capixaba: Sérgio Borges (PMDB), José Tasso (PGT), Gilson Amaro (PPB), Gilson Gomes (PFL) e Marcus Gazani (PGT).
Como se constata, os deputados comerciantes formam uma bancada multipartidária. Dos cinco, dois estão homiziados num certo PGT. Os outros prontuários se distribuem por legendas distintas. O essencial é que o preço é o mesmo. Assim devem agir quadrilhas coesas.
Vozes Femininas
“Quem diria, hein, Costa? Nós aqui e você, Presidente da República.”
Yolanda Costa e Silva
(Às margens do Rio Sena, em Paris, durante conversa com o marido Artur, já escolhido para suceder Castello Branco no posto de general-presidente.)
“Os homens daqui talvez não saibam, mas as mulheres menstruam”.
Marta Suplicy
(Em 1994, ao assumir o cargo de deputada federal e constatar que seu gabinete não tinha banheiro.)
“Ele foi o maior estadista do Brasil. E muito bom de cama”.
Virginia Lane
(Em 1997, estrela do teatro rebolado, ao confirmar que tivera um caso com Getúlio Vargas.)