Em 1989, a Sociedade Interamericana de Imprensa reuniu-se em Monterrey, no México. Como faz habitualmente, reservou uma das sessões para que os representantes dos vários países relatassem eventuais agressões sofridas pela liberdade de expressão. Dias antes do encontro, mais uma explosão patrocinada por narcotraficantes mandara para os ares um bom pedaço da sede do jornal
El Espectador, de Bogotá.
Tratava-se de outra sangrenta mensagem do Cartel de Medellín, que compunha com o de Cáli a dobradinha dos principais grupos criminosos da Colômbia. Os bandidos se mostravam cada vez mais irritados com a teimosia do jornal em publicar reportagens sobre o submundo da droga.
Haviam começado a seqüência de represálias com a execução de jornalistas pouco notórios. O passo seguinte foi o assassinato de profissionais conhecidos. Em 1989, já haviam liqüidado diretores de publicações importantes, entre os quais o dono do tradicional diário de Medellín.
O irmão que lhe herdara o cargo, Luiz Cano, foi o relator da situação da imprensa em seu país. Concluída a perturbadora exposição, um repórter brasileiro propôs a publicação simultânea, nos quase 2.000 jornais filiados à SIP, de um mesmo editorial que examinasse com a necessária dureza a questão dos narcotraficantes assassinos.
A idéia foi aprovada por todas as delegações, com exceção da colombiana. Coube a Luiz Cano explicar o paradoxo aparente: ''Estamos com muito medo'', afirmou corajosamente. ''Já morreram jornalistas demais, nós nos sentimos inteiramente desprotegidos.'' Os colombianos afinal concordaram com a publicação do texto. Desde que assinado pelo autor.
El Espectador tentava sobreviver num país atormentado pelo poder paralelo dos criminosos. Um deles era Pablo Escobar, o megatraficante que controlava o Cartel de Medellín. Ele teve um começo de carreira semelhante ao prólogo da saga de Fernandinho Beira-Mar. Bancava pai dos pobres com a gente dos subúrbios, enchia os bolsos de policiais que ganhavam salários insatisfatórios, garantia a tranqüilidade de paragens habitadas por miseráveis assolados por delinqüentes do baixo clero. Enquanto isso, construía um colosso do crime organizado.
Os alicerces do cartel montado em Medellín, assim como em Cáli, foram forjados com pilhas de cadáveres. Escobar primeiro eliminou bandos rivais. Depois, fuzilou comparsas nos quais não confiava. Encerrada a primeira fase da ofensiva brutal, assumiu o posto de governador oficioso da região.
Ao sentir-se pronto para a guerra, decidiu abrir frentes de batalha em terrenos até então considerados intocáveis. Determinou a execução de policiais, promotores, juízes, políticos. E de jornalistas. A imprensa não soube avaliar a tempo as dimensões que o tumor medonho haveria de alcançar.
Porque não percebeu o tamanho do perigo, não reagiu em bloco, não combateu em conjunto, não clamou por socorro. O contra-ataque enfim se desencadeou, e hoje Pablo Escobar é só um nome na sepultura bem menos vistosa que a vida que levou. Mas o preço da imprevidência foi alto. Muitos jornalistas renunciaram ao ofício, mortos de medo. Outros morreram de morte matada.
Lembremo-nos de Pablo Escobar no momento em que, enquanto choramos Tim Lopes, um de seus assassinos, Ratinho, sorri no pátio de Bangu 1 ao lado dos parceiros do Comando Vermelho. Ainda buscamos o corpo de Tim. Ratinho exibe a barriga obscena ao lado do chefe Fernandinho Beira-Mar.
O secretário de Justiça, Paulo Saboya, acha que a situação melhorou. ''Eles estão se matando dentro da cadeia'', consola-se o secretário. ''É outra prova de que os bandidos foram presos.'' Sempre de olhos abertos, a inspetora Marina Maggessi, que entende do assunto, adverte: ''Mesmo as facções criminosas aparentemente enfraquecidas pelos conflitos nos presídios continuam fortes nas ruas, e em ação.''
Os vitoriosos no morticínio em Bangu, naturalmente, esbanjam musculatura. Saboya talvez não saiba que Elias Maluco, autor da ordem para a execução de Tim Lopes, segue à solta. Ele pertence ao Comando Vermelho, organização liderada por Fernandinho Beira-Mar. Não tem faltado celulares para que chefe e chefiados troquem idéias, montem planos e resolvam quem vai morrer. Elias Maluco estará sempre às ordens.
O secretário Saboya parecia feliz com o desfecho do 11 de setembro decretado pela bandidagem. Houve quatro mortes, certo (com um corpo carbonizado). Ficou claro que os agentes penitenciários haviam presenteado Fernandinho com as chaves necessárias ao passeio exterminador. Não se consumou a invasão determinada pela governadora Benedita da Silva. Os presos é que escolheram o instante adequado para encerrar o motim. Mas houve contrapartidas notáveis.
O governo pediu, por exemplo, que os assassinos arriassem a bandeira do Comando Vermelho, hasteada na fachada do pavilhão. E foi atendido.